17 – Capítulo XVII – Predições do Evangelho

CAPÍTULO XVII – PREDIÇÕES DO EVANGELHO

 

Ninguém é profeta em seu país. – Morte e paixão de Jesus. – Perseguição dos apóstolos. – Cidades impenitentes. – Ruína do templo de Jerusalém.

– Maldição aos fariseus. – Minhas palavras nunca passarão.

– A pedra angular. – Parábola dos vinhateiros.

– Um só rebanho e um só pastor.  – Vinda de Elias. Anúncio do Consolador. – Segunda chegada do Cristo. – Sinais precursores.

– Vossos filhos e vossas filhas profetizarão. Juízo final.

 

NINGUÉM É PROFETA EM SEU PAÍS

 

1.– E estando vindo em seu país, ele os instruía em suas sinagogas de sorte que, tomados de espanto, eles diziam: De onde vieram para ele esta sabedoria e estes milagres? – Não é este o filho deste carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria? E seus irmãos Jacó, José, Simão e Judas? – E suas irmãs não estão elas entre nós? De onde vê, pois, a ele todas estas coisas? E assim tornavam-no um motivo de escândalo. Mas Jesus lhes disse: Um profeta só é sem honra em seu país e na sua casa. – E não fez lá muitos milagres por causa de sua incredulidade. (São Mateus, cap. XII, v. 54 a 58)

 

2. – Jesus enunciou lá uma verdade passada em provérbio, que vale por todos os tempos e à qual se poderia dar mais extensão dizendo-se que ninguém é profeta em sua vida.

 

Na linguagem atual, esta máxima se relaciona ao crédito do qual um homem goza entre os seus e aqueles no meio dos quais vive, da confiança que lhes inspira pela superioridade do saber e da inteligência. Se há exceções, são raras e, em todos os casos, nunca são absolutas; o princípio desta verdade é uma consequência natural da fraqueza humana e pode-se explicar assim:

 

O hábito de se ver desde a infância, nas circunstâncias vulgares da vida, estabelece entre os homens uma sorte de igualdade material que faz que frequentemente si se refugue em reconhecer uma superioridade moral nele, do qual se tem sido o companheiro ou o comensal que saiu do mesmo meio e do qual se viu as primeiras fraquezas; o orgulho sofre de ascendência que ele é obrigado a passar. Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre na mira do ciúme e da inveja; os que se sentem incapazes de alcançar sua altura, esforçam-se de rebaixá-lo, pelo denegrir, pela maledicência e pela calúnia; gritam tanto mais forte quanto se vejam menores, crendo-se engrandecer e o eclipsar pelo barulho que fazem. Tal tem sido e tal será a História da humanidade, tanto que os homens não compreenderam sua natureza espiritual, e não ampliaram seu horizonte moral, também este julgamento é próprio dos Espíritos bitolados e vulgares, que reportam tudo à sua personalidade.

 

Por outro lado, faz-se geralmente dos homens que só se conhecem pelo seu espírito, um ideal que aumenta com o passar dos tempos e dos lugares. Despojam-nos quase da humanidade; parece que não devam nem falar nem sentir como todo mundo, que sua linguagem e seus pensamentos devam estar constantemente no diapasão da sublimidade, sem sonhar que o Espírito nem poderia estar incessantemente tenso e num estado perpétuo de superexcitação. No contato diário da vida privada, vê-se muito o homem material que nada o distingue do vulgar. O homem corpóreo que atinge os sentidos, apaga quase o homem espiritual que só toca o Espírito; de longe, só se vê os clarões do gênio; de perto vê-se os repousos do Espírito.

 

Após a morte, a comparação não mais existe, o homem espiritual fica só, e parece tanto maior quanto a lembrança do homem corpóreo esteja mais distante. Eis porque os homens que marcaram sua passagem sobre a Terra pó obras de um valor real são mais apreciados após sua morte, do que de sua vivência. São julgados com mais imparcialidade, porque os invejosos e os ciumentos desapareceram, os antagonismos pessoais não existem mais. A posteridade é um juiz desinteressado que aprecia a obra do Espírito, aceita-a sem entusiasmo cego se for boa, rejeita-a sem rancor se for má, abstração feita da individualidade que a produza.

 

Jesus podia tanto menos escapar das consequências deste princípio inerente à natureza humana, já que vivia num meio pouco esclarecido e entre homens todos inteiros na vida material. Seus compatriotas só viam nele o filho do carpinteiro, o irmão de homens também ignorantes quanto eles e indagavam o que poderia torná-lo superior a eles e lhes dar o direito de censurá-los; também vendo que sua palavra tinha menos crédito sobre os seus, que o desprezavam, do que para os estranhos, ele foi pregar entre os que o escutavam e no meio onde encontrava simpatia. Pode-se julgar de quais sentimentos seus próximos estavam animados a respeito disso para esse fato, que seus próprios irmãos acompanhados de sua mãe , vieram em uma reunião  onde ele se encontrava, para se apoderar dele dizendo que ele tinha perdido o Espírito. (São Marcos, cap. III, v. 20 e 21, 31 a 35 – Evangelho conforme o Espiritismo, cap. XIV)

 

Assim, de um lado, os sacerdotes e os fariseus acusando Jesus de agir pelo demônio; de outro, ele era taxado de desatino pelos seus mais próximos parentes. Não é assim que se usa atualmente em relação aos espíritas e estes devem se queixar de não serem mais bem tratados pelos seus concidadãos do que não o foi Jesus? O que não tinha nada de estonteante há dois mil anos, entre um povo ignorante, e mais estranho no século dezenove entre as nações civilizadas.

 

MORTE E PAIXÃO DE JESUS

 

3. – (Após a cura do lunático) – Todos ficaram admirados do grande poder de Deus. E quando todo mundo ficava na admiração do que fazia Jesus, ele disse a seus discípulos: Colocai bem no vosso coração o que vou vos dizer: o filho do homem deve ser liberado entre as mãos dos homens. Mas eles nunca entendiam esta linguagem; era-lhes de tal forma oculta que não na compreendiam nada e temiam, mesmo, de interrogá-lo sobre este assunto. (São Lucas, cap. IX, v. 44 e 45)

 

4. – Desde então Jesus começou a revelar a seus discípulos que seria necessário que ele fosse a Jerusalém; e aí sofreria muito da parte dos senadores, dos escribas e dos príncipes dos sacerdotes; que seria posto à morte e que ressuscitaria no terceiro dia. (São Mateus, cap. XVI, v. 21)

 

5. – Logo que chegou à Galileia, Jesus lhes disse: o Filho do homem deve ser entregue entre as mãos dos homens; e eles o farão morrer; e ele ressuscitará no terceiro dia; o que os afligiu extremamente. (São Mateus, cap. XVIII, v. 21, 22)

 

6. – Ora Jesus, indo a Jerusalém, tomou à parte seus doze discípulos e lhes disse: Nós vamos a Jerusalém e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas que o condenarão à morte; – e o liberarão aos gentios a fim de que eles o tratem com escárnio, e que o chicoteiem e o crucifiquem; e ele ressuscitará ao terceiro dia. (São Mateus, cap. XX, v. 17 a 19)

 

7. – Em seguida Jesus, tomando à parte os doze apóstolos, lhes disse: Eis, vamos a Jerusalém e tudo aquilo que foi escrito pelos profetas tocante ao Filho do homem, vai ser cumprido; – porque ele será liberado aos gentios, zombar-se-á dele, chicoteá-lo-ão, e lhe escarrarão no seu rosto. – E, após o quê, ele será chicoteado e o farão morrer, e ele ressuscitará no terceiro dia.

 

Mas eles não compreenderam nada de tudo isso; esta linguagem era-lhes fechada, e eles não entenderam absolutamente nada do que ele lhes dizia. (São Lucas, cap. XVIII, v. 31 a 34)

 

8. – Jesus, tendo terminado todos os seus discursos, disse a seus discípulos: – Vocês sabem que a Páscoa se fará em dois dias, e que o Filho do homem será liberado para ser crucificado.

 

Ao mesmo tempo, o príncipe dos sacerdotes e os anciões do povo reunir-se-ão na corte do grande sacerdote chamado Caifás, – e tomaram conselho entre eles para encontrar um meio de se apoderar jeitosamente de Jesus e de fazê-lo morrer. – E eles disseram: É preciso apenas que seja durante a festa, de medo que não provoque qualquer tumulto entre o povo. (São Mateus, cap. XXVI, v. 1 a 5)

 

9. – No mesmo dia, alguns fariseus vieram lhe dizer: Vá em frente, sairá deste lugar, porque Herodes quer vos fazer morrer. – Ele respondeu-lhes: vá dizer a esta raposa: Tenho ainda que expulsar os demônios e encontrar a saúde aos doentes hoje e amanhã e no terceiro dia serei consumado por minha morte. (São Lucas, cap. XIII, v. 31 e 32)

 

PERSEGUIÇÃO DOS APÓSTOLOS

 

10. – Dai-vos guarda dos homens, porque eles vos farão comparecer em suas assembleias, e eles vos farão chicotear nas sinagogas; vós sereis apresentados, por minha causa, aos governantes e aos reis, para lhes servir de testemunhas, bem como as nações. (São Mateus, cap. X, v. 17 e 18)

 

11. – Eles vos expulsarão da sinagoga; e tempo virá no qual aquele que vos fará morrer crerá fazer uma coisa agradável a Deus. – Eles vos tratarão desta sorte porque não conhecem nem meu Pai nem a mim. – Ora, eu vos digo estas coisas a fim de que, quando o tempo vier, vós vos lembrareis do que eu vos disse. (São João, cap. XVI, v. 1 a 4)

 

12. – Sereis traídos e liberados aos magistrados pelos vossos pais e vossas mães, pelos vossos irmãos, pelos vossos parentes, pelos vossos amigos, e se fará morrer vários dentre vós; – e sereis odiados por todo mundo, por causa de meu nome. – Entretanto, não se perderá um cabelo de vossa cabeça. – É por vossa paciência que possuireis vossas almas. (São Lucas, cap. XXI, v. 16 a 19)

 

13. – (Martírio de São Pedro) Em verdade, em verdade, eu vos digo, quando éreis mais moço, vós vos cingíeis a vós mesmos e íeis aonde queríeis; mas quando fordes velho, estendereis vossa mão e um outro vos cingirá para onde não desejareis. – Ora, ele dizia isto para marcar por qual deveria glorificar Deus. (São, João, cap. XXI, v. 18 e 19)

 

CIDADES IMPENITENTES

 

14. – Então ele começou a fazer reprovações às cidades nas quais tinha feito muitos milagres, do que elas nunca tinham feito penitência.

 

Pior a ti. Corozaim, pior a ti Betsaída, porque, se os milagres que acontecerem no meio de vós tivessem sido feitos em Tiro e em Sidon há longo tempo eles teriam feito penitência na bolsa de dinheiro e na cinza. – É por isso que vos declaro que ao dia do julgamento Tiro e Sidon serão tratadas menos rigorosamente que vós.

 

E tu, Cafarnaum, elevar-te-ás sempre até o céu. Tu serás aviltada até o fim do inferno, porque os milagres que foram feitos no teu meio tivessem sido feitos em Sodoma ela subsistiria, talvez ainda hoje. – É por isso que te declaro que, no dia do julgamento, o país de Sodoma será tratado menos rigorosamente que tu. (São Mateus, cap. XI, v. 20 a 24)

 

RUINA DO TEMPLO DE JERUSALÉM

 

15. – Quando Jesus saiu do templo para se ir, seus discípulos se aproximaram dele para lhe fazerem notar a estrutura e a grandeza deste edifício. – Mas ele lhes disse: Vede vós todas estas edificações? Eu vos digo em verdade, elas serão a tal ponto, destruídas que não restará pedra sobre pedra. (São Mateus, cap. XIV, v. 1 e 2)

 

16. – Chegando, em seguida, próximo a Jerusalém e contemplando a cidade, ele chorou sobre ela dizendo: – Ah! Se tu reconhecesses ao menos, por esses dias que te é ainda dado, aquele que pode te obter a paz! Mas, agora, tudo isso está fechado aos teus olhos. – Também virá um tempo infeliz para ti, onde teus inimigos envolver-te-ão de trincheiras onde te encerrarão e te confinarão de todas as partes; – eles te abaterão por terra, tu e teus filhos que estão em teu meio e não deixarão pedra sobre pedra, porque tu não reconheceste o tempo em que Deus te visitou. (São Lucas, cap. XIX, v. 41 a 44)

 

17. – Entretanto, é preciso que eu continue a caminhar, hoje e amanhã, e o dia seguinte, porque não é possível que um profeta sofra a morte, aliás, senão em Jerusalém.

 

Jerusalém, Jerusalém que matas os profetas e que apedrejas aqueles que estão envoltos por ti, quantas vezes quis reunir teus filhos como uma galinha reúne seus pintos sob suas asas e tu não a quiseste. – O tempo se aproxima em que vossa casa permanecerá deserta. Ora, eu vos digo em verdade que vós não me vereis doravante senão até que me digais: Bendito seja aquele que venha em nome do Senhor. (São Lucas, cap. XIII, v. 33 a 35)

 

18. – Quando virdes um deserto envolvendo Jerusalém, sabei que sua destruição está próxima. – Então, aqueles que estiverem na Judéia desapareçam para as montanhas; aqueles que se encontrem dentro dela retirem-se e os que estiverem no país da vizinhança não entrem aí jamais. Porque serão, então, os dias da vingança; a fim de que tudo o que está na Escritura seja cumprido. – Infelizes daquelas que estiverem grávidas ou nutrizes em seus dias, porque este país será abatido pelo mal e a cólera do céu caiará sobre este povo. – Eles os passarão pelo fio da espada; serão levados cativos em todas as nações, e Jerusalém será esmigalhada aos pés dos gentios até que o tempo das nações seja completo. (São Lucas, cap. XXI, v. 20 a 24)

 

19. – (Jesus caminhando para o suplício) Ora, ele estava seguido de uma grande multidão de pessoas e de mulheres, que se batiam no peito e que choravam. – Mas Jesus, voltando-se lhes disse: Filhas de Jerusalém, nunca chorais por mim mas chorais por vós mesmas e por vossos filhos; – porque virá um tempo em que se dirá: felizes as estéreis e as entranhas que nunca portaram filhos e de mamas que não tenham nunca nutrido. – Começarão, então, a dizer às montanhas: Caí sobre nós! E às colinas: Cobri-nos! – Porque se trata da sorte dos bosques verdes, como o bosque seco será ele tratado? (São Lucas, cap. XXIII, v. 27 a 31)

 

20. – A faculdade de pressentir as coisas futuras é um atributo da alma e se explica pela teoria da presciência. Jesus a possuía, como todas as outras em um grau eminente. Ele pôde, pois, prever os acontecimentos que sucederam à sua morte sem que o tenha feito nada de sobrenatural, pois se os vê reproduzir sob nossos olhos nas condições as mais vulgares. Não é raro que indivíduos anunciem com precisão, o instante de sua morte; é que sua alma no estado de liberação é como o homem da montanha (Cap. XIV, n° 1); ela abarca a rota a percorrer e visualiza o fim.

 

Devia ser da mesma forma assim com Jesus que tinha a consciência na missão que viera cumprir, sabia que a morte pelo suplício era a consequência necessária. A visão espiritual que era permanente dentro dele assim como a penetração do pensamento, devia lhe mostrar as circunstâncias e a época fatal. Pela mesma razão, podia prever a ruína do Templo, a de Jerusalém, as desgraças que iriam ferir seus habitantes, e a dispersão dos judeus.

 

21. – A incredulidade que não admite a vida espiritual independente da matéria, na pode se dar conta da presciência; é porque ela a nega, atribuindo ao acaso os fatos autênticos que se cumprem sob seus olhos. É marcante que ela recua ante o exame de todos os fenômenos psíquicos que se produzem em todas as partes de medo, sem dúvida de aí ver a alma surgir e lhe dar um desmentido.

 

MALDIÇÃO AOS FARISEUS

 

22. – (João Batista) Vendo vários fariseus e saduceus que vinham a seu batismo, ele lhes disse: Raça de víboras, quem vos ensinou a escapar da cólera que deva cair sobre vós? Façais, pois, dignos frutos de penitência; – e não penseis dizer a vós mesmos: Nós temos Abraão por Pai, porque eu vos declaro que Deus pode fazer nascer destas pedras, mesmo, filhos de Abraão; – porque o machado já está posto à raiz das árvores: Toda árvore, pois, que nunca produzir bons frutos será golpeada e lançada ao fogo. (São Mateus, cap. III, v. 7 a 10)

 

23. – Infelizes de vós, escribas e fariseus hipócritas porque fechais aos homens o reino dos céus; porque vós mesmos nunca lá entrareis e vos opondes ainda àqueles que lá desejam entrar!

 

Infelizes de vós, escribas e fariseus hipócritas porque, sob pretexto de vossas longas preces devorais as casas das viúvas; é por esse motivo que recebereis um julgamento mais rigoroso!

 

Infelizes de vós, escribas e fariseus hipócritas porque percorreis mares e terras para fazer um prosélito e que após o quê ele é transformado, vós o tornai dignos do inferno duas vezes mais que vós.

 

Infelizes de vós, condutores cegos que dizeis: se um homem jura pelo templo, isso não é nada; mas aquele que jura pelo ouro do templo está obrigado ao seu juramento! – Insensatos e cegos que sois! A quem se deve mais estimar, ou o ouro ou o templo que santifica o ouro? E se um homem, direis vós, jura pelo altar, não é nada; mas aquele que jura pelo dom que está sobre o altar, é obrigado ao seu juramento. – Cegos que vós sois! A que se deve mais estimar, ao dom ou ao altar que santifica o dom? – Aquele, pois, que jura pelo altar e por tudo o que esteja por cima; – e quem jura pelo templo, jura pelo tempo e pelo que aí habite; – e aquele que jura pelo céu. Jura pelo trono de Deus e por aquele que aí esteja sentado.

 

Infelizes de vós, escribas e fariseus hipócritas que pagais o dízimo da menta, do funcho e do cuminho e que tendes abandonado o que há de mais importante na lei, para saber: a justiça, a misericórdia e a fé! Estão aí as coisas que são precisas praticar sem nem ao menos omitir as outras. – Condutores cegos, que tendes grande solicitude em examinar o que bebeis, de medo de sorver um mosquito e que traga um camelo!

 

Infelizes de vós, escribas e fariseus hipócritas porque .limpai por fora do copo e do prato e estais no interior cheios de rapina e de impureza! Fariseus cegos! Limpai primeiramente dentro do copo e do prato a fim de que o exterior esteja limpo também.

 

Infelizes de vós, escribas e fariseus hipócritas que pareceis com sepulcros caiados que, por fora parece belo aos olhos dos homens, mas que no interior estão cheios de ossada de mortos e de toda a sorte de putrefações! – Assim, externamente pareceis justos, mas no íntimo, estais cheios de hipocrisias e de iniquidades.

 

Infelizes de vós, escribas e fariseus que construís túmulos aos profetas e ornai os monumentos dos justos, – e que dizeis: Se fôssemos do tempo dos nossos pais não nos fundiríamos ligados a eles para espalhar o sangue dos profetas! Acabai, pois, também de cumular a medida de vossos pais. – Serpentes, raças de víboras, como podeis evitar de serem condenados ao inferno? – É por isso que vos enviarei profetas, sábios e escribas e matareis uns, crucificareis outros, chicoteareis outros mais em vossa sinagoga e vos perseguireis de cidade em cidade; – a fim de que todo sangue inocente que se espalhou sobre a Terra recaia sobre vós, desde o sangue de Abel o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matasteis entre o templo e o altar! Digo-vos em verdade, tudo isto virá fundir sobre esta raça que existe atualmente. (São Mateus, cap. XXIII, v. 13 a 16)

 

MINHAS PALAVRAS NUNCA PASSARÃO

 

24. – Então, seus discípulos, aproximando-se, disseram-lhe: Sabeis bem que os fariseus tendo entendido o que vós viestes a dizer, ficaram escandalizados? – Mas ele respondeu: Toda planta que meu pai celeste nunca tenha plantado, será arrancada. – Deixai-os; são cegos que conduzem cegos; se um cego conduz outro, eles cairão, os dois, na fossa. (São Mateus, cap. XV, v. 12 a 14)

 

25. – O Céu e a Terra passarão, mas minhas palavras nunca passarão. (São Mateus, cap. XXIV, v. 35)

 

26. – As palavras de Jesus nunca passarão porque serão verdadeiras em todos os tempos; seu código moral será eterno porque encerra as condições do bem que conduz o homem a seu destino eterno. Mas suas palavras são chegadas até nós puras de toda mistura e de falsas interpretações? Todas as seitas cristãs têm tomado o espírito? Nenhuma terá desviado o verdadeiro sentido por sequência dos julgamentos e da ignorância das leis da natureza? Nenhuma fez dela um instrumento de domínio para servir a ambições e a interesses materiais, um estribo não para se elevar aos céus, mas para se elevar na Terra? Todas são elas propostas como regra de conduta à pratica das virtudes da qual fez a condição expressa da salvação? Todas são isentas de censura que ele endereçava aos fariseus de seu tempo? Todas, enfim, são elas em teoria como em prática, a expressão pura da sua doutrina?

 

A verdade, sendo uma, não pode se encontrar em afirmações contrárias e Jesus não poderia querer dar um duplo sentido às palavras. Se, pois, as diferentes seitas se contradiziam, se umas consideravam como verdade o que outras condenavam como heresia, é impossível que estejam todas elas com a verdade. Se todas tivessem tomado o sentido verdadeiro do ensinamento evangélico, elas iriam se encontrar sobre o mesmo terreno e não haveria tido seitas.

 

O que não passará é o senso verdadeiro das palavras de Jesus; o eu passará é o que os homens estabeleceram sobre o senso falso que deram às suas próprias palavras.

 

Jesus tendo missão de trazer aos homens o pensamento de Deus, sua doutrina pura pode ser somente a expressão desse pensamento; é por isso que ele disse: Toda planta que meu Pai celeste nunca plantou será arrancada.

 

A PEDRA ANGULAR

 

27. Não tendes jamais lido esta palavra nas Escrituras: a pedra que foi rejeitada pelos que edificaram é transformada na principal pedra angular? É o que o Senhor fez e nossos olhos o veem com admiração. – É por isso que vos declaro que o reino de Deus vos será despojado e que será dado a um povo onde produzirá frutos. – Aquele que se deixar cair sobre esta pedra se quebrará, e ela esmagará aquele sobre o qual cairá.

 

Os príncipes dos sacerdotes e os fariseus, tendo entendido estas palavras de Jesus concluíram que era deles que ele falava; – e querendo se apoderar dele, apreenderam o povo, porque eles o olhavam como um profeta. (São Mateus, cap. XXI, v. 42 a 46)

 

28. – A palavra de Jesus transformou-se na pedra angular, isto é, a pedra de consolidação do novo edifício da fé, elevado sobre as ruínas do passado; os Juízes, os príncipes dos sacerdotes e os fariseus tendo rejeitado esta palavra, ela os esmagou como esmagará aquele que posteriormente a desprezar ou que deformarem o sentido em benefício de sua ambição.

 

PARÁBOLA DOS VINATEIROS HOMICIDAS

 

29. – Havia um pai de família que, tendo plantado uma vinha, fechou-a com uma cerca viva; e escavando a terra ele aí edificou uma torre; depois, tendo-a alugado a vinhateiros, ele se foi para um país distante.

 

Ora, o tempo das frutas estando próximo, ele enviou seus servidores aos vinhateiros para recolher os frutos de sua vinha. – Mas os vinhateiros, tendo se apoderado dos seus servidores, agrediram um, mataram outro e lapidaram um terceiro. – Ele lhe enviou ainda outros servidores em maior número que os primeiros e foram tratados da mesma forma. – Enfim, enviou-lhe seu próprio filho, dizendo para si mesmo: Terão algum respeito pelo meu filho. Mas os vinhateiros, vendo o filho, disseram entre eles: Eis o herdeiro: vinde, matemo-lo e seremos senhores de sua herdade. – Assim, tendo-se apoderado dele, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.

 

Quando, pois, o senhor da vinha vier, como tratará os vinhateiros? – Responderam-lhe: fará perecer miseravelmente estes perigosos e arrendará sua vinha a outros vinhateiros que lhe tornarão os frutos em sua estação. (São Mateus, c. XXI, v. 33 a 41)

 

30. – O pai de família é Deus; a vinha que plantou é a lei que estabeleceu; os vinhateiros aos quais arrendou sua vinha são os homens que devem ensinar e praticar sua lei; os servidores que enviou até eles são os profetas que fizeram perecer; seu Filho que ele enviou, enfim, é Jesus, que eles mataram do mesmo jeito. Como, pois, o Senhor tratará seus mandatários prevaricadores de sua lei? Ele os tratará como foram tratados seus enviados, e chamará outros que lhe renderem melhor compto de seus bens e da condução de sua manada.

 

Assim tem-no sido escribas, príncipes dos sacerdotes e fariseus; assim o será quando ele vier de novo conta a cada um do que tenha feito de sua doutrina; tirará a autoridade de quem dela tiver abusado, porque quer que seu campo seja administrado conforme sua vontade.

 

Após dezoito séculos a humanidade, chegada à idade viril está madura para compreender o que Cristo só fez aflorar, porque como ele próprio dizia, não teriam compreendido. Ora, a qual resultado chegaram os que, durante este longo período tem sido encarregado de sua educação religiosa? Em ver a indiferença suceder à fé e a incredulidade se erigir como doutrina. Em nenhuma outra época, de fato, o cepticismo e o espírito de negação não foram mais propalados em todas as classes da sociedade.

 

Mas, se algumas das palavras são encobertas por alegorias, por tudo o que concerne à regra de conduta, as relações homem-a-homem, os princípios morais dos quais ele faz a condição expressa da salvação. (Evangelho conforme o Espiritismo, cap. XV), ele é claro, explícito e sem ambiguidade.

 

O que fez de suas máximas de caridade, de amor e de tolerância; das recomendações que fez a seus apóstolos de converter os homens pela doçura e a persuasão; a simplicidade, a humildade, o desinteresse e todas as virtudes em que ele deu o exemplo? Em seu nome os homens se lançaram o anátema e a maldição; massacraram-se em nome daquele que disse: todos os homens são irmãos. Fizeram um Deus ciumento, cruel, vingativo e parcial daquele que se proclamou infinitamente justo, bom e misericordioso; sacrificou-se a este Deus de paz e de verdade mais de milhares de vítimas nas piras, pelas torturas e as perseguições o que jamais sacrificaram os pagãos pelos falsos deuses; venderam-se as preces e os favores do céu em nome daquele que perseguiu os vendilhões do templo e que disse a seus discípulos: Dai de graça o que de graça receberdes.

 

Que diria o Cristo se vivesse atualmente entre nós? Se visse seus representantes ambicionar as honras, as riquezas, o poder e o fausto dos príncipes no mundo enquanto que ele, mais rei do eu os reis da Terra, fez sua entrada em Jerusalém montado num asno? Não estaria ele no direito de dizer: que fizestes de meus ensinamentos, vós que lisonjeais o bezerro de ouro, que fazeis em vossas preces uma ampla participação aos ricos e uma mirrada participação aos pobres, neste caso que vos tenho dito: Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros no reino dos céus? Mas se ele não o está carnalmente, não o está em Espírito, e como o mestre da parábola, virá pedir conta a seus vinhateiros do produto de sua vinha, quando do tempo da colheita chegar.

 

UM SÓ REBANHO E UM SÓ PASTOR

 

31. Tenho ainda outras ovelhas negras que não são deste curral; é preciso também que eu as conduza; elas escutarão minha voz e só haverá um único rebanho e um pastor. (São João, cap. X, v. 6)

 

32. – Por estas palavras, Jesus anuncia claramente que um dia os homens se reunião a uma crença única; mas como esta unificação poderá ser feita? A coisa parece difícil, caso se considere as diferenças que existem entre as religiões, o antagonismo que elas mantêm entre seus adeptos respectivos, suas obstinações a se crer em posso exclusiva da verdade. Todas querem bem a unidade, mas todas se lisonjeiam de que ela se fará a seu proveito, e nenhuma pretende fazer concessões em suas crenças.

 

Entretanto, a unidade se fará em religião como tende a se fazer socialmente, politicamente, comercialmente, pelo aviltamento das barreiras que separam os povos, pela assimilação dos costumes, dos usos, da linguagem; os povos do mundo inteiro fraternizam-se já, como os de província do mesmo império; pressente-se esta unidade, deseja-se a. Far-se-á pelas forças das coisas porque se tornará uma necessidade para estreitar os liames de fraternidade entre as nações; ela se fará pelo desenvolvimento da razão humana que fará compreender a puerilidade dessas dissidências; pelo progresso da ciência que demonstra cada dia os erros materiais sobre os quais se apoia, e destaca pouco a pouco as pedras carcomidas de seus assentamentos. Se a ciência demoliu, nas religiões o que é obra dos homens e é fruto da sua ignorância das leis da natureza ela não pode destruir, apesar da opinião de alguns, o que é a obra de Deus e de eterna verdade, desentulhando os acessórios ela prepara as vias da unidade.

 

Para chegar à unidade, as religiões deverão se encontrar em um terreno neutro, entretanto comum a todas; para isso, todas terão que fazer concessões e sacrifícios maiores ou menores  conforme a multiplicidade de seus dogmas particulares. Mas em virtude do princípio de imutabilidade que professam todas, a iniciativa das concessões não poderia vir do campo oficial; ao lugar de tomar seu ponto de partida do alto, elas o tomam por baixo pela iniciativa individual. Opera-se, após algum tempo, um momento de descentralização eu tende a adquirir uma força irresistível. O princípio da imutabilidade que as religiões consideravam até aqui como uma égide conservadora, tornar-se-á um elemento destruidor, atentando para o fato de que os cultos imobilizando-se, ao passo que a sociedade marcha para a frente, eles serão contornados, após, absorvidos na corrente de ideias de progressão.

 

Entre as pessoas que se destacam no todo ou em parte dos troncos principais e do qual o número engrossa sem cessar, se alguns não quiserem nada, a imensa maioria que não se acomoda anulando-se do nada, quer alguma coisa; esta alguma coisa nada está ainda definida em seu pensamento, mas pressentem-nas; tendem ao mesmo fim por vias distintas e será por elas que começará o movimento de concentração sobre a unidade.

 

No estado atual de opiniões e de conhecimentos, a religião que devera relacionar um dia todos os homens sob uma mesma bandeira, será a que satisfará melhor a razão e as legítimas aspirações do coração e do Espírito; que não será de nenhuma forma desmentida pela ciência positiva; que, em lugar de se imobilizar, seguirá a humanidade em sua marcha progressiva sem se deixar jamais ultrapassar; que não será nem exclusiva nem intolerante; que será emancipadora da inteligência, admitindo apenas a fé racional, aquela cujo código de moral será o mais puro, o mais racional, o mais em harmonia com as necessidades sociais, a mais apropriada, enfim, a fundar sobre a Terra o reino do bem, pela prática da caridade e da fraternidade universal.

 

Entre as religiões existentes, aquelas que mais se aproximam destas condições terão menos concessões que fazer; se uma delas se as preencher completamente, tornar-se-á naturalmente o eixo da unidade futura; esta unidade se fará em torno daquela que menos deixará a desejar pela razão, não por uma decisão oficial, porque não se regulamenta a consciência, mas pelas adesões individuais e voluntárias.

 

O que entretém o antagonismo entre as religiões é a ideia que elas têm cada qual do seu Deus particular, e sua pretensão de ter a única verdade e a mais poderosa e que está em hostilidade constante com os deuses dos outros cultos, e ocupada a combater sua influência. Quando se convencerem que só existe um único Deus no Universo e que, em definitivo, é o mesmo que eles adoram, sob o nome de Jeová, Alá ou Deus; quando estiverem de acordo sobre seus atributos essenciais, compreenderão que um Ente único só pode ter uma única vontade; elas se estenderão as mãos como os servidores de um mesmo Mestre e os filhos de um mesmo pai e terão feito um grande passo sobre a unificação.

 

CHEGADA DE ELIAS

 

33. – Então, seus discípulos lhe indagaram: Por que, pois, os escribas disseram que é preciso que Elias venha primeiro? – Mas Jesus respondeu-lhes: É verdade que Elias deva vir e que restabelecerá todas as coisas.

 

Mas eu vos declaro que Elias já veio e nem o conheceram, mas trataram-no como lhes aprouve. É assim que farão morrer o Filho do homem.

 

Então seus discípulos compreenderam que era de João Batista que ele lhes tinha falado. (São Mateus, cap. 17 v. 10 a 13)

 

34. – Elias já viera na pessoa de João Batista. Seu novo advento é anunciado de uma maneira explícita; ora, como ele não pode voltar senão com um novo corpo, é a consagração formal do princípio da pluralidade das existências. (Evangelho conforme o Espiritismo, cap. IV, n° 10)

 

ANÚNCIO DO CONSOLADOR

 

35. – Se vós me amais, guardai, guardai meus mandamentos; – e eu rezarei meu Pai, e Ele vos enviará um outro consolador a fim de que demore eternamente convosco: – O espírito Verdade, que este mundo não pode receber porque nunca o vê; mas por vós, vós o conheceis porque permanecerá convosco e estará em vós. – Mas o consolador que é o Espírito Santo, que meu Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e fareis recordar de tudo o que eu vos tenho dito. (São João, cap. XIV, v. 15 a 17 e 26 – Evangelho cf. o Espiritismo, cap. VI)

 

36. – Todavia, digo-vos a verdade: É-vos útil que eu me vá porque se eu nunca for, o Consolador não virá a vós; mas eu me vou e vo-lo enviarei, – e quando ele vier, convencerá o mundo no que toca ao pecado, no que toca à justiça e no que toca ao julgamento: – no tocante ao pecado, porque não acreditaram em mim; – tocante à justiça, porque eu me vou a meu Pai e que não me vereis mais; tocante ao julgamento, porque o príncipe deste mundo já está julgado.

 

Tenho ainda muitas coisas que dizer, mas vós não podeis portá-la presentemente.

 

Quando este Espírito Verdade vier, ele vos ensinará toda verdade porque não falará dele mesmo, mas dirá tudo o que ele tiver entendido, e vos anunciará a coisa por vir.

 

Ele me glorificará porque receberá do que é meu e ele vos anunciará. (São João, cap. XVI, v. 7 a 14)

 

37. – Esta predição é, sem contradita, uma das mais importantes do ponto de vista religioso porque constata da maneira a menos equívoca que Jesus não disse tudo aquilo que tinha para dizer porque não seria, mesmo, compreendido por seus apóstolos, já que é a estes que se dirigia. Se lhes houvesse dado instruções secretas, eles a teriam feito menção nos Evangelhos (a). Desde então, que não tenha dito tudo a seus apóstolos, seus sucessores não puderam saber mais do eu eles; teriam, pois podido se equivocar sobre o sentido de suas palavras, dar uma falsa interpretação a seus pensamentos, frequentemente velados sob a forma parabólica. As religiões fundadas sobre o evangelho não podem, pois, se dizer em posse de toda a verdade, já que se reservou em completar ulteriormente suas instruções. Seu princípio de imutabilidade é um protesto contra as próprias palavras de Jesus.

 

Ele anuncia sob o nome de Consolador e de Espírito Verdade aquele que deva ensinar todas as coisas, e fazer relembrar o que ele disse; pois, seu ensinamento não estava completo; no mais, ele previa que se teria esquecido o que disse e que se o teria descaracterizado já que o Espírito Verdade devia fazer relembrar, e concorde com Elias, restabelecer todas as coisas, isto é, conforme o verdadeiro pensamento de Jesus.

 

38. – Quando este novo revelador deverá vir? É bem evidente que se, à época em que falava Jesus, os homens não estavam em estado de compreender as coisas que lhe restava dizer, não será em alguns anos que possam adquirir as luzes necessárias. Para entendimento de certas partes dos Evangelhos, à exceção dos preceitos morais, seria preciso conhecimentos que só o progresso das ciências poderia dar, e que deveriam ser a obra do temo e de várias gerações. Se, pois, o novo Messias viesse pouco tempo após Cristo teria encontrado o terreno todo também pouco propício e não teria feito mais do que ele. Ora, desde o Cristo até nossos dias não se produziu nenhuma grande revelação que tenha completado o Evangelho e que lhe tenha elucidado as partes obscuras, índice seguro de que o enviado não tinha ainda aparecido.

 

39. – Qual deva ser este enviado? Jesus dizendo: “Rogarei a meu pai e Ele vos enviará um outro Consolador” indica claramente que este não é ele próprio; do contrário, teria dito: “Voltarei para completar o que vos tenho ensinado”. Após, ele junta: “A fim de que ele demore eternamente convosco e ele estará em vós”. Isto aqui não  seria possível entender de uma individualidade encarnada que não possa demorar eternamente conosco e ainda menos estar em nós, mas compreende-se muito bem de uma doutrina que, de fato, logo que se a tenha assimilado, possa estar eternamente em nós. O Consolador é, pois, no pensamento de Jesus, a personificação de uma doutrina soberanamente consoladora onde o inspirador deva ser o Espírito Verdade.

 

40. – O Espiritismo realiza, como tem demonstrado (Cap. I, n° 30), todas as condições do Consolador prometido por Jesus. Nem é uma doutrina individual, uma concepção humana; ninguém pode se dizer-lhe o criador. É o produto do ensinamento coletivo dos Espíritos aos quais preside o Espírito Verdade. Não suprime nada do Evangelho: completa-o e elucida-o; com auxílio das novas leis que revela, junta às da ciência, faz compreender o que estava ininteligível, admite a possibilidade daquilo que a incredulidade olhava como inadmissível. Teve seus precursores e seus profetas que previram sua vinda. Por seu poder moralizador, prepara o reino do bem sobre a Terra.

 

A doutrina de Moisés, incompleta, ficou circunscrita ao povo judeu; a de Jesus, mais completa, espalhou-se sobre toda a Terra pelo Cristianismo, mas não converteu todo mundo; o Espiritismo, mais completo ainda, tendo raízes em todas as crenças, converterá a humanidade. (1)

 

41. – Cristo, dizendo a seus apóstolos: “um outro virá mais tarde, que vos ensinará o que não pude vos dizer agora”, proclamava por isso mesmo a necessidade da reencarnação. Como estes homens poderiam aproveitar o ensinamento mais completo que deveria ser dado ulteriormente; como estariam eles mais aptos a compreendê-lo se não deviam reviver? Jesus teria dito uma inconsequência se os homens futuros devessem, conforme a doutrina vulgar, serem homens novos, almas saídas do nada em seu nascimento. Admiti, ao contrário, que os apóstolos e os homens de seu tempo tenham vivido depois; que vivam ainda atualmente a promessa de Jesus se encontre justificada; sua inteligência que deveu se desenvolver ao contato com o progresso social, pode conduzir atualmente o que não poderia portar então. Sem a reencarnação, a promessa de Jesus teria sido ilusória.

 

42. – Salvo se dissesse que esta promessa foi realizada no dia de Pentecoste, pela descida do Espírito Santo, responder-se-ia que o Espírito Santo inspirou-as, que pôde abrir sua inteligência, desenvolver neles as aptidões medianímicas que deveriam facilitar sua missão, mas que não lhe tenha aprendido nada de mais do que  houvesse ensinado Jesus, porque não se encontra nenhum traço de um ensino especial. O Espírito Santo não tem, pois, realizado o que Jesus anunciou sobre o Consolador: de outro modo, os apóstolos teriam elucidado, desde sua vivência, tudo o que ficou obscuro no Evangelho até este dia, e cuja interpretação contraditória deu lugar às inumeráveis seitas que dividem o Cristianismo desde o primeiro século.

 

SEGUNDA VINDA DO CRISTO

 

43. – Então Jesus disse a seus discípulos: se alguém quiser vir após mim, que renuncie a si próprio, que se encarregue de sua cruz, e que me siga; – porque aquele que quiser salvar sua vida perdê-la-á e o que perder sua vida por amor a mim, a reencontrará.

 

E que serviria a um homem ganhar todo o mundo, e perder sua alma? Ou, por que troca o homem, poderia ele resgatar sua alma após tê-la perdido? Pois o Filho do homem deve vir na glória de seu pai com seus anjos, e então, renderá a cada um conforme suas obras.

 

Eu vos digo, em verdade, há alguns dos que estão aqui que não experimentarão a morte senão enquanto não virem o Filho do homem vir em seu reino. (São Mateus, XVI, v. 24 a 28)

 

44. – Então, o sumo sacerdote, erguendo-se no meio da assembleia, interrogou Jesus e lhe disse: Não respondeis nada àqueles que depõem contra vós? – Mas Jesus permaneceu no silêncio e não respondeu nada. O sumo sacerdote interrogou-o ainda e disse: Sois vós o Cristo, o Filho de Deus bendito para sempre? – Jesus lhe respondeu: Eu o sou e vereis um dia o Filho do homem sentado à direita da majestade de Deus, e vindo sobre as nuvens do céu.

 

Logo, o sumo sacerdote, despedaçando suas vestes, disse-lhe: Que temos nós mais necessidade de testemunhas? (São Marcos, cap. XIV, v. 60 a 63)

 

45. – Jesus anuncia sua segunda chegada, mas não diz, absolutamente, que voltará sobre a Terra com um corpo carnal nem que o Consolador será personificado nele. Ele se apresenta como devendo vir em Espírito, na glória de seu pai, julgar o mérito e o demérito e levar a cada um conforme suas obras quando os tempos foram chegados.

 

Esta palavra: “Há alguns dos que estão aqui que não experimentarão a morte se não tiverem visto o Filho do homem vir em seu reino” mostra uma contradição que já é certo que ele não virá aos viventes de alguns destes que estavam presentes. Jesus não podia, entretanto, enganar-se numa previsão desta natureza, e sobretudo por uma coisa contemporânea que lhe concernia pessoalmente; é preciso, a princípio, indagar se estas palavras sempre tiveram sido bem fielmente encontradas. Pode-se duvidar, se sonho que não tenha nada escrito; que eles só tenham aparecido após sua morte; e quando se vê o mesmo discurso quase sempre reproduzido em termos diferentes em cada evangelista, é uma prova evidente que estas não são as expressões textuais de Jesus. É por outro lado, provável que o sentido deva, por vezes ser alterado ao passar-se para traduções sucessivas.

 

De outro lado, é certo que, se Jesus tivesse dito tudo o que tivesse podido dizer, ele teria se expressado sobre todas as coisas de uma maneira limpa e precisa que não teria dado nenhum equívoco, como é feito pelos princípios morais, enquanto que deveu cobrir seu pensamento sobre os assuntos que ele não julgou a propósito de se aprofundar. Os apóstolos, persuadidos de que a geração presente devia ser testemunha do que ele anunciava, deveram interpretar o pensamento de Jesus conforme sua ideia; puderam, por consequência, redigi-la no sentido do presente de uma maneira mais absoluta, que não pôde, talvez, fazer ele mesmo. Qualquer que seja o fato é aí que prova que as coisas não aconteceram assim como se crê.

 

46. – Um ponto capital que Jesus não pôde desenvolver, porque os homens do seu tempo não estavam suficientemente preparados a esta ordem de ideias e a suas consequências, mas do que, entretanto, apresentou o princípio, como fizera por todas as coisas, é a grande e importante lei da reencarnação. Esta lei, estudada e posta à luz dos nossos dias pelo Espiritismo, é a chave de várias passagens do Evangelho que, sem ela, parecem contrassenso.

 

É nesta lei que se pode encontrar a explicação racional das palavras acima, admitindo-as como textuais. Já que elas não podem se aplicar à pessoa dos apóstolos, é evidente que se reportam ao reino futuro do Cristo, ou seja, no tempo em que sua doutrina, melhor compreendida, será a lei universal. Dizendo-lhe que alguns dos que estão presentes verão seu acontecimento, isso não podia se estender senão no sentido de que reviveriam a esta época. Mas os judeus figuraram que eles iriam ver tudo o que Jesus anunciava e tomaram suas alegorias ao pé da letra.

 

De resto, alguns anos de suas predições cumpriram-se em seu tempo, tais como a ruína de Jerusalém, as maldições que se seguiram, e a dispersão dos judeus; mas ele leva sua visão mais longe e, em falando do presente, ele faz constantemente alusão ao futuro.

 

SINAIS PRECURSORES

 

47. – Ouvireis também falar de guerras e de ruídos de guerras; mas resguardai bem de vos turbar, porque é preciso que estas coisas aconteçam, mas isto não se ainda o fim, – porque se verá sublevar povo contra povo, reino contra reino, e haverá pestes, famintos, e tremores de terra em diversos lugares; – e todas estas coisas serão apenas o começo das dores. (São Mateus, cap. XXIV, v. 6 a 8)

 

48. – Então, o irmão liberará o irmão à morte e o pai ao filho; e os filhos se sublevarão contra seus pais e suas mães e os farão morrer. – E vós sereis odiados por todo mundo por causa de meu nome; mas aquele que se preservar até o fim, será salvo. (São Marcos, cap. XIII, v. 12 e 13)

 

49. – Quando virdes que a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel estiver no lugar santo, que o que ler entenda bem o que leu.

 

Então, que aqueles que estiverem na Judéia, fujam subindo a montanha. – Que aquele que estiver no alto do teto nunca desça para apanhar qualquer coisa de sua casa; – E aquele que estiver no campo nunca retorne para pegar suas vestes. – Mas infeliz das mulheres que estiverem grávidas ou amamentando naqueles dias. – Rezai, pois, a Deus que vossa fuga nunca chegue durante o inverno nem no dia do sábado, – porque a aflição desse tempo lá será tão grande que não o haja nunca tido igual, após o começo do mundo até o presente e que haverá jamais. – E se estes dias não forem abreviados, nenhum homem se salvará, mas estes dias serão abreviados em favor dos escolhidos. (São Mateus, cap. XXIV, v. 15 a 25)

 

50. – Logo após estes dias de aflição o Sol se obscurecerá e a Lua não dará mais sua luz; as estrelas caiarão do céu e os poderes dos céus serão enfraquecidos.

 

Então o sinal do Filho do homem aparecerá no céu e todos os povos da Terra estarão em pratos e nos gemidos; e verão o Filho do homem que virá sobre as nuvens do céu como uma grande majestade.

 

E ele enviará seus anjos que farão entender a voz radiosa de suas trombetas e que reunirão seus eleitos dos quatro cantos do mundo desde uma extremidade do céu até a outra.

 

Aprendei uma comparação tirada da figueira. Quando seus ramos são já tenros e produzem folhas, sabeis que o verão está próximo. – Igualmente, quando virdes todas estas coisas, saibais que o Filho do homem está próximo e que ele é como a porta.

 

Eu vos digo, em verdade, que esta raça não passará enquanto que todas as coisas não sejam cumpridas. (São Mateus, cap. XXIV, v. 29 a 34)

 

E chegará o advento do Filho do homem, aquele que chegou ao tempo de Moisés; – porque, como nos últimos tempos antes do dilúvio, os homens comiam e bebiam, casavam-se e casavam seus filhos até o dia em que Noé entrou na arca; – e, como não conheceram o momento do dilúvio senão quando ele sobreveio e envolveu todo mundo, sê-lo-á da mesma forma a vinda do Filho do homem. (São Mateus, cap. XXIV, v. 37 e 38)

 

51. – Quanto a este dia aí, ou a esta hora, ninguém o sabe nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, mas o Pai somente. (São Marcos, cap. XIII, v. 32)

 

52. – Em verdade, em verdade, eu vos digo, chorareis e gemereis e o mundo se regozijará; estareis na tristeza, mas vossa tristeza se mudará em alegria. – Uma mulher, quando ela gera e na dor, porque sua hora é vinda, mas após dar a vida a um filho, ela não se lembrará mais de todos os seus males na alegria que possui, de ter posto um homem no mundo. – É assim que sois agora na tristeza, mas vos verei de novo e vosso coração se rejubilará e ninguém vos arrebatará vossa alegria. (São João, cap. XVI, v. 20 a 22)

 

53. – Surgirão vários falsos profetas que seduzirão muitas pessoas, – e porque a iniquidade abundará, a caridade de muitos se resfriará; – mas aquele que perseverar até o fim será salvo. – E este Evangelho do reino será pregado em toda a Terra para servir de testemunho a todas as nações, e é então que o fim chegará. (São Mateus, cap. XXIV, v. 11 a 14)

 

54. – Este quadro do fim dos tempos é evidentemente alegórico, como a maior parte daquilo que apresentava Jesus. As imagens que contêm são de natureza, por sua energia, que impressione as inteligências ainda rudes. Para quebrar estas imaginações pouco sutis, era necessário pinturas vigorosas, em cores nítidas. Jesus dirigia-se, sobretudo, ao povo, aos homens os menos estarrecidos, incapazes de compreender as abstrações metafísicas, e de assimilar a delicadeza das formas. Para chegar ao coração, era preciso falar aos olhos com auxílio de traços materiais, e aos ouvidos pelo vigor da linguagem.

 

Por uma consequência natural desta disposição de espírito, o poder supremo não podia, conforme a crença de então, manifestar-se senão por coisas extraordinárias, sobrenaturais; mais fosse impossível, melhor eram aceitos como prováveis.

 

O Filho do homem, vindo sobre as nuvens do céu, com uma grande majestade, cercado de seus anjos e ao barulho das trombetas, parecia-lhes bem de outro modo imponente que um ser investido somente de poder moral. Também os judeus que alcançavam no Messias um rei da Terra, poderoso entre todos os reis, para colocar sua nação na primeira filha, e restaurar o trono de Davi e de Salomão, não o queriam reconhecer no humilde filho de um carpinteiro, sem autoridade material, tido como louco por uns e de sobreposto de Satã por outros; não podiam compreender um rei sem asilo e cujo reino não era deste mundo.

 

Entretanto, este pobre proletário da Judéia tornou-se o maior entre os grandes; conquistou à sua soberania mais reinos que os mais poderosos potentados; somente com sua palavra e alguns miseráveis pescadores, ele revolucionou o mundo, e é a ele que os judeus devem sua reabilitação.

 

55. – É de se notar que, entre os Anciãos, os tremores de terra e o obscurecimento do Sol eram símbolos obrigatórios de todos os acontecimentos e de todos os presságios sinistros; se os reencontra na morte de Jesus, à de César e em uma quantidade de circunstâncias da história do paganismo. Se estes fenômenos fossem produzidos também frequentemente como se conta, pareceria impossível que os homens não o tivessem conservado na memória por tradição. Aqui se junta as estrelas que caem do céu, como para testemunhar às gerações futuras mais esclarecidas, que se trata de uma ficção, já que se sabe que as estrelas não podem cair. (b)

 

56. – Entretanto, sob estas alegorias ocultam-se grandes verdades: é, a princípio, o anúncio das calamidades de todos os gêneros que atingirão a humanidade e a dizimarão; calamidades engendradas pela luta suprema entre o bem e o mal, a fé e a incredulidade, as ideias progressistas e as ideias retrógradas. Em segundo lugar, a da difusão por toda a Terra do Evangelho restabelecido na sua pureza primitiva; depois, o reino do bem, que será o da paz e da fraternidade universal, sairá do código de moral evangélica posta em prática por todos os povos. Este será verdadeiramente o reino de Jesus, já que ele presidirá a seu estabelecimento e que os homens viverão sob a égide de sua lei; reino de bondade porque diz ele, “após os dias de aflição virão os dias de alegria”.

 

57. – Quando acontecerão estas coisas? “Ninguém o sabe, diz Jesus, nem mesmo o Filho”; mas, quando o momento vier, os homens serão advertidos pelos índices precursores. Estes índices não estão nem no Sol, nem nas estrelas, mas, no estado social, e nos fenômenos mais morais que físicos e que se pode em parte deduzir de suas alusões.

 

É bem certo que esta troca não podia se operar durante a vivência dos apóstolos, de outra forma, Jesus não teria podido ignorá-lo, e, aliás, uma tal transformação não poderia se cumprir em alguns anos. Entretanto, ele lhes fala como se eles devessem ser testemunhas; é que, em efeito, eles poderão reviver a essa época e trabalharem eles mesmos na transformação. Logo, ele fala da sorte próxima de Jerusalém e logo ele toma este fato como ponto de comparação para o futuro.

 

58. – É o fim do mundo que Jesus anuncia pela sua nova vinda e quando diz: “Quando o Evangelho for pregado por toda a Terra, é então que o fim chegará”?

 

Não é racional supor que Deus destruísse o mundo precisamente no momento em que ele entrará na trilha do progresso moral pela prática dos ensinamentos evangélicos: nada, aliás, nas palavras do Cristo, indica uma destruição universal a qual, em tais condições, não seria justificada.

 

A prática geral do Evangelho, devendo causar um melhoramento no estado moral dos homens, causará por ele mesmo, o reino do bem e ocasionará a queda do reino do mal. É, pois, o fim do velho mundo, do mundo governado pelos prejulgamentos, o orgulho, o egoísmo, o fanatismo, a incredulidade e todas as más paixões que o Cristo faz alusão quando diz: “Quando o Evangelho for pregado por toda Terra, é então que o fim chegará, mas este fim ocasionará uma luta, e é desta luta que surgirão os males que ele previu”.

 

VOSSOS FILHOS E VOSSAS FILHAS PROFETIZARÃO

 

59. – Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos filhos criados terão visões e vossos anciões terão sonhos. – Nesses dias, derramarei meu Espírito sobre meus servos e sobre minhas servas e eles profetizarão. (Atos, cap. II, v. 17 e 18)

 

60. – Si se considerar o estado atual do mundo físico e do mundo moral, as tendências, as aspirações, os pressentimentos das massas, a decadência das velhas ideias que se debatem em vão após um século contra as ideias novas, não se pode duvidar que uma ordem de coisas se prepara e que o velho mundo encontra-se em seu fim.

 

Se agora, fazendo a parte da forma alegoria de certos quadros e auscultando o senso íntimo de suas palavras, compara-se a situação atual com os tempos descritos por Jesus como devendo marcar a era da renovação, não se pode desconvir eu várias de suas predições recebem atualmente seu cumprimento; de onde é necessário concluir que atingimos os tempos anunciados, o que confirmam sob todos os pontos do globo os Espíritos que se manifestam.

 

61. – Assim, como se tem visto (Cap. I n° 32), o advento do Espiritismo, coincidindo com outras circunstâncias, realiza uma das mais importantes predições de Jesus pela influência que deva forçosamente exercer sobre as ideias. É de outra forma claramente anunciada naquela que é reportada aos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos, diz o Senhor, derramarei meu Espírito sobre toda carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão”.

 

É o anúncio inequívoco da vulgarização da mediunidade de nossos dias que se revela entre os indivíduos de todas as idades, de ambos os sexos e de todas as condições e consequentemente a manifestação universal dos Espíritos, porque sem os Espíritos não haveria médiuns. Eis aí, é dito, encontrará nos últimos tempos; ora, desde que não nos tocamos ao fim do mundo, mas, ao contrário à sua regeneração, é preciso que se entendam tais palavras: o fim dos tempos do mundo moral que termina. (Evangelho conforme o Espiritismo, cap. XXI)

 

JULGAMENTO FINAL

 

62. – Ora, quando o Filho do homem vier na sua majestade, acompanhado de todos os anjos, ele assentará sobre o trono de sua glória; – e todas as nações estando reunidas ante ele, ele separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas de com os bodes, e colocará as ovelhas à sua direita e os bodes à esquerda. – Então, o Rei dirá àqueles que estejam à direita: Vinde vós que tendes sido benditos por meu Pai, etc. (São Mateus, cap. XXV, v. 31 a 46 – Evangelho conforme o Espiritismo, cap. XV)

 

63. – O bem, devendo reinar sobre a Terra, é preciso que os Espíritos endurecidos no mal e que poderiam aí levar a confusão o sejam excluídos. Deus os havia deixado o tempo necessário a seu melhoramento; mas o momento em que o globo deva se elevar na hierarquia dos mundos, pelo progresso moral de seus habitantes, estando chegado tal tempo como Espíritos e como encarnados, sê-lo-á interdito àquele que, não tendo aproveitado das instruções que eles tenham sido encarregados de receber. Serão exilados em mundos inferiores como o foram outrora, sobre a Terra os da raça adâmica, ao passo que serão substituídos por Espíritos melhores. É esta separação à qual presidirá Jesus que é ilustrada por estas palavras do juízo final: “Os bons passarão à minha direita e os mordazes à minha esquerda” (Cap. XI, n° 31 e seguintes)

 

64. – A doutrina de um julgamento final, único e universal, empregando a tudo jamais fim da humanidade, repugna à razão neste sentido em que implicaria a inatividade de Deus durante a eternidade que seguirá sua destruição. Pergunta-se de que utilidade teriam, então, o Sol, a Lua e as estrelas que, conforme a Gênese, foram feitos para clarear nosso mundo. É espantoso que uma obra tão imensa tenha sido feita por tão pouco tempo e ao proveito de seres dos quais, a maior parte estaria voltada para o avanço dos suplícios eternos.

 

65. – Materialmente, a ideia de um julgamento único era, até a um certo ponto, admissível para aqueles que não procuram a razão das coisas, então, que se creia toda humanidade concentrada sobre a Terra e que tudo no Universo tinha sido feito para seus habitantes; ela é inadmissível desde que se soube que há milhares de mundos semelhantes que perpetuam as humanidades durante a eternidade, e entre os quais a Terra é um ponto imperceptível, dos menos consideráveis.

 

Vê-se por este único fato que Jesus tinha razão de dizer a seus discípulos: “Há muita coisa que não posso vos dizer porque vós não o compreenderíeis” já que o progresso das ciências era indispensável para uma sadia interpretação de algumas de suas palavras. Certamente, os apóstolos, São Paulo e os primeiros discípulos teriam estabelecido de outra forma, outros dogmas se tivessem tido os conhecimentos astronômicos, geológicos, físicos, químicos, fisiológicos e psicológicos que se possui atualmente. Também Jesus adiou o complemento de suas instruções e anunciou que todas as coisas deviam ser restabelecidas.

 

66. – Moralmente, um julgamento definitivo e sem apelo é inconciliável com a bondade infinita do Criador, que Jesus nos apresenta sem cessar como um bom Pai deixando sempre uma via aberta ao arrependimento e pronto a estender seus braços ao filho pródigo. Se Jesus tinha entendido o julgamento neste sentido, teria desmentido suas próprias palavras.

 

E depois, se o julgamento final deve assombrar os homens, de improviso, no meio de seus trabalhos ordinários, e as mulheres grávidas, indaga-se qual o objetivo de Deus, que não fez nada de inútil nem injusto, faria nascer crianças e criaria almas novas neste momento supremo, ao termo fatal da humanidade, para fazê-los passar em julgamento ao sair do seio da mãe antes que tivessem a consciência própria, então que outras tenham tido milhares de anos para se reconhecer? De que lado, à direita ou à esquerda, passariam essas almas que não são ainda nem boas nem más e a que todo caminho ulterior de progresso está de agora em diante fechado, já que a humanidade não existirá mais? (Cap. II, n° 19)

 

Que, os que a razão se contenta com iguais crenças que as conservam, é direito deles, e ninguém aí encontra a repetir; mas que se não encontre mal não mais que todo mundo nem seja de seu aviso.

 

67. – O julgamento por via de emigração, tal como foi definido acima (em 63), é racional; é fundado sobre a mais rigorosa justiça atentando que deixa eternamente ao Espírito seu livre arbítrio; que não constitui privilégio para ninguém; que uma igual latitude é dada por Deus a todas as suas criaturas, sem exceção, para progredir; que a porta do céu está sempre aberta para os que se tornam dignos de aí entrar; que o aniquilamento mesmo de um mundo, arrastando a destruição dos corpos, não levaria nenhuma interrupção à marcha progressiva do Espírito. Tal é a consequência da pluralidade dos mundos e da pluralidade das existências.

 

Conforme esta interpretação, a qualificação de julgamento final não é exata já que os Espíritos passam por semelhantes julgamentos criminais a cada renovação dos mundos que habitem até àquele que tenha atingido um certo grau de perfeição. Nunca há, pois, propriamente dito, julgamento final mas há julgamentos gerais em todas as épocas de renovação parcial ou total da população dos mundos, em seguido dos quais se operam as grandes emigrações e imigrações de Espíritos.

 

NOTA

 

(1) Todas as doutrinas filosóficas e religiosas levam o nome da individualidade fundadora; diz-se o Mosaísmo, o Cristianismo, o Maometismo, o Budismo, o Cartesianismo, o Fuerismo, o Sansimonismo, etc. O termo Espiritismo, ao contrário, não se refere a nenhuma personalidade; encerra uma ideia geral que indica, ao mesmo tempo, o caráter e a fonte múltipla da doutrina.

 

NOTAS DO TRADUTOR

 

(a) Ou então os responsáveis pela elaboração do Novo Testamento suprimiram.

 

(b) Mas na época de Jesus as estrelas eram consideradas fixas numa abóbada que cobria a Terra.

 

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