10 – Capítulo X – Gênese Orgânica

CAPÍTULO X – GÊNESE ORGÂNICA

 

GÊNESE ORGÂNICA

 

Primeira formação dos seres vivos – Princípio Vital – Geração espontânea

– Escala dos seres corpóreos – O homem

 

PRIMEIRA FORMAÇÃO DOS SERES VIVOS

 

1. – Foi num tempo em que os animais não existiam, em que eles começaram. Tem-se visto aparecer cada espécie na medida em que o globo adquiria as condições necessárias para sua existência: eis o que é positivo. Como se formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? Compreende-se que um primeiro par sendo dado, os indivíduos sejam multiplicados; mas este primeiro par, de onde surgiu? É aí um destes mistérios que se tem do princípio das coisas e sobre os quais só se podem fazer hipóteses. Se a Ciência não pode ainda resolver completamente o problema, pode, pelo menos colocar sob a vista.

 

2. – Uma primeira questão que se apresenta é esta aqui: cada espécie animal seria ela saída de um primitivo par ou de vários pares criados, ou como se queira, germinados simultaneamente em diferentes lugares?

 

Esta última suposição é a mais provável; pode-se, mesmo, dizer que ela resulta da observação. Com efeito, existe em uma mesma espécie uma infinita variedade de gêneros que se distinguem pelos caracteres mais ou menos resolvidos. Seria preciso, necessariamente, ao menos um tipo para cada variedade apropriada ao meio onde fosse chamada a viver, já que cada uma se reproduz identicamente da mesma forma.

 

Por outro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo a de um indivíduo nascido, está sujeita a tantas eventualidades, que toda uma criação poderia estar comprometida sem a pluralidade dos tipos primitivos, o que não teria sido conforme a providência divina. Alhures, se um tipo pudesse se formar sobre um ponto, não haveria razão para que não se formasse em vários outros pontos pela mesma causa.

 

Enfim, a observação das camadas geológicas atesta a presença, nos terrenos de mesma formação, e aí em proporções enormes, a mesma espécie sobre os pontos distantes do globo. Esta multiplicação, se geral e, de alguma forma, contemporânea, teria sido impossível a partir de um só tipo primitivo único.

 

Tudo concorre, pois para provar que teve criação simultânea e múltipla das primeiras duplas de cada espécie animal e vegetal.

 

3. – A formação dos primeiros seres vivos pode-se deduzir por analogia, da mesma lei de após a qual se formaram, e se formam diariamente, os corpos inorgânicos. À medida que se aprofunda nas leis da natureza, veem-se as organizações, que ao primeiro encontro, parecem tão complicadas, simplifica-se e se confunde na grande lei de unidade que preside toda obra da criação. Compreender-se-á melhor quando se der conta da formação dos corpos inorgânicos, do qual é o primeiro grau.

 

4. – A química considera como elementares um certo número de substâncias tais como: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono, o cloro, o iodo, o flúor, o súlfur, o fósforo e todos os metais. Por suas combinações, eles formam os corpos compostos: os óxidos, os ácidos, os álcalis, os sais e as inumeráveis variedades que resultam da combinação dos mesmos. (b)

 

A combinação de dois corpos para formar um terceiro exige um concurso particular de circunstâncias: seja um grau determinado de calor, de secura ou de umidade, seja o movimento ou o repouso, seja uma corrente elétrica, etc. Se estas condições não existirem, a combinação não terá lugar.

 

5. – Quando há combinação, os corpos componentes perdem suas propriedades características, enquanto que o composto que disso resulta possui-as novas, diferentes daquelas das primeiras. É assim, por exemplo, que o hidrogênio e o oxigênio, que são gases invisíveis, combinando-se quimicamente, formam a água que é líquida, sólida ou vaporífica, conforme a temperatura. Na água nada mais há propriamente que falar do hidrogênio e do oxigênio, mas de um novo corpo; esta água, estando decomposta, os dois gases, tornam-se livres, readquirindo suas propriedades e não haverá mais água. A mesma quantidade de água pode ser assim alternativamente decomposta e recomposta ao infinito.

 

Na simples mistura não há produção de um novo corpo, e os princípios misturados conservam suas propriedades intrínsecas que são simplesmente minoradas, como o é o vinho misturado á água. É assim que uma mistura de 21 partes de oxigênio e de 79 partes de azoto formam o ar respirável, da mesma forma que 5 partes de oxigênio sobre 2 de azoto produz o ácido nítrico.

 

6. – A composição e a decomposição dos corpos têm lugar pela sequência do grau de afinidade que os princípios elementares têm uns pelos outros. A formação da água, por exemplo, resulta da afinidade recíproca do oxigênio e do hidrogênio; mas, se, colocando-se em contato com a água um corpo tendo pelo oxigênio maior afinidade que a do hidrogênio, a água se decompõe. O oxigênio é absorvido, liberando o hidrogênio e não há mais água.

 

7. – Os corpos compostos se formam sempre em proporções definidas, ou seja, pela combinação de uma quantidade determinada dos princípios constituintes. Assim, para formar a água é preciso uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio. Então, mesmo que se pusesse, nas mesmas condições, uma proporção maior de um ou do outro dos dois gases, ele aí teria sempre a mesma quantidade necessária absorvida e ao sobrar ficaria livre. Se, em outras condições, houver duas partes de hidrogênio combinadas com duas de hidrogênio, em lugar da água comum obter-se-ia o dióxido de hidrogênio (água oxigenada), líquido corrosivo, formado de acordo com os mesmos elementos da água, mas em uma outra proporção. (c)

 

8. – Tal é, em poucas palavras, a lei que preside a formação de todos os corpos da natureza. A inumerável variedade destes corpos resulta de um reduzido número de princípios elementares combinados em proporções diferentes.

 

Assim, o oxigênio combinado em certas proporções com o carbono, o súlfur, o fósforo, forma os ácidos carbônico, sulfúrico, fosfórico; o oxigênio e o ferro formam o óxido de ferro ou ferrugem; o oxigênio e o chumbo, ambos inofensivos, dão lugar aos óxidos de chumbo, tais como o litargo, o branco de cerusa (alvaiade), o mínio (zarcão), que são venenosos. O oxigênio, com os metais chamados cálcio, sódio, potássio, forma a cal, a soda cáustica, a potassa. A cal unida ao ácido carbônico forma os carbonatos de cálcio ou pedras calcárias, tais como o mármore, o giz, a pedra de batimento (portuguesa branca), as estalactites das grutas, unida ao ácido sulfúrico, forma o sulfato de cálcio, ou gesso, e o alabastro; ao ácido fosfórico o fosfato de cálcio, base sólida dos ossos; o hidrogênio e o cloro formam o ácido clorídrico (suco gástrico) ou hidroclorídrico; o cloro e o sódio formam o hidroclorato de sódio (cloreto de sódio ou sal de cozinha), ou sal marinho.

 

9. – Todas estas combinações e milhares de outras obtêm-se artificialmente em pequenas proporções  nos laboratórios de química; eles operam-se espontaneamente em grande escala no imenso laboratório da natureza.

 

A Terra, em seu princípio, não continha estas matérias combinadas, mas apenas seus princípios constituintes volatilizados. Tão logo as terras calcárias e outras, tornaram-se ao longo pedregosas, foram depositadas em sua superfície, elas não existiam absolutamente todas formadas; mas no ar encontravam-se, no estado gasoso, todas as substâncias primitivas; estas substâncias, precipitadas pelo efeito do resfriamento, sob o domínio das circunstâncias favoráveis, combinaram-se segundo o grau de sua afinidade molecular; foi então que se formaram as diferentes variedades de carbonatos, de sulfatos, etc., a princípio, em dissolução nas águas, depois, depositadas na superfície do solo.

 

Suponhamos que, por uma causa qualquer, a Terra volte ao seu estado de incandescência primitiva; tudo isso se decomporia; os elementos se separariam; todas as substâncias fusíveis se fundiriam; todas estas que são voláteis se volatilizariam. Depois, um segundo resfriamento conduziria a uma nova precipitação e as antigas combinações se formariam novamente.

 

10. – Estas considerações provam o quanto a Química era necessária para a compreensão da Gênese. Antes do conhecimento das leis da afinidade molecular, era impossível compreender a formação da Terra. Esta ciência aclarou a questão de uma forma toda nova, como a Astronomia e a Geologia fizeram a outros pontos de vista.

 

11. – Na formação dos corpos sólidos, um dos fenômenos dos mais remarcáveis é o da cristalização que consiste na forma regular que afetam certas substâncias então de sua passagem da fase líquida ou gasosa (fluida) para a fase sólida. Esta forma, que varia conforme a natureza da substância, é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o romboide, o cubo, a pirâmide (e). Todos conhecem os cristais de açúcar cândi; os cristais de rocha, ou silício cristalizado que são prismas com seis faces terminadas por uma pirâmide igualmente hexagonal. O diamante é carbono puro, cristalizado. Os desenhos que se produzem sobre os vidros no inverno são devidos à cristalização do vapor de água sob forma de agulhas prismáticas.

 

A disposição regular dos cristais tem a forma particular das moléculas de cada corpo; estes fragmentos, infinitamente pequenos para nós, não deixando de ocupar um certo espaço, solicitados uns sobre os outros, pela atração molecular, se arranjam e se justapõem conforme a exigência de sua forma, de maneira que tome, cada um, seu lugar em torno do núcleo ou primeiro centro de atração e de formar um conjunto simétrico.

 

A cristalização só se opera sob o jugo de certas circunstâncias favoráveis fora das quais não pode ter lugar; o grau da temperatura e o repouso são as condições essenciais. Compreende-se que um forte calor, mantendo as moléculas afastadas, não as permitiria condensar-se e que a agitação se opondo a seu arranjo simétrico, elas, apenas, formarão uma confusa e irregular massa e, portanto, sem cristalização propriamente dita.

 

12. – A lei que preside a formação dos minerais conduz naturalmente à formação dos corpos orgânicos.

 

A análise química nos mostra todas as substâncias animais e vegetais compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos. Aqueles destes elementos que ocupam o principal papel são: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono; os outros só se encontram acessoriamente. Como no reino mineral, a diferença de proporção na combinação destes elementos produz todas as variedade de substâncias orgânicas e suas propriedades diversas tais como: os músculos, os ossos, o sangue, a bile, os nervos, a matéria cerebral, a gordura, entre os animais; a seiva, o tronco, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resinas, etc., nos vegetais. Assim, na formação dos animais e das plantas não entra nenhum corpo essencial que não se encontre igualmente no reino mineral. (1).

 

13. – Alguns exemplos usuais farão compreender as transformações que se operam no reino orgânico, pela simples modificação dos elementos constituintes.

 

No sumo da uva não há ainda nem o vinho nem o álcool, mas simplesmente, água e açúcar. Quando este sumo chega à maturidade e que se encontre posto em circunstâncias propícias, aí, produz-se um trabalho íntimo ao qual se dá o nome de fermentação. Neste trabalho, uma parte do sumo se decompõe; o oxigênio, o hidrogênio e o carbono se separam e se combinam nas proporções de volume para fazer o álcool; de sorte que em bebendo a essência de uva, nunca se bebe realmente álcool, já que não o existe ainda.

 

No pão e os legumes que se comem, não há certamente nem carne nem sangue, nem osso, nem bile, nem matéria cerebral e, conforme estes mesmos alimentos vão em se decompondo e se recompondo pelo trabalho da digestão, produz estas diferentes substâncias pela simples transmutação de seus elementos constituintes.

 

Na semente de uma árvore, não há nada mais nem tronco, nem folhas, nem flores, nem frutas, e é um erro pueril de se crer que a árvore inteira, sob forma microscópica, se encontra na semente; nem sequer, num relance, nesta semente, a quantidade de oxigênio, de hidrogênio e de carbono necessária para formar uma folha da árvore. A semente contém um germe que eclode quando ela se acha em condições favoráveis; este germe cresce pelos sucos que tira na terra e o gás que aspira do ar; estes sucos que não são nem tronco, nem folhas, nem frutas, infiltram-se na planta e formam a seiva, como os alimentos, entre os animais, formam o sangue. Esta seiva, levada pela circulação em todas as partes do vegetal, conforme os órgãos aonde chegam e onde ela sofre uma elaboração, transforma-se em troncos, folhas, frutos, como o sangue se transforma em cabelo, osso, bile, etc., e, entretanto são sempre os mesmos elementos; oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, diversamente combinados.

 

14. – As diferentes combinações dos elementos para a formação das substâncias minerais, vegetais e animais, só podem, pois, se operar nos meios e nas circunstâncias propícias; fora destas circunstâncias, os princípios elementares estão em uma forma de inércia. Mas, desde que as circunstâncias sejam favoráveis, começa um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento, elas se agitam, atraem-se, repelem-se, separam-se em virtude da lei das afinidades, e, por suas combinações múltiplas, compõem a infinita variedade das substâncias. Que estas condições cessem e o trabalho será subitamente detido, para recomeçar quando elas se apresentarem novamente. É assim que a vegetação se ativa, ralenta-se, cessa e retoma sob ação do calor, da luz, da umidade, do frio ou da seca; que tal planta prospere num clima ou num terreno, e se debilite ou pereça em um outro.

 

15. – O que se passa habitualmente sob nossos olhos pode nos colocar sob a rota disto que se passa na origem dos tempos, porque as leis da natureza são sempre as mesmas.

 

Uma vez que os elementos constituintes dos seres orgânicos e dos seres inorgânicos são os mesmos; que os vemos incessantemente sob o domínio de certas circunstâncias, formarem as pedras, as plantas e os frutos, pode-se concluir que os corpos dos primeiros seres vivos se formaram tais como as primeiras pedras, pela reunião das moléculas elementares em virtude da lei de afinidade, à medida que as condições de viabilidade do globo se tornaram propícias a tal ou qual espécie.

 

A similitude de forma e de cores, na reprodução individual de cada espécie, pode ser comparada à similitude de forma de cada espécie de cristal. As moléculas, justapondo-se sob o domínio da mesma lei, produzem um conjunto análogo.

 

PRINCÍPIO VITAL

 

16. – Dizendo-se que as plantas e os animais sejam formados dos mesmos princípios constitutivos dos minerais, é preciso que se entenda o sentido exclusivamente material; também só se trata aqui a questão do corpo.

 

Sem falar do princípio inteligente, que é uma questão à parte, existe na matéria orgânica um princípio especial imperceptível e que não pôde ainda ser definido: é o princípio vital. Este princípio, que é ativo entre o ser vivo, está apagado entre o ser morto, mas, ele não lhe proporciona menos à substância das propriedades características que a distinguem das substâncias inorgânicas. A Química que decompõe e recompõe a maior parte dos corpos inorgânicos, pôde decompor os corpos orgânicos, mas jamais conseguiu reconstituir sequer, uma folha morta, prova evidente que existe nela alguma coisa que não existe nos outros.

 

17. – O princípio vital (f), é ele algo distinto, tendo uma existência própria? Ou bem, para entrar no sistema de unidade do elemento gerador, seja apenas um estado particular, um das modificações do fluido cósmico universal que se torna princípio de vida, como se torna luz, fogo, calor, eletricidade? É neste último sentido que a questão é resolvida pelas comunicações reportadas anteriormente. (Cap. VI, Uranografia geral).

 

Mas, qualquer que seja a opinião que se faça sobre a natureza do princípio vital, ele existe já que se veem seus efeitos. Pode-se, pois, admitir logicamente que em se formando, os seres orgânicos estão assimilados ao princípio vital que era necessário o seu destino; ou, como se queira, que este princípio se desenvolveu em cada indivíduo pelo próprio efeito da combinação de elementos, como se vê, sob o comando de certas circunstâncias, desenvolver-se o calor, a umidade e a eletricidade.

 

18. O oxigênio, o hidrogênio, o nitrogênio e o carbono, combinando-se sem o princípio vital só formam um mineral ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição molecular deste corpo, dá-lhe as propriedades especiais. Em lugar de uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica. (g)

 

A atividade do princípio vital é mantida durante a vida pela ação do jogo dos órgãos, como o calor pelo movimento de rotação de uma roda; que esta ação cessa pela morte, o princípio vital se esvai como o calor, quando a roda cessa de girar. Mas o efeito produzido sobre o estado molecular do corpo pelo princípio vitral subsiste após a extinção deste princípio, como a carbonização da lenha persiste após a extinção do calor e a cessação do movimento da roda. Na análise dos corpos orgânicos, a química reencontra bem os elementos constituintes: oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, mas não pode se reconstituir, porque a causa não existindo mais, não poderá reconstituir o efeito, enquanto que pode reconstituir uma pedra.

 

19. – Tomamos por comparação o calor desenvolvido pelo movimento de uma roda, porque é um efeito vulgar, conhecido de todo mundo, e mais fácil de compreender; mas, teria sido mais exato dizer que, na combinação desses elementos para formar os corpos orgânicos, desenvolve-se a eletricidade. Os corpos orgânicos seriam, assim, verdadeiras pilhas elétricas que funcionam contanto que os elementos desta pilha estejam em condições necessárias para produzir eletricidade: é a vida; que se arrestam quando cessam as condições: é a morte. Após isto, o princípio vital não seria outro senão a espécie particular de eletricidade designada sob o nome de eletricidade animal, engajada durante a vida pela ação dos órgãos, e cuja produção é arrestada na morte pela cessação desta ação.

 

GERAÇÃO ESPONTÂNEA

 

20. – Indaga-se naturalmente porque não se formam mais seres vivos nas mesmas condições dos que os primeiros que apareceram na Terra.

 

A questão da geração espontânea que atualmente preocupa a Ciência, se bem que ainda diversamente resoluta não é possível faltar de se lançar luz sobre este assunto. O problema proposto é o seguinte: formar-se-ia espontaneamente em nossos dias seres orgânicos pela simples união dos elementos constituintes, sem germens preliminares produzidos pela germinação ordinária, senão dito sem pais nem mães?

 

Os partidários da geração espontânea (h) respondem afirmativamente, e se apoiam em observações diretas que parecem conclusivas. Outros pensam que todos os seres vivos se reproduzem uns em decorrência de outros, e se apoiam sobre este fato, constatado pela experiência, que os germens de certas espécies animais, estando dispersos, podem conservar uma vitalidade latente durante um tempo considerável, até que as circunstâncias sejam favoráveis à sua eclosão. Esta opinião deixa sempre subsistir a questão da formação dos primeiros tipos de cada espécie.

 

21. – Sem discutir os dois sistemas, convém assinalar que o princípio da geração espontânea não pode evidentemente se aplicar a quaisquer seres senão os de ordem inferior do reino vegetal e do reino animal, naqueles em que a vida começa a pesar e em cujo organismo extremamente simples seja, de alguma sorte, rudimentar. São, efetivamente, os primeiros que apareceram sobre a Terra e, dos quais, a geração deva ser espontânea. Assistiremos, assim, a uma criação permanente análoga à que teve lugar nas primitivas idades do mundo.

 

22. – Mas, então, por que não se veem mais formar, da mesma maneira, os seres de uma organização complexa? Estes seres nunca existiram, é um fato positivo, pois foram o começo. Se o musgo, o líquen, o zoófito, o infusório, os vermes intestinais e outros podem se produzir espontaneamente, por que não o é o mesmo com as árvores, os peixes, os cães, os cavalos?

 

Aqui se detêm, por momento as investigações; o fio condutor se perde, e até que ele seja encontrado, o campo está aberto às hipóteses; será, pois, imprudente e prematuro dar sistemas como verdades absolutas.

 

23. – Se o fato de a geração espontânea ficar demonstrada, qualquer limitação que seja, não será menos um fato capital, um marco posto que pode colocar sobre a vista de novas observações. Se os seres orgânicos complexos não se reproduzem desta maneira, quem sabe como eles começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações? Quando se vê o carvalho e a bolota (semente do carvalho), quem poderá dizer se em um lugar misterioso não exista do pólipo ao elefante?

 

Deixemos ao tempo a atenção de trazer a luz ao fundo deste abismo, se um dia possa ser sondado. Estes conhecimentos são interessantes, sem dúvida, no ponto de vista da ciência pura, mas elas não são as que influem sobre os destinos do homem.

 

ESCALA DOS SERES CORPÓREOS

 

24. – Entre o reino vegetal e o reino animal não há delimitação nitidamente traçada. Sobre os confins dos dois reinos estão os zoófitos ou animais-plantas do qual o nome indica que eles têm de um e do outro: é o traço de união.

 

Como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, nutrem-se, respiram, reproduzem-se e morrem. Como os animas, para viver, elas precisam de luz, de calor e de água; se, forem privadas disso, elas se debilitam e morrem; a absorção de um ar viciado e de substâncias deletérias as envenena. Sua característica distintiva mais marcante é a de estarem fixadas ao solo e de aí retirarem sua nutrição sem deslocamento.

 

O zoófito tem aparência exterior da planta; como planta, ele se atém ao solo; como animal, a vida entre ele é mais acentuada; ele tira sua nutrição no meio ambiente.

 

Um degrau acima, o animal está livre e vai procurar sua nutrição; são, a princípio as inumeráveis variedades de pólipos, em corpos gelatinosos, sem órgãos bem distintos e que só diferem das plantas pela locomoção; depois, seguem, na ordem do desenvolvimento dos órgãos, de atividade vital e do instinto: os helmintos ou vermes intestinais; os moluscos, animais carnosos, sem osso, onde uns são nus como as lesmas, as polpas ou polvos, outros são revestidos de conchas como os caramujos, as ostras; os crustáceos em que a crosta é revestida de uma casca dura como os lagostins, as lagostas; os insetos entre os quais a vida toma uma atividade prodigiosa e se manifesta o instinto industrioso, como a formiga, a abelha, a aranha. Alguns sofrem metamorfose, como a lagarta que se transforma em elegante borboleta. Vem, a seguir, a ordem dos vertebrados, animais com estrutura óssea que compreende os peixes, os répteis, os pássaros, enfim os mamíferos, cuja organização é a mais completa.

 

O HOMEM

 

25. – Do ponto de vista corpóreo e puramente anatômico, o homem pertence à classe dos mamíferos, do que só difere de características na forma exterior; de resto, a mesma composição química que todos os animais, mesmos órgãos, mesmas funções e mesmos modos de nutrição, de respiração, de secreção, de reprodução; nasce, vive, morre nas mesmas condições, e, à sua morte seu corpo se decompõe como o de todo aquele que vive. Não há em seu sangue, em sua carne, nos seus ossos, um átomo a mais nem a menos do que nos corpos dos animais; tal como estes, em morrendo, retorna à terra o oxigênio, o hidrogênio, o nitrogênio e o carbono que se encontravam combinados para o formar; e vão, por novas combinações, formar novamente corpos minerais, vegetais e animais. A analogia é tão grande que se estudam suas funções orgânicas em certos animais, desde que as experiências não possam ser feitas neles mesmos.

 

26. – Na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos bípedes. Imediatamente abaixo dele vêm os quadrúmanos (animais com quatro mãos) ou símios, dos quais, alguns, como o orangotango, o chipanzé, o jongo, têm certas semelhanças com o homem, a tal ponto que se os tem sido designados por muito tempo como homens dos bosques; como os homens, eles caminham eretos, servem-se de bastões, e levam os alimentos à boca com a mão, sinais característicos.

 

27. – Por pouco que se observe a escala dos seres vivos sob o ponto de vista do organismo, reconhece-se que, desde o líquen até as árvores e, após, o zoófito até o homem, existe uma cadeia se desenvolvendo por graus sem solução de continuidade, e dos quais todos os elos têm um ponto de contato com o elo precedente; seguindo passo a passo a série de seres, dir-se-á que cada espécie é um aperfeiçoamento, uma transformação da espécie imediatamente inferior. Uma vez que o corpo do homem está, nas condições idênticas aos outros corpos, química e constitucionalmente, que nasce, vive e morre da mesma maneira, ele deva ser formado nas mesmas condições.

 

28. – Qual o que possa custar a seu orgulho, o homem deve se resignar a não ver em seu corpo material senão o último elo de animalidade sobre a Terra. O inexorável argumento dos fatos está aí, contra o qual se protestará em vão.

 

Mas, quanto mais o corpo diminui de valor a seus olhos, mais o princípio espiritual engrandece em importância; se o primeiro o coloca ao nível do bruto, o segundo o eleva a uma altura incomensurável. Vemos o círculo onde se detém o animal: não vemos o limite onde possa atingir o Espírito do homem.

 

29. – O materialismo pode ver por aí que o Espiritismo, longe de temer as descobertas da Ciência e seu positivismo, vai além e os provoca, porque é certo que o princípio espiritual, que tem sua existência própria, não pode sofrer nenhum atentado.

 

NOTA

 

(1) A tabela logo abaixo, de análise de algumas substâncias, mostra a diferença das propriedades que resultam da exclusiva diferença na proporção dos elementos constituintes. Para 100 partes:

 

 

Carbono

Hidrogênio

Oxigênio

Nitrogênio

Açúcar de cana……

42.470

6.900

50.630

Açúcar de uva……..

36.710

6.780

56.510

Álcool………………..

51.980

13.700

34.320

Azeite de oliva……..

77.210

13.360

9.430

Óleo de nozes……..

79.774

10.570

9.122

0.534

Banha………………..

78.996

11.700

9.304

Fibrina……………….

53.360

7.021

19.685

19.934

 

 

NOTAS DO TRADUTOR

 

(a) A Biologia admite que a transformação gradual das espécies, num processo gradativo, tenha sido a causa do surgimento das mesmas. Teoria de Darwin.

 

(b) Atualmente, a classificação química admite a existência de corpos simples, formados pelo mesmo átomo e substâncias que são formadas por átomos diversos, como a água, composta de hidrogênio e oxigênio citada no item seguinte.

 

(c) Naquela época não se sabia e nem se imaginava que os raios cósmicos, atuando sobre as moléculas de água em vapor na atmosfera, seriam capazes de transformá-las em nitrogênio e, da mesma forma, sobre as moléculas de nitrogênio, liberaria o oxigênio sob forma de ozona e separaria o hidrogênio, motivo pelo qual se tem uma cama hidrogenada sobre nossa atmosfera. Essas transformações só foram observadas no século vinte, após conhecida a decomposição atômica do urânio.

 

(d) Atualmente, tem-se a ideia de que haja um agente externo ao Universo que atue sobre a energia cósmica, modulando-a e dando-lhe as diversas formas, a partir das subpartículas atômicas. Este agente apresenta diversos graus de ação, variando, portanto, segundo suas funções. Seria um desses, portanto, o que comandaria a afinidade química entre substâncias e átomos em si porque a energia, por si só não é capaz de se alterar.

 

(e) São oito os sistemas cristalográficos, a saber, o cúbico (açúcar, sal, ouro), quadrático (prisma reto de base quadrada), hexagonal prismático (quartzo), ortorrômbico (paralelepípedo), romboédrico, monoclínico, triclínico (calcita) e piramidal.

 

(f) Pode-se assimilar o conceito de “princípio vital” ao de “agente estruturador” (framework) hoje, como já foi dito, admitido como causa da modulação da energia fundamental do universo, antes conhecida como “fluido cósmico universal”.

 

(g) Atualmente, depois dos estudos de Murray Gell Mann no acelerador de partículas da Stanford University, tem-se como certo que, até uma simples subpartícula atômica é constituída a partir do anteriormente aludido agente estruturador (frameworks) externo ao domínio material compatível com a forma estrutural, sem o quê, a energia fundamental do universo jamais se alteraria para dar forma e vida à matéria ou aos corpos ditos materiais, quer minerais, quer biológicos. Contudo, estes agentes não lhe dão vida, senão existência mineral. Portanto, é de se admitir que a alma seja uma forma deles, porém, com predicados biológicos.

 

(h) Estes partidários baseavam-se na aparição de larvas de inseto nas carnes putrefeitas e que, para eles, representaria a dita geração espontânea que foi contestada por Pasteur, quando encerrou um pedaço da mesma carne numa redoma de tela fina onde os insetos não pudessem atravessar para depositar seus ovos na mesma.

 

O que se tem, atualmente, como provável geração espontânea é a ideia de que os primeiros agentes estruturadores externos teriam atuado sobre as cadeias carbônicas dissolvidas nas águas primitivas, transformando-as em plânctons, os elementos fundamentais para a origem dos zoófitos. Daí em diante, ocorre o ciclo evolutivo da transformação das espécies, também, sob ação de agentes externos superiores.

 

(i) Resta saber a causa que provoca tais transformações; pois, dessa forma, pode-se admitir, em princípio, a existência da Espiritualidade como sendo o domínio de existência das mesmas e elas, como formas espirituais de vida.

 

* * *

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s