07 – Capítulo VII – Esboço Geológico da Terra

CAPÍTULO VII – ESBOÇO GEOLÓGICO DA TERRA

 

Períodos geológicos – Estado primitivo do globo – Período primário – Período de transição – Período secundário – Período terciário – Período diluviano

– Período pós-diluviano ou atual – Nascimento do homem

 

PERÍODOS GEOLÓGICOS

 

1.– A Terra traz em si os traços evidentes de sua formação; seguem-se as fases com uma precisão matemática nos diversos terrenos que compõem seu vigamento. O conjunto destes estudos constitui a Ciência chamada Geologia, ciência nascida neste século e que lançou a luz sobre a questão tão controvertida de sua origem e da dos seres vivos que a habitam. Aqui não há a mínima hipótese; é o resultado rigoroso da observação dos fatos e, em presença dos fatos a duvida jamais será permitida. A história da formação do globo está escrita nas camadas geológicas de uma maneira de outro modo bem mais certa do que nos livros preconcebidos porque é a natureza, ela própria que fala, que se mostra a descoberto, e não a imaginação dos homens que cria sistemas. Onde se vê os traços do fogo, pode-se dizer com certeza que o fogo existiu; onde se vê os da água, diz com não menos certeza que a água esteve lá; onde se vê os dos animais, diz-se que os animais aí viveram. A Geologia é, pois, uma ciência toda de observação; só tira suas consequências do que vê; sobre os pontos duvidosos ela não afirma nada: só emite opiniões discutíveis cuja solução definitiva espera observações mais completas. Sem as descobertas da Geologia, como sem as da Astronomia, a Gênese do mundo estaria ainda nas trevas da legenda. Graças a ela, atualmente, o homem conhece a história da sua habitação e o alicerce das fábulas que cercavam seu berço desmoronaram-se para não mais se reerguer.

 

2. – Por toda parte, onde existiam nos terrenos trincheiras, escavações naturais ou praticadas pelos homens, distingue-se o que se chama de estratificação, isto é, camadas superpostas. Os terrenos que apresentam tal disposição são designados sob o nome de terrenos estratificados. Estas camadas de uma espessura muito variada, após alguns centímetros até 100 metros e mais, distinguem-se entre elas pela cor e a natureza das substâncias das quais se compõem. Os trabalhos de arte, a perfuração dos poços, a exploração das carreiras e, sobretudo das minas permitiram observá-las até uma assaz grande profundidade.

 

3. – As camadas são geralmente homogêneas, ou seja, que cada uma é formada de uma mesma substância, ou de diversas substâncias que tenham existido simultaneamente, e tenham formado um todo compacto. A linha de separação que as isola umas das outras é sempre asseadamente cortada, como nas fileiras de pedra de um edifício; em nenhuma parte se vê misturarem-se e se perderem umas das outras no sítio de seus limites respectivos, como é o caso, por exemplo, das cores do prisma e do arco-íris.

 

Com estas características reconhece-se que elas foram formadas sucessivamente, depositadas umas sobre as outras em condições e causas distintas; as mais profundas foram naturalmente formadas em primeiro e as mais superficiais posteriormente. A última de todas, que se encontra na superfície, é a camada de terra vegetal que deve suas propriedades aos detritos das matérias orgânicas provenientes das plantas e dos animais.

 

As camadas inferiores, colocadas sob a camada vegetal, receberam, em Geologia, o nome de rochas, termo que, nesta acepção, não implica, sempre, na ideia de uma substância pedregosa, porém, significa um leito ou banco de uma substância mineral qualquer. Umas são formadas de saibro, de argila ou terra argilosa, de marga, de calhaus roliços, e outras de pedras propriamente ditas, mais ou menos duras, tais como os arenitos, os mármores, o giz, os calcários ou pedras de cal, as pedras de mós, os carvões minerais, os asfaltos, etc. Diz-se que uma rocha é mais ou menos potente conforme seja sua espessura mais ou menos considerável.

 

4. – Pela inspeção da natureza destas rochas ou camadas, reconhece-se, através de certos sinais que umas provêm de matérias fundidas e, por vezes, vitrificadas pela ação do fogo; outras de substâncias terrosas depositadas pelas águas (aluviões); algumas destas substâncias ficam desagregadas, como o saibro; outras, a princípio, no estado pastoso, sob ação de certos agentes químicos ou outras causas, endurecem-se e adquirem ao longo, a consistência da pedra. Os bancos de pedras superpostos anunciam os depósitos sucessivos. O fogo e a água têm, pois, sido parte da ação na formação dos materiais que compõem a estrutura sólida do globo.

 

5. – A posição normal das camadas terrestres ou pedregosas provindas de depósitos aquosos é a direção horizontal. Logo que se veem estas imensas planícies que se estendem às vezes a perder de vista, de uma horizontalidade perfeita, unidas como se as tivesse nivelado por rolos, ou estes fundos de vale também planos como a superfície de um lago pode-se estar certo que a uma época mais ou menos recuada, estes lugares estiveram longo tempo coberto por águas tranquilas que, ao se retirarem, deixaram a seco as terras que haviam depositado durante sua demora. Após a retirada das águas, estas terras se cobriram de vegetação. Se, em lugar de terras férteis, limosas, argilosas ou arenosas, próprias para assimilar os princípios nutritivos, as águas somente depositaram saibros silicosos, sem agregação, tem-se estas planícies arenosas e áridas que constituem as charnecas e os desertos. Os depósitos que deixaram as inundações parciais e os que formam os aterros nas embocaduras dos rios podem-nos dar uma pequena ideia.

 

6. – De sorte que a horizontalidade sendo a posição normal e a mais geral das formações aquosas, vê-se frequentemente sobre, assaz, grandes extensões, nos países de montanhas, rochas duras que sua natureza indica terem sido formadas pelas águas, numa posição inclinada e por vezes, vertical. Ora, como, a partir das leis de equilíbrio dos líquidos e da gravidade, os depósitos aquosos só se podem formar em planos horizontais, atentando que os que se põem sobre planos inclinados são arrastados nos baixios pelas correntes e seu próprio peso, permanece evidentemente que estes depósitos devam ter sido soerguidos por uma força qualquer, após sua solidificação ou transformação em pedras.

 

Destas considerações pode-se concluir com certeza que todas as camadas petrificadas provêm de depósitos aquosos de uma posição perfeitamente horizontal, foram formadas na sequência dos séculos por águas tranquilas e que, todas as vezes que elas têm uma posição inclinada, é que o solo esteve atormentado e deslocado posteriormente por convulsões generalizadas ou parciais, mais ou menos consideráveis.

 

7. – Um fato característico da mais alta importância pelo testemunho irrecusável que fornece, consiste nos fragmentos fósseis de animais e de vegetais que se encontram em quantidades incomensuráveis nas diferentes camadas; e como estes fragmentos se encontram mesmo nas pedras as mais duras, torna-se necessário concluir que a existência destes seres é anterior à formação das respectivas pedras; ora si se considerar o número prodigioso de séculos que foi necessário para se operar o endurecimento e conduzir ao estado em que estão desde tempos imemoriais, chega-se a esta consequência forçada que a aparição de seres orgânicos sobre a Terra se perde na noite dos tempos e que é bem anterior, por consequência, à data assinalada pela Gênese (1).

 

8. – Entre estes fragmentos de vegetais e de animais, estão os que foram penetrados em todas as partes de sua substância, sem que sua forma fosse alterada, de matérias silicosas ou calcárias que as transformaram em pedras em que algumas têm a dureza do mármore; são as petrificações propriamente ditas. Outros foram simplesmente envolvidos pela matéria no estado de pasta; encontram-nos intactos e alguns por inteiro, nas pedras as mais duras. Outros, enfim só deixaram sua impressão, mas, de uma nitidez e de uma delicadeza perfeitas. No interior de certas pedras encontram-se até a impressão de passos, com a forma do pé, dos dedos e das garras reconhecendo-se de que espécie de animal elas provenham.

 

 

9. – Os fósseis de animais não compreendem quase nada, senão as partes sólidas e resistentes, a saber, a ossada, as carapaças e os chifres; por vezes são esqueletos completos; na maioria das vezes, são apenas partes destacadas, mas onde é fácil reconhecer a proveniência. Na inspeção de uma arcada dentária, de um dente, vê-se logo se ela pertence a um animal herbívoro ou carnívoro. Como todas as partes do animal têm uma correlação necessária, a forma da cabeça, de uma omoplata, de um osso de perna, de um pé, é suficiente para determinar o talhe, a forma geral, o gênero de vida do animal (2). Os animais terrestres têm uma organização que não permite que se confunda com os animais aquáticos. Os peixes e os moluscos fósseis são excessivamente numerosos; os moluscos, apenas, formam algumas vezes bancos inteiros de uma grande espessura. Por sua natureza reconhece-se sem dificuldade se eles são animais marinhos ou de água doce.

 

10. – Os calhaus roliços que, em certos locais constituem rochas poderosas, são um índice inequívoco de sua origem. Eles são arredondados como os seixos da borda do mar, sinal, certamente, do atrito a que foram submetidos pelo efeito das águas. Os sítios onde se os encontram enterrados em massas consideráveis, têm sido incontestavelmente ocupados pelo oceano ou por águas violentamente agitadas.

 

11. – Os terrenos das diversas formações são distintamente caracterizados pela natureza própria dos fósseis que encerram; os mais antigos contêm espécies animais e vegetais que inteiramente desapareceram da superfície do globo. Certas espécies mais recentes igualmente desapareceram, mas conservaram seus análogos que não diferem de sua estirpe senão pelo porte e algumas diferenças de forma. Outros, enfim, dos quais vemos os últimos representantes, tendem evidentemente a desaparecer em um futuro mais ou menos próximo, tais como os elefantes, os rinocerontes, os hipopótamos, etc. assim, à medida que as camadas terrestres se aproximam da nossa época, as espécies animais e vegetais se aproximam também das que existem atualmente.

 

As perturbações, os cataclismos que tiveram lugar sobre a terra após sua origem, trocaram, pois, as condições de vitalidade e fizeram desaparecer gerações inteiras de seres vivos.

 

12. – Em interrogando a natureza das camadas geológicas, sabe-se da maneira a mais positiva, se, à época de sua formação, o sítio que as encerra estava ocupado pelo mar, por lagos, ou por florestas e plenas de populações animais terrestres. Se, pois em uma mesma região, encontra-se uma série de camadas superpostas, contendo alternativamente fósseis marinhos, terrestres e de água doce, várias vezes repetidas, é uma prova irrecusável que esta mesma região esteve por várias vezes invadida pelo mar, coberta de lagos e postas a seco.

 

E quanto a séculos de séculos certamente, que milhares de séculos talvez, foram necessários a cada período para se cumprir! Que força poderosa não teria sido necessária para tirar e recolocar o oceano e para elevar as montanhas! Por quantas revoluções físicas, de comoções violentas, a Terra na teria que passar antes de ser o que nós vemos após os tempos históricos! E quer-se-ia que fosse obra de pouco tempo que não seria preciso para fazer produzir uma planta!

 

13. – O estudo das camadas geológicas atesta, assim como foi dito, as formações sucessivas que mudaram o aspecto do globo e dividem sua história em diversas épocas. Estas épocas constituem o que e chama de períodos geológicos dos quais o conhecimento é essencial para o estabelecimento da Gênese. São computados seis principais que são designados sob os nomes de: período primário, de transição, secundário, terciário, diluviano, pós-diluviano ou atual. Os terrenos formados durante a duração de cada período se chamam também: terrenos primitivos, de transição, secundários, etc. Diz-se assim que tal ou qual camada ou rocha, tal ou qual fóssil encontram-se nos terrenos de qual período.

 

14. – É essencial notar que o nome destes períodos não é essencialmente absoluto e que depende de sistemas de classificação. Não se compreende nos seis principais designados acima senão que são marcados por uma transformação notável e geral no estado do globo; mas a observação prova que várias formações sucessivas foram operadas durante a duração de cada uma; é porque se dividem em subperíodos caracterizados pela natureza dos terrenos, e que portam a vinte e seis o número das formações gerais bem caracterizadas, sem computar os que provenham de modificações devidas a causas puramente locais.

 

ESTADO PRIMITIVO DO GLOBO

 

15. – O achatamento dos polos e outros fatos concludentes são indícios certos de que a Terra deveu ter tido, em sua origem, um estado de fluidez ou de moleza. Este estado podia ter por causa a matéria liquefeita pelo fogo ou destemperada pela água.

 

Diz-se proverbialmente: não há fumaça sem fogo. Esta proposição rigorosamente real é uma aplicação do princípio: não há efeito sem causa. Pela mesma razão pode-se dizer: não há fogo sem fogueira. Ora, pelos fatos que se passaram sob nossos olhos, não é apenas da fumaça que se produz, é de um fogo bem real que deva ter uma fogueira; este fogo vindo do interior da Terra e não do alto, a fogueira deva ser interior; o fogo sendo permanente, a fogueira deve sê-lo igualmente.

 

O calor que aumenta à medida que e penetra no interior da Terra, e que, a certa distância da superfície, atinge uma temperatura muito elevada; as fontes termais tanto mais quentes quanto venham de uma profundidade maior; os fogos e as massas de matéria fundida e abrasada que se escapam dos vulcões, como por vastos suspiros, ou pelas clivagens produzidas em certos tremores de terra, não podem deixar dúvida sobre a existência de um fogo interior.

 

16. – A experiência demonstra que a temperatura se eleva de um grau centígrado para cada trinta metros de profundidade; de onde segue que a uma profundidade de 300 metros, o aumento é de 10 °C; a 3000 metros será de 100 graus, temperatura da água em ebulição; a 30.000 metros ou a 7 até 8 léguas de mais de 3.300 graus, tempera na qual nenhuma matéria conhecida resiste à fusão. Daí até o centro há ainda um espaço de mais de 1.400 léguas, seja, 2.800 léguas em diâmetro, que será ocupado por matérias fundidas.

 

 

Bem que isto não seja senão uma conjectura, julgando-se a causa pelo efeito, possui todas as características da probabilidade, e chega-se à conclusão que a Terra é ainda uma massa incandescentes recoberta de uma crosta sólida de 25 léguas ou mais de espessura, o que é somente a 120ª parte de seu diâmetro. Proporcionalmente, seria muito menos que a espessura da mais delgada casca de laranja.

 

De resto, a espessura da crosta terrestre é muito variável, porque é de países, sobretudo em terrenos vulcânicos, onde o calor e a flexibilidade do solo indicam que ela é muito pouco considerável. A alta temperatura das águas termais é igualmente o índice da vizinhança do fogo central.

 

17. – Após isto demonstra evidente que o estado primitivo de fluidez ou moleza da Terra deva ter sido por causa da ação do calor e não o da água. A Terra era, pois, em sua origem, uma massa incandescente. Como resultado da radiação do calórico chegou ao que chega a toda matéria em fusão: ela se torna pouco a pouco resfriada e o resfriamento naturalmente começou pela superfície que se endureceu, enquanto que o interior permaneceu fluido. Pode-se assim comparar a Terra a um bloco de carvão saindo todo vermelho da fornalha e cuja superfície se apaga e se resfria ao contato com o ar, então, em se quebrando, encontra o interior ainda em brasa.

 

18. – Na época em que o globo terrestre era uma massa incandescente, ele não continha um átomo a mais ou a menos do que atualmente; apenas, sob a influência desta alta temperatura, a maior parte da substância que lhe compõe, e que vemos sob a forma de líquidos ou de sólidos, de terras, de pedras, de metais e de cristais, encontravam-se em um estado bem diferente; só fizeram sofrer uma transformação; por sequência do resfriamento e das misturas, os elementos formaram novas combinações. O ar, consideravelmente dilatado, devia se estender a uma distância incomensurável; toda água forçosamente reduzida a vapor estava misturada com o ar; todas as matérias susceptíveis de se volatilizar, tais como os metais, o enxofre, o carbono aí se encontravam em estado de gás. O estado da atmosfera não tinha, pois nada de comparável ao que é atualmente; a densidade de todos esses vapores dava-lhe uma opacidade que não podia ser atravessada por nenhum raio de Sol. Se um ser vivo pudesse existir na superfície do globo a esta época, ele não teria claridade senão pelo brilho sinistro da fornalha colocada sob seus pés e da atmosfera abrasada.

 

PERÍODO PRIMÁRIO

 

19. – O primeiro efeito do resfriamento foi o de solidificar a superfície externa da massa em fusão e daí formar uma crosta resistente que, delgada a princípio, e se adensou pouco a pouco. Esta crosta constitui a pedra chamada granito, de uma extrema dureza, assim chamada pelo seu aspecto granulado. Nela distinguem-se três substâncias principais: o feldspato, o quartzo ou cristal de rocha e a mica; esta última tem o brilho metálico, contudo não seja um metal. (a)

 

A camada granítica é, pois, a que se tornou formada sobre o globo que ela envolve por inteiro e do qual constitui de alguma sorte, o esqueleto ósseo; ela é o produto direto da matéria em fusão consolidada. São sobre ela e nas cavidades que apresentava sua superfície atormentada, que foram sucessivamente depositadas as camadas dos outros terrenos formados posteriormente. O que a distingue destas últimas, é a abstinência de toda estratificação; ou seja, que ela forma uma massa compacta e uniforme em toda sua espessura, e não disposta por camadas. A efervescência da matéria incandescente devia aí produzir numerosas e profundas fendas pelas quais verteria esta matéria.

 

20. – O segundo efeito do resfriamento foi o de liquefazer quaisquer umas das matérias contidas no ar no estado de vapores e que se precipitaram sobre a superfície do solo. Houve então chuvas e lagos sulfurosos e de betume, verdadeiros riachos de ferro, de chumbo e outros metais fundidos, infiltraram-se nas fissuras e que constituem atualmente os veios e filões metálicos.

 

Sob a influência destes diversos agentes, a superfície granítica experimentou decomposições alternativas; fizeram-se misturas que formaram os terrenos primitivos propriamente ditos, distintos da rocha granítica, mas em massas confusas e sem estratificações regulares.

 

Vieram a seguir as águas que, caindo sobre um solo ardente, vaporizaram-se novamente. Retornando em chuvas torrenciais, e assim por diante, até que a temperatura lhe permitiu de permanecer sobre o solo em estado líquido.

 

É à formação dos terrenos graníticos que começa a série dos períodos geológicos. Aos seis períodos principais, conviria, pois juntar a ele o estado primitivo de incandescência do globo.

 

21. – Tal foi o aspecto deste primeiro período, verdadeiro caos de todos os elementos confundidos, procurando seu assentamento, onde nenhum ser vivente poderia existir; também, um de seus caracteres distintivos em geologia é a abstenção de todo traço da vida vegetal e animal.

 

É impossível assinalar uma duração determinada a este primeiro período, nem mais quanto aos seguintes; mas, após o tempo que se tornou necessário a uma bala de canhão de um volume dado, aquecida ao vermelho branco, por que sua superfície fosse resfriada para que uma gota de água aí fique no estado líquido, tem-se calculado que tal  bala tivesse a grossura da Terra, seriam necessários um milhão de anos.

 

PERÍODO DE TRANSIÇÃO

 

20. – Ao começo do período de transição, a crosta sólida, granítica, não possuía ainda senão uma pequena espessura e só oferecia uma assaz fraca resistência à efervescência das matérias abrasadas que ela recobria e comprimia. Produziam-se aí inchações, rupturas numerosas por onde se vertia a larva interior. O solo apresentava apenas desigualdades pouco consideráveis.

 

As águas, pouco profundas, cobriam a pouco menos toda a superfície do globo, à exceção das partes elevadas formando terrenos baixios frequentemente submersos.

 

O ar era pouco a pouco purgado das matérias as mais pesadas momentaneamente ao estado gasoso e que, em se condensando pelo efeito do resfriamento, eram precipitadas na superfície do solo, posteriormente arrastadas e dissolvidas pelas águas.

 

Quando se fala do resfriamento, a esta época, é preciso entender esta palavra num sentido relativo, ou seja, por referência ao estado primitivo, porque a temperatura devia ser ainda ardente.

 

Os espessos vapores aquosos que se elevavam de todas as partes da imensa superfície líquida voltavam a cair em chuvas abundantes e quentes e obscureciam o ar. Não obstante os raios do Sol começavam a aparecer através desta atmosfera brumosa.

 

Uma das últimas substâncias das quais o ar purgou, porque ela é naturalmente gasosa, é a do ácido carbônico que então formava uma das partes constituintes dele.

 

21. – Nesta época começaram a se formar as camadas de terreno de sedimento, depositadas pelas águas carregadas de limo e de matérias diversas próprias à vida orgânica.

 

Então aparecem os primeiros seres vivos do reino vegetal e do reino animal; a princípio em pequeno número, encontram-se traços cada vez mais frequentes à medida que se os criam nas camadas desta formação. É remarcável que, por toda parte, a vida se manifesta logo que as condições se tornam propícias à vitalidade e que cada espécie nasça desde que se produziram as condições próprias à sua existência. Dir-se-á que os germens em estado latente e não atendam senão às condições favoráveis para eclodir.

 

22. – Os primeiros seres orgânicos que apareceram sobre a Terra foram os vegetais da organização menos complexa, designados em botânica sob o nome de criptógamos, acotilédones, monocotilédones, isto é, os líquenes, cogumelos, musgos, fetos e plantas herbáceas. Não se via ainda árvores de troncos lenhosos, mas desse gênero de palmeira onde o tronco esponjoso era análogo ao das ervas.

 

Os animais deste período que sucederam aos primeiros vegetais são exclusivamente marinhos; são a princípio pólipos, irradiados, zoófitos, animais de organização simples e, por assim dizer rudimentar, o mais próximo dos vegetais; mais tarde vieram os crustáceos e os peixes cujas espécies não mais existem atualmente.

 

23. – Sob o império do calor e da umidade e, por conseguinte, do excesso de ácido carbônico derramado no ar, gás impróprio à respiração dos animais terrestres, mais necessário às plantas, os terrenos descobertos se cobriram rapidamente de uma vegetação poderosa ao mesmo tempo em que as plantas aquáticas se multiplicaram no interior dos lodaçais. Plantas do gênero das que, atualmente, são meras ervas de poucos centímetros, atingindo uma altura e uma grossura prodigiosas; foi assim que houve as florestas de fetos arborescentes de oito a dez metros de elevação e de uma grossura proporcional, licopódios (pé de lobo; gênero de musgo) do mesmo talhe; prelas (3) de quatro a cinco metros que existe apenas um atualmente. Sobre o fim do período começam a aparecer algumas árvores do gênero conífero ou pinheiros.

 

24. – Por consequência do deslocamento das águas, os terrenos que produziram estas massas de vegetais foram por várias repetidas vezes submersos, recobertos de novos sedimentos terrenos, enquanto que os que estavam  postos a seco se cobriam em sua volta de uma semelhante vegetação. Houve assim várias gerações de vegetais alternativamente aniquiladas e renovadas. O mesmo não aconteceu com os animais que, sendo todos aquáticos, não podiam sofrer de tais alternativas.

 

Estes fragmentos, acumulados durante uma longa série de séculos, formaram camadas de grande espessura. Sob ação do calor, da umidade e da pressão exercida pelos depósitos terrenos posteriores, e, sem dúvida, também de diversos agentes químicos, gás, ácidos e sais produzidos pela combinação de elementos primitivos, estes materiais vegetais sofreram uma fermentação que os converteram em hulha ou carvão da terra. As minas de carvão são, assim, o produto direto da decomposição do montão de vegetais acumulados durante o período de transição; é por isso que se encontra a pouco mais ou menos em todas as regiões. (4)

 

25. – Os restos fósseis da vegetação poderosa desta época encontrando-se atualmente sob os gelos das terras polares bem como na zona tórrida, é preciso concluir que, uma vez que a vegetação era uniforme, a temperatura deveria ser idêntica. Os polos não eram, pois cobertos de gelo como atualmente. É que, então, a Terra tirava seu calor dela própria, do fogo central que aquecia de uma forma igual toda a camada sólida ainda pouco espessa. Este calor era bem superior àquele que poderia dar os raios solares, debilitados alhures pela densidade atmosférica. Mais tarde, apenas, quando o calor central só pôde exercer sobre a superfície exterior do globo uma atuação fraca ou nula, a do Sol tornou preponderante, e aquelas regiões passaram a receber apenas raios oblíquos, dando-lhe muito pouco calor, assim, cobriram-se de gelo. Compreende-se que àquela época de que falamos e ainda longo tempo após, o gelo era desconhecido sobre a Terra.

 

Este período deve ter sido muito longo, a julgar pelo número e espessura das camadas hulhíferas (5).

 

Em se supondo apenas mil anos para a formação de cada um desses níveis, seria, já, 68 mil anos somente para esta camada de hulha.

 

É mais do que óbvio que, para se ter a transformação torna-se necessário que haja um agente atuante para efetuá-la. Afinal, não há efeito sem causa.

 

PERÍODO SECUNDÁRIO

 

26. – Com o período de transição desapareceram a vegetação colossal e os animais que caracterizaram esta época, seja porque as condições atmosféricas não fossem mais as mesmas, seja por causa de uma sequência de cataclismos que aniquilaram tudo isto que tinha vida sobre a Terra. É provável que as duas causas tenham contribuído para tais transformações, porque por um lado, o estudo dos terrenos que assinalam o fim deste período atesta grandes transtornos causados pelo levantamento e as erupções que se derramaram sobre o solo, de grande quantidade de lavas, e, por outro lado notáveis trocas se operaram nos três reinos.

 

27. – O período secundário caracterizou-se com respeito ao mineral, por camadas numerosas e poderosas que atestam uma formação lenta no interior das águas, e marcaram diferentes épocas bem características.

 

A vegetação é menos rápida e menos colossal do que o período precedente, sem dúvida, pela sequência da diminuição do calor e da umidade, e das modificações sobrevindas dos elementos constitutivos da atmosfera. Às plantas herbáceas polpudas se juntam as de caules lenhosos e as primeiras árvores propriamente ditas.

 

28. – Os animais são ainda aquáticos, ou totalmente anfíbios; a vida animal sobre a Terra fez pouco progresso. Uma prodigiosa quantidade de animais de concha desenvolveu-se no interior dos mares em seguida à formação das matérias calcárias; novos peixes, de uma organização mais perfeccionista do que os do período precedente tornaram a nascer; vê-se o aparecimento dos primeiros cetáceos. Os animais os mais característicos desta época são os répteis monstruosos entre os quais destacam-se:

 

O ictiossauro, espécie de peixe-lagarto que atingia até dez metros de comprimento e cujos maxilares prodigiosamente alongados estavam constituídos de cento e oitenta dentes. Sua forma geral lembra um pouco a do crocodilo, mas sem couraça escamada; seus olhos tinham o volume da cabeça de um homem; ele tinha nadadeiras como a baleia e expelia água por fendas como aquelas.

 

O plesiossauro, outro réptil marinho, também grande como o ictiossauro, em que o pescoço, excessivamente longo se curvava como o do cisne e lhe dava a aparência de uma enorme serpente atarraxada a um corpo de tartaruga. Tinha a cabeça do lagarto e os dentes de crocodilo; sua pele devia ser lisa como a do precedente, pois não se encontrou nenhum traço de escamas nem de carapaça (6).

 

O teleossauro se aproxima mais dos crocodilos atuais que aparentam ser os diminutivos; como estes últimos, ele tinha uma couraça escamosa e vivia ao mesmo tempo na água e sobre a terra; seu talhe estava em volta de dez metros, dos quais três ou quatro para a cabeça, apenas; sua enorme goela tinha dois metros de abertura.

 

O megalossauro, grande lagarto, sorte de crocodilo de 14 a15 metros de comprimento, essencialmente carnívoro, nutria-se de répteis, pequenos crocodilos e tartarugas.

 

Sua formidável mandíbula estava armada de dentes em forma de lâminas de serrote com dupla fiada, recurvadas para trás, de tal sorte que, uma vez mordida a presa, era impossível dela se desgarrar.

 

O iguanodonte, o maior dos lagartos que apareceram sobre a Terra; tinham eles de 20 a25 metros de cabeça à extremidade da cauda. Seu focinho era dominado por um chifre ósseo semelhante ao do iguana de nossos dias, do qual ele só parece diferir pelo talhe, este último tendo apenas um metro de comprimento. A forma dos dentes prova que era herbívoro e a dos pés que era um animal terrestre.

 

O pterodátilo, animal bizarro, do tamanho de um cisne, tendo, por sua vez a forma de um réptil por corpo, de um pássaro pela cabeça, e do morcego pela membrana carnuda que religava seus dedos de um prodigioso comprimento, e lhe servia de paraquedas quando se precipitava sobre sua presa do alto de uma árvore ou de um rochedo. Não tinha bico córneo como os pássaros, mas os ossos dos maxilares, também alongados como a metade do corpo e guarnecidos de dentes, terminando-se em ponta como um bico.

 

29. – Durante este período, que deve ter sido muito longo, assim como o atestam o número e a espessura das camadas geológicas, a vida animal teve um imenso desenvolvimento no seio das águas, como o havia tido a vegetação no período precedente. O ar, mais purificado e mais próprio à respiração começa a permitir a alguns animais de viver sobre a Terra. O mar foi várias vezes deslocado, mas ele recuou sem abalos violentos. Com este período desapareceram por sua vez as raças de gigantescos animais aquáticos, substituídos mais tarde por espécies análogas. Menos desproporcionais na forma e de talhe infinitamente menor.

 

30. – O orgulho tem feito dizer ao homem que todos os animais foram criados em sua intenção e para sua necessidade. Mas qual é o número dos que lhe servem diretamente, que tenha podido submeter, comparado ao número incalculável dos que jamais tiveram nem jamais terão alguma relação? Como sustentar uma semelhante tese em presença dessas inumeráveis espécies que só povoaram a Terra milhares de milhares de séculos antes de ele mesmo ter vindo e que já sumiram? Pode-se dizer que elas tenham sido criadas para seu proveito? Entretanto, estas espécies tiveram, todas, sua razão de ser, sua utilidade. Deus não teria, pois criado por um capricho de sua vontade e por se dar ao prazer de aniquilá-los; porque todas tiveram a vida, instintos, o sentimento da dor e do bem-estar. Com qual objetivo tê-lo-ia feito? Este objetivo deve ser soberanamente sábio, o que nós não o compreendamos ainda. Talvez um dia seja dado ao homem conhecê-lo por confundir seu orgulho; mas, em atentando quanto às ideais crescentes em presença destes horizontes novos em que lhe sejam permitido agora mergulhar os olhares, e que desenrola ante ele o espetáculo imponente desta criação, tão majestosa em sua lentidão, tão admirável em sua previdência, tão pontual. Tão precisa e tão invariável em seus resultados.

 

PERÍODO TERCIÁRIO

 

31. – Com o período terciário começa, para a Terra, uma nova ordem de coisas; o estado da sua superfície troca completamente de aspecto; as condições de vitalidade estão profundamente modificadas e se reaproximam do estado atual. Os primeiros tempos deste período estão assinalados por uma parada na produção vegetal e animal; tudo leva os traços de uma destruição gradativa geral dos seres viventes e então surgem sucessivamente novas espécies cuja organização mais perfeita está mais adaptada à natureza do meio onde eles são chamados a viver.

 

32. – Durante os períodos precedentes, a crosta sólida do globo, em razão de sua pouca espessura, apresentava, como se tem dito, uma assaz fraca resistência à ação do fogo interior; este invólucro, facilmente desfeito, permitia às matérias em fusão que se espalhassem livremente sobre a superfície do solo. Não aconteceu o mesmo quando ela adquiriu uma certa espessura; as matérias em brasa comprimidas de todas as partes , como a água em ebulição em um vaso fechado, acabaram por realizar uma sorte de explosões; a massa granítica violentamente rompida sobre uma poção de pontos, foi sulcada de fendas como um vaso estriado. Sobre o percurso destas fendas a crosta sólida soerguida e aprumada, formou picos, as cadeias de montanhas e suas ramificações. Certas partes do envoltório não rompidas foram simplesmente alteradas, tanto quanto em outros pontos produziram-se abatimentos e escavações.

 

A superfície do solo transformou-se então, muito desigual; as águas que até este momento, a cobriam de uma certa maneira quase uniforme sobre a maior parte de sua extensão, foram repelidas para as partes as mais baixas, deixando a seco vastos continentes, ou sequências de montanha isoladas que formaram ilhas.

 

Tal é o grande fenômeno que aconteceu no período terciário e que transformou o aspecto do globo. Não se foi produzido nem instantaneamente nem simultaneamente sobre todos os pontos, mas sucessivamente e a épocas mais ou menos distantes.

 

33. – Uma das primeiras consequências destas elevações foi, como se diz, a inclinação das camadas de sedimento primitivamente horizontais e que ficaram nesta posição por toda parte onde o solo não foi perturbado. É, pois, sobre os francos e nas fraldas das montanhas que estas inclinações ficaram mais pronunciadas.

 

34. – Nos sítios onde as camadas de sedimento conservaram sua horizontalidade, por atingir as de primeira formação, é preciso atravessar todas as outras, frequentemente, até uma profundidade considerável ao bojo da qual se encontra inevitavelmente a rocha granítica. Mas logo que estas camadas se elevaram em montanhas, portaram acima do seu nível normal, e, por vezes a uma altitude muito grande, de tal sorte que se fez uma trincheira vertical sobre o flanco da montanha, elas se mostraram ao dia em toda sua espessura e superpostas como os assentamentos de um edifício.

 

É assim que se encontra a grandes elevações dos bancos consideráveis de conchas primitivamente formadas no fundo do mar. É perfeitamente reconhecido atualmente que, em alguma época, o mar não podia atingir a uma tal altitude, porque todas as águas que existiam sobre a terra não eram suficientes, então, mesmo que houvesse cem vezes mais. Seria necessário, pois, supor que a quantidade de água tenha diminuído e então perguntar-se-á aonde foi parar a porção desaparecida. Os soerguimentos que são atualmente um fato incontestável e demonstrado pela Ciência, explicam, de uma maneira também lógica quanto rigorosa, os depósitos marinhos que se encontram sobre certas montanhas. Estes terrenos estiveram evidentemente submersos durante uma longa sequência de séculos, mas a seu nível primitivo e não no local que ocupam atualmente.

 

É absolutamente como se uma porção do fundo de um lago se encontrasse elevado a vinte e cinco ou trinta metros acima da superfície da água; o cume desta elevação levaria os restos das plantas e de animais que jaziam outrora no fundo da água, o que não implicaria radicalmente senão que as águas do lago fossem elevadas a essa altura.

 

35. – Nos locais onde o levantamento da rocha primitiva produziu uma ruptura completa do solo, seja por sua rapidez, seja pela forma, a altitude e o volume da massa alevantada, o granito mostrou-se a descoberto como um dente que atravessa a gengiva. As camadas que os cobriam, soerguidas, partidas, remendadas puseram-se a descoberto; é assim que terrenos aparentemente de formação as mais antigas, e que se encontravam em tais posições primitivas a uma grande profundidade, formam, atualmente, o solo de certos campos.

 

36. – As massas graníticas, deslocadas pelo efeito dos soerguimentos, deixaram em alguns endereços fissuras por onde se escapa o fogo interior e se eclodem as matérias em fusão: são os vulcões. Os vulcões são como chaminés desta imensa fornalha, ou melhor, ainda, são válvulas de segurança que, dando uma resultante ao demasiado volume das matérias ígneas, preservam de comoções bem senão terríveis; do que se pode dizer que o número de vulcões em atividade é uma causa de segurança para o conjunto da superfície do solo.

 

Pode-se fazer uma ideia da intensidade deste fogo, supondo-se que os vulcões se abrem ao seio mesmo do mar e que a massa de água que os recobre e neles penetra não é suficiente para extingui-los.

 

37. – Os soerguimentos operados na massa sólida necessariamente desalojaram as águas, que se refluíram nas partes escavadas, tornadas mais profundas pelo levantamento dos terrenos emersos, e pelos abatimentos. Mas, estes mesmos baixios, elevados a seu turno, ora num local, ora noutro, expulsou as águas, que refluíram alhures, e assim, em seguida até ao que elas puderam se tornar mais estáveis.

 

Os deslocamentos sucessivos desta massa líquida forçosamente elaboraram e açoitaram a superfície do solo. As águas, em se escoando, arrastaram uma parte dos terrenos de formações anteriores posta a descoberto pelo soerguimento, desnudaram certas montanhas que, em estando recobertas, foram postas à vista sua base granítica ou calcária; profundos vales foram escavados e outros preenchidos.

 

Há, pois montanhas formadas diretamente pela ação do fogo central: são principalmente as montanhas graníticas; outras são devidas à ação das águas, que, em ocasionando as terras móveis e as matérias solúveis, cavaram várzeas em volta de uma base resistente, calcária, ou diversa.

 

As matérias arrastadas pela corrente das águas formaram as camadas do período terciário, que se distingue das precedentes, menos por sua composição, que a por ela própria, senão por sua disposição.

 

As camadas dos períodos primário, de transição, e secundário, formadas sobre uma superfície pouco acidentada, são pouco mais que uniformes por toda Terra; as do período terciário, ao contrário, formadas sobre uma base bastante distinta e pelo arrebatamento das águas, possuem um caráter mais local. Por toda parte, cavando-se a uma certa profundidade, encontram-se todas as camadas anteriores, na ordem de sua formação, ao passo que não se encontra por todo terreno terciário, nem todas as camadas dele, no local.

 

38. – Durante a desordem do solo que teve lugar na apresentação desse período, concebe-se que a vida orgânica deveu suportar um tempo de parada, o que se reconhece pela inspeção dos terrenos privados de fósseis. Mas, desde que veio um estado mais calmo, os vegetais e os animais ressurgiram. As condições de vitalidade estando mudadas, a atmosfera mais depurada, viu-se formar novas espécies de uma organização mais perfeita., as plantas, em relação à sua estrutura, diferem pouco da de nossos dias.

 

39. – Durante os dois períodos precedentes, os terrenos não cobertos pelas águas ofereciam pouca extensão, e ainda sendo eles pantanosos e frequentemente submersos; é porque não havia animais aquáticos ou anfíbios. O período terciário que se viu formarem vastos continentes, é caracterizado pela aparição dos animais terrestres.

 

Do mesmo que o período de transição viu nascer uma vegetação colossal, o período secundário répteis monstruosos, este aqui viu se produzirem mamíferos gigantescos, tais como o elefante, o rinoceronte, o  hipopótamo, o paleotério, o  megatério, o dinatério, o mastodonte, o mamute, etc. Viu nascer igualmente os pássaros, assim como a maior parte das espécies que vivem ainda em nossos dias. Qualquer uma dessas espécies desta época sobreviveu aos cataclismos posteriores; por outro lado, o que se designa pela qualificação genérica de animais antediluvianos, estão completamente desaparecidos, ou bem tenham sido recolocados por espécies análogas, de formas menos grosseiras e menos compactas, dos quais os primeiros tipos foram como sinopses; tais são: o felis spelœa, animal carnívoro, do volume de um touro, tendo os caracteres anatômicos do tigre e do leão; o cervus mégaceron, variedade do cervo do qual as galhadas de 3 a4 metros de comprimento, tinham espaços de 3 a4 metros entre suas extremidades.

 

40. – Tem-se por longo tempo acreditado que o macaco e as diversas variedades de quadrúmanos, animais que se reaproximam ao máximo do homem pela conformação, não existiam ainda; mas, descobertas recentes parecem não deixar dúvidas sobre a presença destes animais, pelo menos ao fim do período.

 

PERÍODO DILUVIANO

 

41. – Este período está marcado por um dos maiores cataclismos que perturbaram o globo, mudando ainda uma vez o aspecto da superfície e destruindo sem retorno uma multidão de espécies vivas das quais não se encontram senão vestígios. Por toda parte deixou seus traços que atestam sua generalidade. As águas violentamente lançadas de seu leito invadiram os continentes, arrastando com elas as terras e as rochas, desnudando as montanhas, devastando as florestas seculares. Os novos depósitos que elas formaram são designados em Geologia pelo nome de terrenos diluvianos.

 

42. – Um dos traços mais significativos deste grande desastre, são as rochas chamadas blocos erráticos. Chamam-se assim rochas de granito que se encontram isoladas nas planícies repousando sobre terrenos terciários e ao meio de terrenos diluvianos, por vezes, a várias centenas de léguas das montanhas das quais elas foram arrancadas. É evidente que elas não puderam ser transportadas a também grandes distâncias senão pela violência das correntes. (7)

 

43. – Um fato nada menos característico e do qual não se explica ainda a causa, é o que está nos terrenos diluvianos onde se encontram os primeiros aerólitos (8); é pois a esta época somente que eles começaram a cair. A causa que os produziu não existia, pois anteriormente.

 

44. – É ainda por esta época que os polos começaram a se cobrir de gelos e que se formam as geleiras das montanhas, o que indica uma notável mudança na temperatura do globo. Esta troca deve ter sido súbita, porque se ela se operasse gradualmente, os animais tais como os elefantes, que não vivem em nossos dias senão em climas quentes e que se encontram em tão grande número no estado fossilizado nas terras polares, teriam tido tempo de se retirar pouco a pouco para as regiões mais temperadas. Tudo prova, ao contrário, que eles deveram ter sido tomados bruscamente por um grande frio e envolvidos pelos gelos.

 

45. – Este foi, pois lá o verdadeiro dilúvio universal. As opiniões estão repartidas sobre as causas que o puderam produzir, mas, quaisquer que elas sejam, o fato em si não mais existe.

 

Supõe-se assaz geralmente que uma troca brusca teve lugar na posição do eixo da Terra, para em seguida do que os polos foram mudados; daí uma projeção geral das águas sobre a superfície. Se esta troca se operasse com lentidão, as águas seriam desalojadas gradualmente, sem abalo, tanto que tudo indica uma comoção violenta e súbita. Da ignorância de onde seja a verdadeira causa, só se pode emitir hipóteses.

 

O desalojamento súbito pode também ter sido ocasionado pelo soerguimento de certas partes da crosta sólida e a formação de novas montanhas no seio dos mares, assim é que teve lugar o começo do período terciário; mas outro aspecto é que o cataclismo não foi geral, além do mais não explicaria a troca súbita da temperatura dos polos.

 

46. – Na tormenta causada pela convulsão das águas, muitos animais pereceram; outros, para escaparem da inundação, retiraram-se para as alturas, nas cavernas e rachaduras, onde pereceram em massa, seja por fome, seja em se devorando, ou ainda talvez também por irrupção das águas nos lugares onde estavam refugiados, e de onde não podiam escapar. Assim se explica a grande quantidade de ossadas de animais diversos, carniceiros e outros que se encontram desordenados em certas cavernas, chamada por certa razão cavernas ou brechas ósseas. Em quaisquer umas as ossadas pareceram ai estar entranhadas por corrente das águas. (9)

 

PERÍODO PÓS-DILUVIANO OU ATUAL – NASCIMENTO DO HOMEM

 

47. – O equilíbrio uma vez restabelecido na superfície do globo, a vida animal e vegetal prontamente tomou seu curso. O solo consolidado tomara uma postura mais estável; o ar mais depurado convinha aos organismos mais delicados. O Sol que brilhava com todo seu esplendor através de uma atmosfera límpida, derramava, com sua luz, um calor menos sufocante e mais vivificante do que o da fornalha interior. A Terra se povoava de animais menos selvagens e mais sociáveis; os vegetais mais suculentos ofereciam uma alimentação menos grosseira; tudo, enfim, estava preparado sobre a Terra para o novo hóspede que o deveria habitar. Foi então que apareceu o homem, o último ser da criação, aquele cuja inteligência devia desde então concorrer para o progresso geral, tudo em progresso próprio.

 

48. – O homem não teria existido realmente sobre a Terra senão, depois do período diluviano, ou bem, teria ele aparecido antes desta época? Esta questão é muito controversa atualmente, mas a solução, qualquer que seja, só terá importância secundária, já que não mudaria nada em relação aos fatos acontecidos.

 

O que fizera pensar que a aparição dos homens seja posterior ao dilúvio, foi que não encontraram nenhum traço autêntico de sua existência durante o período anterior. As ossadas descobertas em diversos lugares, e que se tem feito crer na existência de uma pretensa raça de gigantes antediluvianos, foram reconhecidos como sendo ossadas de elefantes.

 

O que não resta dúvida é que o homem não existiu nem no período primário nem no de transição, muito menos no período secundário, não apenas porque não se encontra nenhum traço, mas porque as condições de vitabilidade não existiam para ele. Se apareceu no período terciário, não poderia ser senão ao seu fim, e, ainda, devia ser pouco provável; senão, após ter-se encontrado os vestígios mais delicados de um tão grande número de animais que viveram a esta época, não se compreenderia que os homens não houvessem deixado nenhum indício de sua presença, quer pelos restos dos corpos, quer por quaisquer trabalhos.

 

De resto, o período diluviano, tendo sido curto, não ocasionou notáveis trocas nas condições climáticas e atmosféricas; os animais e os vegetais eram também os mesmos antes como depois; não há, pois uma possibilidade material de que a aparição do homem tenha precedido este grande cataclismo; a presença do símio a esta época ajunta à probabilidade do feito, o que recentes descobertas parecem confirmar (10).

 

O que quer que seja, que o homem tenha aparecido ou não antes do grande dilúvio universal, é certo que seu papel humanitário só começou a se desenhar no período pós diluviano; pode-se pois considerar como caracterizado por sua presença.

 

NOTAS

 

(1) Fóssil, do latim fossillia, focillis, derivado de fossa, a fossa, e de fodere, cavar, escavar a terra. Este termo, diz-se em Geologia, de corpos ou fragmentos de corpos orgânicos, provenientes de seres que viviam anteriormente aos tempos históricos. Por extensão, diz-se igualmente das substâncias minerais portando os traços da presença de seres orgânicos, tais como as impressões de vegetais ou de animais.

 

O termo fóssil, de uma acepção mais geral, foi substituído pelo de petrificação que não se aplica senão aos corpos transformados em pedra pela infiltração de matéria silicosa ou calcárea nos tecidos orgânicos. Todas as petrificações são necessariamente de fósseis, porém, nem todos os fósseis são petrificações.

 

Os objetos que se revestem de uma camada pétrea, logo que sejam mergulhadas em certas águas impregnadas de substâncias calcárias, não são petrificações propriamente ditas, mas simples incrustações.

 

Os monumentos, inscrições e objetos provenientes de fabricação humana, cabem à arqueologia.

 

(2) No ponto em que Georges Cuvier levou a Ciência Paleontológica, um só osso é suficiente para determinar o gênero, a espécie, a forma de um animal, seus hábitos e, para reconstituí-lo todo inteiro.

 

(3) Planta pantanosa, vulgarmente chamada de cauda de cavalo.

 

(4) A turfa se formou da mesma maneira, pela decomposição de rumas de vegetais, em terrenos pantanosos; mas com essa diferença de que, sendo mais recente e, sem dúvida, em outras condições, ela não teve tempo de se carbonizar.

 

(5) Na baía de Fundy (Nova Escócia), M. Lyell encontrou, sobre uma espessura de hulha de 440 metros, 68 níveis diferentes, apresentando os traços evidentemente de vários solos de floresta onde os troncos de árvores estavam ainda guarnecidos de suas raízes. (L. Figuier)

 

(6) O primeiro fóssil deste animal foi descoberto em 1823.

 

(7) É um destes blocos, proveniente evidentemente, por sua composição, das montanhas da Noruega, que serve de pedestal à estátua de Pedro o Grande, em São Petersburgo.

 

(8) Pedras caídas da atmosfera.

 

(9) Conhece-se um grande número de cavernas semelhantes, onde algumas têm uma extensão considerável. Existe-as no México que têm várias léguas; a de Aldesbergue, em Carniole (Áustria), não tem menos do que três léguas. Uma das mais notáveis é a de Gailenroite, no Wutembergue. Há várias na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Sicília e outros países da Europa.

 

(10) Veja os trabalhos do Sr. Boucher de Perthes.

 

NOTAS DO TRADUTOR

 

(a) Assim como os reinos biológicos têm o carbono como componente fundamental, o reino mineral (geológico) tem a sílica, também tetravalente como elemento básico de formação. Tanto o feldspato – nome de origem alemã – silicatos aluminosos, como o quartzo, sílica cristalizada, e a mica, silicatos diversos dos mais variados metais, estruturam-se neste elemento.

 

(b) No original francês há uma repetição dos números nos itens 20 e 21.

 

(c) Kardec só não pôde falar dos “agentes estruturadores” provavelmente responsáveis pela elaboração desse processo evolutivo de transição porque só a partir de 1975, com os estudos nucleares de Murray Gell Mann surgiu a hipótese de suas existências. Dessa maneira, o que se pode admitir, dentro da nova concepção, é que os referidos “agentes” não seriam senão formas do domínio espiritual – ou Espiritualidade – atuando não apenas em nosso planeta como em todo o Universo, dando-lhe vida e constituição das formas. Daí, a causa das modificações sofridas pelo processo de transformação das espécies.

 

(d) Provavelmente, Kardec esteja se referindo a Jacques Boucher de Crèvecœur de Perthes (1788-1868), arqueólogo francês, grande pesquisador e autor da obra “O Homem Pré-histórico”.

 

* * *

 

CAPÍTULO VIII – TEORIAS DA TERRA

 

Teoria da projeção – Teoria da Condensação – Teoria da Incrustação

 

TEORIA DA PROJEÇÃO

 

1. – De todas as teorias tocantes à origem da Terra, aquela que teve mais crédito nestes últimos tempos é a de Buffon, (a) quer por causa da posição de seu autor no mundo do sábio, quer porque não se sabia por mais tempo nada a esta época.

 

Vendo todos os planetas se mover na mesma direção, do ocidente para o oriente e no mesmo plano, percorrendo órbitas cuja inclinação não excede 7 graus e meio, Buffon conclui desta uniformidade que elas haviam sido dadas se movimentarem pela mesma causa.

 

Conforme ele, o Sol sendo uma massa incandescente em fusão, ele supunha que um cometa tendo chocado obliquamente, rasante com sua superfície, destacou uma porção que, projetada no espaço pela violência do choque, dividiu-se em vários fragmentos. Estes fragmentos formaram os planetas que continuaram a se movimentar circularmente pela combinação da força centrípeta e da força centrífuga, no sentido imprimido pela direção do choque primitivo, a dizer, no plano da eclíptica.

 

Os planetas seriam assim partes da substância incandescente do Sol e, por consequência eles próprios teriam sido incandescentes em sua origem. Eles se puseram a resfriar-se e a se consolidar em tempo proporcional a seu volume, e, quando a temperatura o permitiu, a vida tomou nascimento em sua superfície.

 

Em seguida ao abaixamento gradual do calor central, a Terra chegaria, num tempo dado, a um estado completo de resfriamento; a massa líquida seria inteiramente congelada e o ar gradativamente condensado findaria por desaparecer. O abaixamento da temperatura, tornando a vida impossível causaria a diminuição, aliás, o desaparecimento de todos os seres organizados. O resfriamento que começou pelos polos ganharia sucessivamente todos os sítios até o equador.

 

Tal é, conforme Buffon, o estado atual da Lua que, menor do que a Terra, seria atualmente um mundo extinto, onde a vida está, daí para frete, excluída. O Sol, ele próprio, teria, um dia, a mesma sorte. Segundo seus cálculos, a Terra teria posto 74.000 anos aproximados para chegar à sua temperatura atual, e, em 93.000 anos veria o fim da existência da natureza organizada.

 

Até a presente data, nenhuma observação científica comprovou a tese de Buffon relativa à formação dos planetas. Já o próprio Kardec constata o fato, adiante.

 

2. – A teoria de Buffon, contraditada pelas novas descobertas da ciência, está, atualmente, quase completamente abandonada pelos motivos seguintes:

 

1° Por muito tempo acreditou-se que os cometas eram corpos sólidos onde o encontro com um planeta pudesse provocar a destruição deste. Nesta hipótese, a suposição de Buffon não teria nada de improvável. Mas, sabe-se atualmente que eles são formados de uma matéria gasosa condensada, assaz rarefeita conforme pudesse perceber as estrelas de menor grandeza através de seu núcleo. Nesse estado, oferecendo menos resistência que o Sol, um choque violento capaz de projetar ao longe uma porção de sua massa é uma coisa impossível.

 

2° A natureza incandescente do Sol é igualmente uma hipótese que nada, até o presente, vem confirmar e que parece, ao contrário, desmentir as observações. Bom que não esteja ainda completamente fixada a respeito da natureza, a eficácia dos meios de observação de que se dispõe atualmente tem permitido o meio de estudar. É atualmente em geral admitido pela Ciência que o Sol seja um globo composto de matéria sólida, envolta em uma atmosfera luminosa que não estaria em contato com sua superfície. (1)

 

3° No tempo de Buffon, só se conhecia apenas seis planetas sabidos desde os anciões: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno. Depois, descobriu-se um grande número de asteroides dos quais três deles, principalmente, Juno, Palas e Ceres têm suas órbitas respectivamente inclinadas de 13, 10 e 34 graus, o que não concorda com a hipótese de um movimento de projeção único.

 

4° Os cálculos de Buffon sobre o resfriamento são reconhecidamente tidos como inexatos após o descobrimento da lei do decréscimo do calor por J. Fourier. Não é 74.000 anos que foram necessários à Terra para chegar à sua temperatura atual, mas, milhões de anos.

 

5° Buffon só considerou o calor central do globo, sem dar conta dos raios solares; ora, ele é reconhecido atualmente, por dados científicos de uma rigorosa precisão fundamentados sobre experiências que em razão da espessura da crosta terrestre, o calor interno do globo só teria, após longo tempo, uma parte insignificante na temperatura da superfície exterior; as variações que esta atmosfera sofre são periódicas e devidas à ação preponderante do calor solar (cap. VII, n° 25). O efeito desta causa, sendo permanente, tanto que o efeito do calor central é nulo, ou quase, a diminuição dela não pode aportar à superfície da Terra modificações sensíveis. Para que a Terra se tornasse inabitável pelo resfriamento geral, seria preciso a extinção do Sol (2).

 

TEORIA DA CONDENSAÇÃO

 

3. – A Teoria da formação pela condensação da matéria cósmica é a que prevalece atualmente, na Ciência como sendo a que está melhor justificada pela observação, que resolve o maior número de dificuldades e que se apoia, mais do que todas as outras, sobre o grande princípio da unidade universal. É a que está descrita anteriormente, cap. VI, Uranografia Geral.

 

Estas duas teorias, como se vê, tendem ao mesmo resultado: o estado primitivo de incandescência do globo, a formação de uma crosta sólida pelo resfriamento, a existência de um fogo central e a aparição da vida orgânica desde que a temperatura tornasse possível. Elas diferem pelo modo de formação da Terra e é provável que, se Buffon tivesse vivido em nossos dias, ele teria tido outras ideais. São, pois, duas rotas diferentes conduzindo ao mesmo objetivo.

 

A Geologia toma a Terra ao ponto onde a observação direta é possível. Seu estado anterior escapando à experimentação, só pode ser conjectura; ora, entre duas hipóteses, o bom senso diz que é preciso procurar a que esteja sancionada pela lógica e que concorde ao máximo com os fatos observados.

 

TEORIA DA INCRUSTAÇÃO

 

4. – Não mencionamos esta teoria senão por memória, atentando que ela nada tem de científica, mas unicamente porque teve certa ressonância nestes últimos tempos e que seduziu algumas pessoas. Resume-se na carta seguinte:

 

“Deus, conforme a Bíblia, criara o mundo em seis dias, quatro mil anos antes da era cristã. Eis lá o que os geólogos contestam pelo estudo dos fósseis e os milhares de caracteres incontestáveis de vetustez que fazem remontar a origem da Terra a dez milhões de anos, e, portanto a Escritura disse a verdade e os geólogos também, e é um simples camponês (3) que os pôs de acordo em nos apresentando que nossa Terra é apenas um planeta incrustativo considerável moderno, composto de materiais deveras antigos.”

 

“Após o arrebatamento do planeta desconhecido, chegado à maturidade ou em harmonia com o que existia no lugar que ocupamos atualmente, a alma da Terra recebeu a ordem de reunir seus satélites para formar nosso globo atual conforme as regras do progresso em tudo e por tudo. Quatro destes astros somente consentiram na associação que lhe era proposto; a Lua apenas persistiu em sua autonomia, porque os globos têm também seu livre arbítrio. Para proceder a esta fusão, a alma da Terra dirigiu sobre os satélites um raio magnético atrativo tornou cataléptico todo seu mobiliário vegetal, animal e hominal que aportaram à comunidade. A operação só teve por testemunho a alma da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nesta grande obra, abrindo os globos para colocar suas entranhas em comum. A soldadura após operada, as águas se escoaram nos vazios deixados pela ausência da Lua. As atmosferas se confundiram, e a alvorada ou a ressurreição dos germens catalépticos começou; o homem foi tirado em último lugar de seu estado de hipnotismo, e se viu cercado da vegetação luxuriante do paraíso terreal e dos animais que pascentavam em paz em volta dele. Tudo isto podia se fazer em seis dias com operários também poderosos que os que Deus tinha encarregado desta tarefa. O continente Ásia nos trouxe a raça amarela, a mais civilizada anciã; a África, a raça negra; a Europa, a raça branca e a América, a raça vermelha. A Lua nos teve trazido provavelmente, a raça verde ou azul.

 

“Assim, certos animais, dos quais só se encontram vestígios, não teriam nunca vivido sobre nossa Terra atual, mas teriam sido trazidos de outros mundos deslocados pela velhice. Os fósseis se encontram nos climas onde eles não teriam podido existir aqui em baixo, viveram, sem dúvida nas zonas bem diferentes, sobre os globos onde nasceram. Tais vestígios se encontram nos polos entre nós que viviam no equador entre eles”.

 

5. – Esta teoria tem contra ela os dados, os mais positivos da ciência experimental, outra, que ela deixe toda inteira a questão da origem que pretende resolver. Ela diz bem como a Terra seria formada, porém não diz como seriam formados os quatro mundos reunidos para constituí-la.

 

Se as coisas se estivessem passado assim, como se faria se não se encontra em nenhuma parte os traços destas imensas soldaduras, indo desde as entranhas do globo? Cada um desses mundos trazendo seus materiais próprios, a Ásia, a África, a Europa, a América tendo cada uma sua geologia particular diferente, o que não acontece. Vê-se ao contrário, a princípio o núcleo granítico uniforme de uma composição homogênea em todas as partes do globo, sem solução de continuidade. Pois, as camadas geológicas de mesma formação, idênticas na sua constituição, por toda parte superpostas na mesma ordem, constituindo-se sem interrupção de um lado a outro dos mares, da Europa à Ásia, à África, à América e reciprocamente. Estas camadas, testemunhas das transformações do globo, atestam que estas transformações estão executadas sobre toda sua superfície, e não sobre uma parte; elas nos mostram os períodos de aparição, de existência e de desaparecimento das mesmas espécies animais e vegetais igualmente nas diferentes partes do mundo; a fauna e a flora destes períodos recuados que andam por toda parte simultaneamente sob a influência de uma temperatura uniforme, trocando por toda parte simultaneamente sob a influência de uma temperatura uniforme, trocando por toda parte de caráter à medida que a temperatura se modifica. Um tal estado de coisas é inconciliável com a formação da Terra pela adjunção de vários continentes distintos.

 

Se este sistema foi concebido há um século somente, ele teria podido conquistar um lugar provisório nas cosmogonias especulativas puramente imaginárias, e fundamentados sem o método experimental; mas, atualmente, não há nenhuma vitalidade e não suporta sequer o exame, porque é contraditado pelos feitos materiais.

 

Sem discutir aqui o livre arbítrio atribuído aos planetas, nem a questão de sua alma, pede-se que seria tornado do mar, que ocupa o vazio deixado pela Lua, se esta não tivesse posto de má vontade a se reunir com suas irmãs; o que se adviria da Terra atual se um dia se tomasse a fantasia de a Lua vir retomar seu lugar e em expulsar o mar!

 

6. – Este sistema seduziu algumas pessoas, porque ele parecia explicar a presença das diferentes raças de homens sobre a Terra, e sua localização; mas, desde que estas raças puderam germinar sobre os continentes separados, por que não teriam eles podido fazer sobre pontos diversos do mesmo globo? É querer resolver uma dificuldade por uma dificuldade bem maior. De fato, com certa rapidez e alguma destreza que se seja feita a operação, esta adjunção não se poderia fazer sem abalos violentos; quanto mais tenha sido ela rápida, mais os cataclismos devam ter sido desastrosos; mostra-se pois, impossível que seres simplesmente adormecidos do sono cataléptico aí tenham podido resistir, para se revelar em seguida tranquilamente. Se não eram senão germens, em que se consistiam eles? Como seres totalmente formados teriam sido reduzidos ao estado de germens? Restaria sempre a questão de saber como estes germens se desenvolveram novamente. Seria ainda a Terra formada por via miraculosa, mas, por um outro procedimento menos poético e menos grandioso que o primeiro; ao passo que as leis naturais dão, pela sua formação, uma explicação bem de outra forma completa e, sobretudo, mais racional deduzida da experiência e da observação (4).

 

NOTAS

 

(1) Irá encontrar uma dissertação completa e ao nível da Ciência moderna a respeito da natureza do Sol e dos cometas nos Estudos e leitura sobre a Astronomia, por Camilo Flammarion. 1 vol. In-12. Impressor: Casa Gauthier-Villard, 55,  estação dos Augustinhos.

 

(2) Ver para mais pormenores desta causa e sobre a lei do decréscimo do calor: Cartas sobre a revolução do globo, por Bertrand, págs 19 e 307.

 

(3) O Sr. Michel, de Figagnieres (Varone), autor da “Chave da vida”.

 

(4) Quando um sistema semelhante se liga a toda uma cosmogonia, pergunta-se sobre qual base racional pode repousar o resto.

 

A concordância que se pretende estabelecer, por este sistema, entre a Gênese bíblica e a Ciência, é de uma feita ilusória, desde que seja contradita pela Ciência, mesmo. Por outro lado, todas as crenças derivadas do texto bíblico têm por pedra angular a criação de uma dupla única de onde saíram todos os homens. Tirada essa pedra e tudo o que é armado em cima se desmorona. Ora, este sistema, dando à humanidade uma origem múltipla, é a negação da doutrina que lhe dota de um pai comum.

 

O autor da carta acima, homem de grande saber, por momentos seduzido por esta teoria, viu desde cedo os lados vulneráveis, e não tardou a combatê-la com as armas da Ciência.

 

NOTA DO TRADUTOR

 

(a) Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon (1749-89), naturalista francês de Montbard é considerado como um dos três sábios da sua época que pressentiu, sobre vários pontos importantes, as descobertas contemporâneas. Todavia, muita coisa há discordante e uma delas é a formação dos planetas a partir do desprendimento de uma bola de fogo da estrela central do seu sistema. Depois as descobertas do observatório Keck II, no Haway, a teoria é a de que a quinta força do Universo seria a responsável pela formação desses astros, atuando sobre a poeira cósmica e reunindo-as. Tal ação provoca sua incandescência, sendo porém, um astro de pequeno porte, esfria-se rápido, em contraposição com as estrelas que se formam, geralmente, da explosão de um buraco negro.

 

(b) O que ocorre é que os cientistas teimam em não levar em conta a ação espiritual sobre a formação dos seres vivos; só assim é que se explica porque existem raças distintas, ou seja, pela necessidade de se adaptar a vida humana à região em questão e os Espíritos, ao formarem seus corpos, cuidaram exatamente disso.

 

Pode ser que, com a descoberta da quinta força do Universo, atentem ao fato de que existe um outro domínio externo ao Universo atuando sobre ele para dar-lhe formas e vida.

 

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