09 – Capítulo IX – Revoluções do Globo

CAPÍTULO IX – REVOLUÇÕES DO GLOBO

 

Revoluções gerais ou parciais – Dilúvio bíblico. Revoluções periódicas

– Cataclismos futuros

 

REVOLUÇÕES GERAIS OU PARCIAIS

 

1. – Os períodos geológicos marcam as fases do aspecto geral do globo, pela sequência de suas transformações; mas se tem como exceção o período diluviano, que porta os caracteres de uma desordem súbita; todas as demais se completaram lentamente e sem transição brusca. Durante todo o tempo em que os elementos constituintes do globo se puseram a tomar seus assentos, as trocas se dizem ser gerais; uma vez consolidada a base, só se produziram modificações parciais na superfície.

 

2. – Além das revoluções gerais, a Terra experimentou um grande número de perturbações locais que mudaram o aspecto de certas regiões. Como por outras, duas causas para isso contribuíram: o fogo e a água.

 

O fogo: quer pelas erupções vulcânicas que enterraram sob espessas camadas de cinza e de lavas os terrenos circundantes, fazendo desaparecer as cidades e seus habitantes; quer por tremores de terra, quer por soerguimento da crosta sólida, refugando as águas sobre as regiões mais baixas; quer pelo abatimento desta mesma crosta em certos sítios, sobre uma extensão mais ou menos dimensionada, onde as águas se precipitaram, deixando outros terrenos à descoberta. Foi assim que as ilhas surgiram no seio do oceano enquanto que outras desapareceram; que porções de continentes se separaram e formaram ilhas, que braços de mar posto a seco reuniram ilhas aos continentes.

 

A água: quer pela irrupção ou o retraimento do mar sobre certas costas; quer por derrocada que, retendo os cursos d’água, formaram os lagos; quer por transbordamentos e as inundações; quer, enfim, por aterramentos formados nas embocaduras dos rios. Estes aterros refugando o mar, criaram novos campos; tal é a origem do delta do Nilo ou Baixo Egito, do delta do Ródano ou Camargo e de tantos outros.

 

DILÚVIO BÍBLICO

 

3. – Pela inspeção dos terrenos dilacerados pelo soerguimento das montanhas e das camadas é que, formando os contrafortes, pode-se determinar sua idade geológica. Por idade geológica das montanhas não é necessário entender o número de anos de sua existência, mas o período durante o qual elas foram formadas e, por conseguinte sua ancianidade relativa. Seria um erro crer que esta ancianidade estaria em razão de sua elevação ou de sua natureza exclusivamente granítica, entendendo que a massa de granito, em se erguendo, pode ter perfurado e separado as camadas superpostas.

 

Constatou-se, assim, pela observação, que as montanhas dos Vosgas, da Bretanha e da Costa do Ouro, na França, que não são muito elevadas, pertenceram às mais antigas formações; elas datam do período de transição e são anteriores aos depósitos hulhíferos. O Jurássico formou-se por volta do período secundário; é contemporâneo dos répteis gigantescos. Os Pirineus formaram-se mais tarde, ao começo do período terciário. O Monte Blanco e o grupo dos Alpes ocidentais são posteriores aos Pirineus e datam por volta do período terciário. Os Alpes orientais, que compreendem as montanhas do Tirol, são mais recentes ainda, porque só se formaram por volta do fim do período terciário. Algumas montanhas da Ásia são até posteriores ao período diluviano ou lhe são contemporâneos.

 

Estes soerguimentos têm dado ocasionar grandes perturbações locais e inundações mais ou menos consideráveis pelo deslocamento das águas, a interrupção e mudança de curso de rios (1).

 

4. – O dilúvio bíblico, designado também sob o nome de grande dilúvio asiático, é um fato cuja existência não pode ser contestada. Deve ter sido ocasionado pelo soerguimento de uma parte de montanhas deste continente, como o do México. O que vem em apoio desta opinião é a existência de um mar interior que se estendia outrora do mar Negro ao oceano boreal (Ártico), atestado pelas observações geológicas. O mar de Azoff, o mar Cáspio, no qual as águas são salinas, embora não se comunicando com nenhum outro mar; o lago Aral e os inúmeros lagos conhecidos nas imensas planícies da Tartária e as estepes da Rússia parecem ser restos deste antigo mar. Desde o levantamento das montanhas do Cáucaso, uma parte destas águas foi comprimida ao norte sobre o oceano Boreal; a outra, do meio, sobre o oceano Índico. Estas aqui inundaram e assolaram precisamente a Mesopotâmia e toda a região habitada pelos ancestrais do povo hebreu. Embora este dilúvio se fizesse estender sobre uma assaz enorme superfície, um ponto avaliado atualmente é que teria sido local; que não pôde ser causado pela chuva, porque, bastante abundante e contínua que fosse durante quarenta dias, o cálculo prova que a quantidade de água tombada não poderia ser assaz grande para cobrir toda a Terra até por sobre as mais altas montanhas.

 

Para os homens da época, que só conheciam uma extensão deveras limitada da superfície do globo e que não tinham nenhuma ideia de sua configuração, desde o instante que a inundação tinha invadido os países conhecidos, para eles isto devia ser toda a Terra. Se a esta crença juntarmos a forma imaginosa e hiperbólica ao estilo oriental, não será surpresa o exagero da narração bíblica.

 

5. – O dilúvio asiático é evidentemente posterior à aparição do homem sobre a Terra, já que a memória se conservou pela tradição entre todos os povos desta parte do mundo, que se consagraram em suas teogonias.

 

É igualmente posterior ao grande dilúvio universal que marcou o período geológico atual; e quando se fala de homens e de animais antediluvianos, a isso se entende deste primeiro cataclismo.

 

REVOLUÇÕES PERIÓDICAS

 

6. – Mais além do seu movimento anual em torno do Sol, que produz as estações, seu movimento de rotação sobre ela mesma em 24 horas, que produz o dia e a noite, a Terra possui um terceiro movimento que se complementa em torno de 22 mil anos (mais exatamente 25.868 anos) que produz o fenômeno designado em astronomia sob o nome de precisão dos equinócios.

 

Este movimento que seria impossível de explicar em poucas palavras, sem configurações e sem uma demonstração geométrica, consiste em uma sorte de balanceio circular que se comparou ao do pião agonizante, por sequência do qual o eixo da Terra, mudando de inclinação, descreve um duplo cone onde o fulcro está no centro da Terra e as bases compreendem a superfície circular circunscrita pelos círculos polares; ou seja, uma amplitude de 23 graus e meio de raio. (2)

 

7. – O equinócio é o instante onde o Sol, passando de um hemisfério para o outro, se encontra perpendicularmente sobre o equador, o que acontece duas vezes por ano, a 20 de março quando o Sol penetra no hemisfério boreal e 22 de setembro quando retorna para o hemisfério austral.

 

Mas, como consequência da troca gradual na obliquidade do eixo, o que causa um na obliquidade do equador sobre a eclíptica, o instante do equinócio se encontra cada ano adiantado de alguns minutos (25 min 7 seg). É este avanço que é chamado de precessão dos equinócios (do latim prœcedere, marchar adiante, composto de prœ – adiante e cedere – ir-se).

 

Estes alguns minutos, ao longo do tempo, formam horas, dias, meses e anos; resulta que o equinócio da primavera, que chega atualmente em março, chegará, em um tempo dado, em fevereiro, depois em janeiro, depois em dezembro e então o mês de dezembro terá a temperatura do mês de março, e março o de junho e assim sucessivamente até que, em retornando ao mês de março, as coisas se encontrarão no estado atual, o que terá lugar em 25.868 anos, para recomeçar a mesma revolução indefinidamente (3).

 

8. – Resulta deste movimento cônico do eixo que os polos da Terra não guardam constantemente os mesmos pontos do céu; que a estrela Polar não estará sempre como estrela Polar; que os polos estarão gradualmente mais ou menos inclinados sobre o Sol e em recebendo raios mais ou menos diretos; de onde, segue que a Islândia e a Lapônia, por exemplo, que estão sob o círculo polar, poderão, dentro de um determinado tempo, receber os raios solares como se eles estivessem na latitude da Espanha e da Itália, e que, na posição oposta extrema, a Espanha e a Itália poderão ter a temperatura da Islândia e da Lapônia e assim, por sequência para cada renovação do período de 25 mil anos.

 

9. – A consequência deste movimento não pode ainda ser determinada com precisão, porque não se pôde observar sequer uma tênue parte de sua revolução; não há, pois com referência a isto que tal pressuposição qualquer delas, tenha uma certa probabilidade.

 

Estas consequências são:

 

1° O aquecimento e o esfriamento alternado dos polos e, por conseguinte, a fusão dos gelos polares durante a metade do período de 25 mil anos, e sua formação novamente durante a outra metade deste período. De onde resultará que os polos jamais seriam voltados a uma esterilidade perpétua, mas gozariam a seu turno a favor da fertilidade.

 

2° O deslocamento parcial do mar que invadia pouco a pouco as terras, ao passo que ele descobre outras, para abandoná-las novamente e reentrar em seu antigo leito. Este movimento periódico renovado indefinidamente constituiria uma verdadeira maré universal de 25 mil anos.

A lentidão com a qual se opera este movimento do mar lhe torna quase imperceptível em relação a cada geração; mas, é sensível ao fim de alguns séculos. Não pode causar nenhum cataclismo súbito, já que os homens se retiram, de geração em geração, à medida que o mar avança, e eles avançam sobre as terras de onde o mar se retira. É, por este motivo, mais que provável que alguns sábios atribuam a retirada do mar sobre certas costas e sua invasão sobre outras.

 

10. – O deslocamento lento, gradual e periódico do mar é um fato adquirido pela experiência, e atestado por numerosos exemplos sobre todos os pontos do globo. Tem por consequência a conservação das forças produtivas da Terra. Esta longa imersão é um tempo de repouso durante o qual as terras submersas recuperam os princípios vitais consumidos por uma produção não menos longa. Os imensos depósitos de matéria orgânica formados pela demora das águas durante séculos de séculos, são adubos naturais periodicamente renovados, e as gerações se sucedem sem se aperceber desta troca (4)..

 

CATACLISMOS FUTUROS

 

11. – As grandes comoções da Terra tiveram lugar na época em que a crosta sólida, por sua parca espessura, só ofereceu uma tênue resistência à efervescência das matérias incandescentes do interior; tem-nas visto diminuir de intensidade e de generalidade à medida que a crosta se torna consolidada. Numerosos vulcões estão atualmente extintos, outros estão recobertos pelos terrenos de formação posterior.

 

Poderão certamente ainda se produzir perturbações locais, por sequência de erupções vulcânicas, de abertura de alguns novos vulcões, de inundações súbitas de certas regiões; algumas ilhas poderão surgir do mar e outras submergirem; mas o tempo dos cataclismos gerais como os que marcaram os grandes períodos geológicos, passou. A Terra assumiu uma estabilidade que, sem ser absolutamente invariável, põe de hoje em diante o gênero humano ao abrigo das perturbações gerais, salvo de causas desconhecidas estranhas ao nosso globo e que nada saberia fazer prevenir.

 

12. – Quanto aos cometas, está-se no momento atual plenamente conhecido a respeito da sua influência, mais salutar que nociva, onde eles parecem destinados a revitalizar, si se pode assim exprimir, os mundos em lhe reportando os princípios vitais que eles têm colhido durante seus cursos através do espaço e nas vizinhanças dos Sois. Serão, assim, fontes de prosperidade em vez de mensageiros do mal.

 

Por sua natureza fluídica, atualmente bem constatada (capítulo VI n° 28 e seguintes), um choque violento não é crível: porque, no caso onde um deles encontrasse a Terra, seria esta última que passaria através do cometa, como através de uma neblina.

 

Sua cauda não é mais temível; já que é apenas a reflexão da luz solar na imensa atmosfera que se os envolve, motivo pelo qual ela está sempre voltada para o lado oposto do Sol e muda de direção seguindo a posição deste astro. Esta matéria gasosa poderia, como também, por motivo da rapidez de sua marcha, formar uma sorte de cabeleira como a esteira deixada pelo navio, ou a fumaça de uma locomotiva. De resto, vários cometas já se aproximaram da Terra sem lhe causar nenhum prejuízo; e em razão da sua densidade respectiva, a Terra exerceria sobre o cometa uma atração maior do que a do cometa sobre a Terra. Um resto de velhos prejulgamentos pode somente inspirar crendices sobre sua presença (5).

 

13. – É preciso igualmente relegar entre as hipóteses quiméricas a possibilidade da colisão da Terra com um outro planeta; a regularidade e invariabilidade das leis que presidem os movimentos dos corpos celestes tiram deste encontro toda probabilidade.

 

A Terra, entretanto, terá um fim; como? É o que se torna impossível de se prever; mas, como está ela ainda longe da perfeição que pode atingir, e da vetustez que seria um signo de declínio, seus habitantes atuais estão seguros de que não será para seu tempo (Cap. VII, n° 48 e seguintes).

 

14. – Fisicamente, a Terra teve as convulsões de sua infância; entrou desde então em um período de estabilidade relativa: naquele do progresso passivo que se completa pelo retorno regular dos mesmos fenômenos físicos, e o concurso inteligente do homem. Mas ela está ainda na plenitude do trabalho de produção do progresso moral. Lá, será a causa de suas maiores comoções. Até que a humanidade tenha suficientemente grandeza em perfeição por inteligência e a ponha em prática nas leis divinas, as maiores perturbações serão feitos dos homens mais do que a natureza; isto é, serão mais morais e sociais que física.

 

OBS. Aqui termina o texto de Kardec. Edições há que acrescentaram ao capítulo certa mensagem de Galileu que não consta do original deste capítulo.

 

NOTAS

 

(1) O último século oferece um exemplo remarcável de um fenômeno deste gênero. A seis jornadas de marcha da cidade do México encontrava-se, em 1750, um campo fértil e bem cultivado, onde cresciam em abundância o arroz, o milho e as bananas. No mês de junho, assustadores tremores de terra agitaram o solo e estes tremores se repetiam sem cessar durante dois meses inteiros. Na noite de 28 para 29 de setembro, a terra teve uma violenta convulsão; um terreno de várias léguas de extensão se elevara pouco a pouco e terminou por atingir uma altura de 500 pés, sobre uma superfície de 10 léguas quadradas. O terreno ondulava como as vagas do mar sob o sopro da tempestade; milhares de montículos se elevavam e se abismavam a seu turno; enfim, um abismo de aproximadamente 3 léguas abriu-se; fumaça, fogo, pedras abrasadas, cinzas, foram lançadas a uma altura prodigiosa. Seis montanhas surgiram deste abismo escancarado, dentre os quais o vulcão ao qual se deu o nome de Jorullo eleva-se atualmente a 550 metros acima da antiga planície. No momento em que começa o abalo do solo, os dois rios Cuitimba e São Pedro, refluindo para montante, inundaram toda a planície ocupada até então pelo Jorullo; mas, no terreno que surgia sempre, uma rachadura se abriu e os devorou. Elas ressurgiram a oeste, sobre um ponto muito distante de seu antigo leito. (Louis Figuier, La Terre avant le déluge, pág. 379).

 

(2) Uma ampulheta composta de dois copos cônicos, que gira sobre si mesma numa posição inclinada; ou ainda dois bastões cruzados em forma de X girando sobre seu ponto de intersecção, podem dar uma ideia aproximada da figura formada por este movimento do eixo.

 

(3) A precessão dos equinócios causa uma outra troca, a que se opera na posição dos signos do zodíaco.

 

A Terra girando em torno do Sol em um ano, à medida que ela avança, o Sol se encontra cada mês diante de uma nova constelação. Estas constelações são em número de doze, a saber: Aires, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão, Virgem, Balança, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. São chamadas de constelações zodiacais ou signos do zodíaco e formam um círculo no plano do equador terrestre. Conforme o mês de nascimento do indivíduo, diz-se que ele seria nascido sob tal signo, daí, os prognósticos da astrologia. Mas, pela sequência da precessão dos equinócios, chega-se que os meses não correspondem mais às mesmas constelações que havia a 2000 anos; o que nasce no mês de julho, não é mais do signo de Leão, mas, do de Câncer. Assim tomba a ideia supersticiosa correlata com a influência dos signos. (Cap. V, n° 12)

 

(4) Entre os fatos, os mais recentes que provam o deslocamento do mar, pode-se citar os seguintes:

 

No golfo de Gasconha, entre o velho Soulac e a torre de Corduan, quando o mar está calmo, descobre-se ao fundo da água panos de muralha; são os restos de antiga e grande cidade de Noviomagus, invadida pelas vagas em 580. O penedo de Corduan, que era então ligado à margem e está agora a 12 quilômetros.

 

No mar da Mancha, na Costa do Havre, o mar ganha cada dia, terreno e mina as faleses de Santa Andressa que se desmoronam pouco a pouco. A 2 km da costa, entre santa Andressa e o cabo da Heveia existe o banco do Esplendor, outrora a descoberto e reunido à terra firme. De velhos documentos constavam que sobre este local, onde se navega atualmente, existia a vila de São Denis chefe de Caux. O mar indo invadir o terreno ao XIV século, a igreja foi encoberta em 1378. Pretende-se que se lhe veja os restos no fundo da água nas calmarias.

 

Sobre quase toda extensão do litoral da Holanda, o mar só é retido pela força de diques que se rompem de tempos em tempos. O antigo lago Flevo, reunido ao mar em 1225, forma atualmente o golfo da Zuyderzée. Esta erupção do oceano engoliu várias aldeias.

 

Depois disto, o território de Paris e da França será um dia de novo, ocupado pelo mar, como já tem sido por diversas vezes, tal como o provam as observações geológicas. As partes montanhosas formarão então ilhas como o são atualmente Jersey, Guernesey, a Inglaterra, em tempos idos contíguas ao continente.

 

Navegar-se-á sobre os campos que se percorre atualmente em ferrovias; os navios aportarão em Montmartre, no monte Valério, nas costas de Saint Cloud e de Meudon; os bosques e as florestas onde se passeia serão sepultados sob as águas, recobertos de limo e povoados de peixes em lugar dos pássaros.

 

O dilúvio bíblico não pode ter tido esta causa, já que a invasão das águas foi súbita e sua permanência de curta duração, enquanto que de outra forma ela teria sido de vários milhares de anos e perduraria ainda, sem que os homens se dessem por apercebidos

 

 

(5) O cometa de 1861 cruzou a rota da Terra a vinte horas de distância à frente dela, que deveu se encontrar mergulhada em sua atmosfera, sem que disso resultasse nenhum acidente.

 

* * *

 

CAPÍTULO X – GÊNESE ORGÂNICA

 

Primeira formação dos seres vivos – Princípio Vital – Geração espontânea

– Escala dos seres corpóreos – O homem

 

PRIMEIRA FORMAÇÃO DOS SERES VIVOS

 

1. – Foi num tempo em que os animais não existiam, em que eles começaram. Tem-se visto aparecer cada espécie na medida em que o globo adquiria as condições necessárias para sua existência: eis o que é positivo. Como se formaram os primeiros indivíduos de cada espécie? Compreende-se que um primeiro par sendo dado, os indivíduos sejam multiplicados; mas este primeiro par, de onde surgiu? É aí um destes mistérios que se tem do princípio das coisas e sobre os quais só se podem fazer hipóteses. Se a Ciência não pode ainda resolver completamente o problema, pode, pelo menos colocar sob a vista.

 

2. – Uma primeira questão que se apresenta é esta aqui: cada espécie animal seria ela saída de um primitivo par ou de vários pares criados, ou como se queira, germinados simultaneamente em diferentes lugares?

 

Esta última suposição é a mais provável; pode-se, mesmo, dizer que ela resulta da observação. Com efeito, existe em uma mesma espécie uma infinita variedade de gêneros que se distinguem pelos caracteres mais ou menos resolvidos. Seria preciso, necessariamente, ao menos um tipo para cada variedade apropriada ao meio onde fosse chamada a viver, já que cada uma se reproduz identicamente da mesma forma.

 

Por outro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo a de um indivíduo nascido, está sujeita a tantas eventualidades, que toda uma criação poderia estar comprometida sem a pluralidade dos tipos primitivos, o que não teria sido conforme a providência divina. Alhures, se um tipo pudesse se formar sobre um ponto, não haveria razão para que não se formasse em vários outros pontos pela mesma causa.

 

Enfim, a observação das camadas geológicas atesta a presença, nos terrenos de mesma formação, e aí em proporções enormes, a mesma espécie sobre os pontos distantes do globo. Esta multiplicação, se geral e, de alguma forma, contemporânea, teria sido impossível a partir de um só tipo primitivo único.

 

Tudo concorre, pois para provar que teve criação simultânea e múltipla das primeiras duplas de cada espécie animal e vegetal.

 

3. – A formação dos primeiros seres vivos pode-se deduzir por analogia, da mesma lei de após a qual se formaram, e se formam diariamente, os corpos inorgânicos. À medida que se aprofunda nas leis da natureza, veem-se as organizações, que ao primeiro encontro, parecem tão complicadas, simplifica-se e se confunde na grande lei de unidade que preside toda obra da criação. Compreender-se-á melhor quando se der conta da formação dos corpos inorgânicos, do qual é o primeiro grau.

 

4. – A química considera como elementares um certo número de substâncias tais como: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono, o cloro, o iodo, o flúor, o súlfur, o fósforo e todos os metais. Por suas combinações, eles formam os corpos compostos: os óxidos, os ácidos, os álcalis, os sais e as inumeráveis variedades que resultam da combinação dos mesmos. (b)

 

A combinação de dois corpos para formar um terceiro exige um concurso particular de circunstâncias: seja um grau determinado de calor, de secura ou de umidade, seja o movimento ou o repouso, seja uma corrente elétrica, etc. Se estas condições não existirem, a combinação não terá lugar.

 

5. – Quando há combinação, os corpos componentes perdem suas propriedades características, enquanto que o composto que disso resulta possui-as novas, diferentes daquelas das primeiras. É assim, por exemplo, que o hidrogênio e o oxigênio, que são gases invisíveis, combinando-se quimicamente, formam a água que é líquida, sólida ou vaporífica, conforme a temperatura. Na água nada mais há propriamente que falar do hidrogênio e do oxigênio, mas de um novo corpo; esta água, estando decomposta, os dois gases, tornam-se livres, readquirindo suas propriedades e não haverá mais água. A mesma quantidade de água pode ser assim alternativamente decomposta e recomposta ao infinito.

 

Na simples mistura não há produção de um novo corpo, e os princípios misturados conservam suas propriedades intrínsecas que são simplesmente minoradas, como o é o vinho misturado á água. É assim que uma mistura de 21 partes de oxigênio e de 79 partes de azoto formam o ar respirável, da mesma forma que 5 partes de oxigênio sobre 2 de azoto produz o ácido nítrico.

 

6. – A composição e a decomposição dos corpos têm lugar pela sequência do grau de afinidade que os princípios elementares têm uns pelos outros. A formação da água, por exemplo, resulta da afinidade recíproca do oxigênio e do hidrogênio; mas, se, colocando-se em contato com a água um corpo tendo pelo oxigênio maior afinidade que a do hidrogênio, a água se decompõe. O oxigênio é absorvido, liberando o hidrogênio e não há mais água.

 

7. – Os corpos compostos se formam sempre em proporções definidas, ou seja, pela combinação de uma quantidade determinada dos princípios constituintes. Assim, para formar a água é preciso uma parte de oxigênio e duas de hidrogênio. Então, mesmo que se pusesse, nas mesmas condições, uma proporção maior de um ou do outro dos dois gases, ele aí teria sempre a mesma quantidade necessária absorvida e ao sobrar ficaria livre. Se, em outras condições, houver duas partes de hidrogênio combinadas com duas de hidrogênio, em lugar da água comum obter-se-ia o dióxido de hidrogênio (água oxigenada), líquido corrosivo, formado de acordo com os mesmos elementos da água, mas em uma outra proporção. (c)

 

8. – Tal é, em poucas palavras, a lei que preside a formação de todos os corpos da natureza. A inumerável variedade destes corpos resulta de um reduzido número de princípios elementares combinados em proporções diferentes.

 

Assim, o oxigênio combinado em certas proporções com o carbono, o súlfur, o fósforo, forma os ácidos carbônico, sulfúrico, fosfórico; o oxigênio e o ferro formam o óxido de ferro ou ferrugem; o oxigênio e o chumbo, ambos inofensivos, dão lugar aos óxidos de chumbo, tais como o litargo, o branco de cerusa (alvaiade), o mínio (zarcão), que são venenosos. O oxigênio, com os metais chamados cálcio, sódio, potássio, forma a cal, a soda cáustica, a potassa. A cal unida ao ácido carbônico forma os carbonatos de cálcio ou pedras calcárias, tais como o mármore, o giz, a pedra de batimento (portuguesa branca), as estalactites das grutas, unida ao ácido sulfúrico, forma o sulfato de cálcio, ou gesso, e o alabastro; ao ácido fosfórico o fosfato de cálcio, base sólida dos ossos; o hidrogênio e o cloro formam o ácido clorídrico (suco gástrico) ou hidroclorídrico; o cloro e o sódio formam o hidroclorato de sódio (cloreto de sódio ou sal de cozinha), ou sal marinho.

 

9. – Todas estas combinações e milhares de outras obtêm-se artificialmente em pequenas proporções  nos laboratórios de química; eles operam-se espontaneamente em grande escala no imenso laboratório da natureza.

 

A Terra, em seu princípio, não continha estas matérias combinadas, mas apenas seus princípios constituintes volatilizados. Tão logo as terras calcárias e outras, tornaram-se ao longo pedregosas, foram depositadas em sua superfície, elas não existiam absolutamente todas formadas; mas no ar encontravam-se, no estado gasoso, todas as substâncias primitivas; estas substâncias, precipitadas pelo efeito do resfriamento, sob o domínio das circunstâncias favoráveis, combinaram-se segundo o grau de sua afinidade molecular; foi então que se formaram as diferentes variedades de carbonatos, de sulfatos, etc., a princípio, em dissolução nas águas, depois, depositadas na superfície do solo.

 

Suponhamos que, por uma causa qualquer, a Terra volte ao seu estado de incandescência primitiva; tudo isso se decomporia; os elementos se separariam; todas as substâncias fusíveis se fundiriam; todas estas que são voláteis se volatilizariam. Depois, um segundo resfriamento conduziria a uma nova precipitação e as antigas combinações se formariam novamente.

 

10. – Estas considerações provam o quanto a Química era necessária para a compreensão da Gênese. Antes do conhecimento das leis da afinidade molecular, era impossível compreender a formação da Terra. Esta ciência aclarou a questão de uma forma toda nova, como a Astronomia e a Geologia fizeram a outros pontos de vista.

 

11. – Na formação dos corpos sólidos, um dos fenômenos dos mais remarcáveis é o da cristalização que consiste na forma regular que afetam certas substâncias então de sua passagem da fase líquida ou gasosa (fluida) para a fase sólida. Esta forma, que varia conforme a natureza da substância, é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o romboide, o cubo, a pirâmide (e). Todos conhecem os cristais de açúcar cândi; os cristais de rocha, ou silício cristalizado que são prismas com seis faces terminadas por uma pirâmide igualmente hexagonal. O diamante é carbono puro, cristalizado. Os desenhos que se produzem sobre os vidros no inverno são devidos à cristalização do vapor de água sob forma de agulhas prismáticas.

 

A disposição regular dos cristais tem a forma particular das moléculas de cada corpo; estes fragmentos, infinitamente pequenos para nós, não deixando de ocupar um certo espaço, solicitados uns sobre os outros, pela atração molecular, se arranjam e se justapõem conforme a exigência de sua forma, de maneira que tome, cada um, seu lugar em torno do núcleo ou primeiro centro de atração e de formar um conjunto simétrico.

 

A cristalização só se opera sob o jugo de certas circunstâncias favoráveis fora das quais não pode ter lugar; o grau da temperatura e o repouso são as condições essenciais. Compreende-se que um forte calor, mantendo as moléculas afastadas, não as permitiria condensar-se e que a agitação se opondo a seu arranjo simétrico, elas, apenas, formarão uma confusa e irregular massa e, portanto, sem cristalização propriamente dita.

 

12. – A lei que preside a formação dos minerais conduz naturalmente à formação dos corpos orgânicos.

 

A análise química nos mostra todas as substâncias animais e vegetais compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos. Aqueles destes elementos que ocupam o principal papel são: o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono; os outros só se encontram acessoriamente. Como no reino mineral, a diferença de proporção na combinação destes elementos produz todas as variedade de substâncias orgânicas e suas propriedades diversas tais como: os músculos, os ossos, o sangue, a bile, os nervos, a matéria cerebral, a gordura, entre os animais; a seiva, o tronco, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resinas, etc., nos vegetais. Assim, na formação dos animais e das plantas não entra nenhum corpo essencial que não se encontre igualmente no reino mineral. (1).

 

13. – Alguns exemplos usuais farão compreender as transformações que se operam no reino orgânico, pela simples modificação dos elementos constituintes.

 

No sumo da uva não há ainda nem o vinho nem o álcool, mas simplesmente, água e açúcar. Quando este sumo chega à maturidade e que se encontre posto em circunstâncias propícias, aí, produz-se um trabalho íntimo ao qual se dá o nome de fermentação. Neste trabalho, uma parte do sumo se decompõe; o oxigênio, o hidrogênio e o carbono se separam e se combinam nas proporções de volume para fazer o álcool; de sorte que em bebendo a essência de uva, nunca se bebe realmente álcool, já que não o existe ainda.

 

No pão e os legumes que se comem, não há certamente nem carne nem sangue, nem osso, nem bile, nem matéria cerebral e, conforme estes mesmos alimentos vão em se decompondo e se recompondo pelo trabalho da digestão, produz estas diferentes substâncias pela simples transmutação de seus elementos constituintes.

 

Na semente de uma árvore, não há nada mais nem tronco, nem folhas, nem flores, nem frutas, e é um erro pueril de se crer que a árvore inteira, sob forma microscópica, se encontra na semente; nem sequer, num relance, nesta semente, a quantidade de oxigênio, de hidrogênio e de carbono necessária para formar uma folha da árvore. A semente contém um germe que eclode quando ela se acha em condições favoráveis; este germe cresce pelos sucos que tira na terra e o gás que aspira do ar; estes sucos que não são nem tronco, nem folhas, nem frutas, infiltram-se na planta e formam a seiva, como os alimentos, entre os animais, formam o sangue. Esta seiva, levada pela circulação em todas as partes do vegetal, conforme os órgãos aonde chegam e onde ela sofre uma elaboração, transforma-se em troncos, folhas, frutos, como o sangue se transforma em cabelo, osso, bile, etc., e, entretanto são sempre os mesmos elementos; oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, diversamente combinados.

 

14. – As diferentes combinações dos elementos para a formação das substâncias minerais, vegetais e animais, só podem, pois, se operar nos meios e nas circunstâncias propícias; fora destas circunstâncias, os princípios elementares estão em uma forma de inércia. Mas, desde que as circunstâncias sejam favoráveis, começa um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento, elas se agitam, atraem-se, repelem-se, separam-se em virtude da lei das afinidades, e, por suas combinações múltiplas, compõem a infinita variedade das substâncias. Que estas condições cessem e o trabalho será subitamente detido, para recomeçar quando elas se apresentarem novamente. É assim que a vegetação se ativa, ralenta-se, cessa e retoma sob ação do calor, da luz, da umidade, do frio ou da seca; que tal planta prospere num clima ou num terreno, e se debilite ou pereça em um outro.

 

15. – O que se passa habitualmente sob nossos olhos pode nos colocar sob a rota disto que se passa na origem dos tempos, porque as leis da natureza são sempre as mesmas.

 

Uma vez que os elementos constituintes dos seres orgânicos e dos seres inorgânicos são os mesmos; que os vemos incessantemente sob o domínio de certas circunstâncias, formarem as pedras, as plantas e os frutos, pode-se concluir que os corpos dos primeiros seres vivos se formaram tais como as primeiras pedras, pela reunião das moléculas elementares em virtude da lei de afinidade, à medida que as condições de viabilidade do globo se tornaram propícias a tal ou qual espécie.

 

A similitude de forma e de cores, na reprodução individual de cada espécie, pode ser comparada à similitude de forma de cada espécie de cristal. As moléculas, justapondo-se sob o domínio da mesma lei, produzem um conjunto análogo.

 

PRINCÍPIO VITAL

 

16. – Dizendo-se que as plantas e os animais sejam formados dos mesmos princípios constitutivos dos minerais, é preciso que se entenda o sentido exclusivamente material; também só se trata aqui a questão do corpo.

 

Sem falar do princípio inteligente, que é uma questão à parte, existe na matéria orgânica um princípio especial imperceptível e que não pôde ainda ser definido: é o princípio vital. Este princípio, que é ativo entre o ser vivo, está apagado entre o ser morto, mas, ele não lhe proporciona menos à substância das propriedades características que a distinguem das substâncias inorgânicas. A Química que decompõe e recompõe a maior parte dos corpos inorgânicos, pôde decompor os corpos orgânicos, mas jamais conseguiu reconstituir sequer, uma folha morta, prova evidente que existe nela alguma coisa que não existe nos outros.

 

17. – O princípio vital (f), é ele algo distinto, tendo uma existência própria? Ou bem, para entrar no sistema de unidade do elemento gerador, seja apenas um estado particular, um das modificações do fluido cósmico universal que se torna princípio de vida, como se torna luz, fogo, calor, eletricidade? É neste último sentido que a questão é resolvida pelas comunicações reportadas anteriormente. (Cap. VI, Uranografia geral).

 

Mas, qualquer que seja a opinião que se faça sobre a natureza do princípio vital, ele existe já que se veem seus efeitos. Pode-se, pois, admitir logicamente que em se formando, os seres orgânicos estão assimilados ao princípio vital que era necessário o seu destino; ou, como se queira, que este princípio se desenvolveu em cada indivíduo pelo próprio efeito da combinação de elementos, como se vê, sob o comando de certas circunstâncias, desenvolver-se o calor, a umidade e a eletricidade.

 

18. O oxigênio, o hidrogênio, o nitrogênio e o carbono, combinando-se sem o princípio vital só formam um mineral ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição molecular deste corpo, dá-lhe as propriedades especiais. Em lugar de uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica. (g)

 

A atividade do princípio vital é mantida durante a vida pela ação do jogo dos órgãos, como o calor pelo movimento de rotação de uma roda; que esta ação cessa pela morte, o princípio vital se esvai como o calor, quando a roda cessa de girar. Mas o efeito produzido sobre o estado molecular do corpo pelo princípio vitral subsiste após a extinção deste princípio, como a carbonização da lenha persiste após a extinção do calor e a cessação do movimento da roda. Na análise dos corpos orgânicos, a química reencontra bem os elementos constituintes: oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, mas não pode se reconstituir, porque a causa não existindo mais, não poderá reconstituir o efeito, enquanto que pode reconstituir uma pedra.

 

19. – Tomamos por comparação o calor desenvolvido pelo movimento de uma roda, porque é um efeito vulgar, conhecido de todo mundo, e mais fácil de compreender; mas, teria sido mais exato dizer que, na combinação desses elementos para formar os corpos orgânicos, desenvolve-se a eletricidade. Os corpos orgânicos seriam, assim, verdadeiras pilhas elétricas que funcionam contanto que os elementos desta pilha estejam em condições necessárias para produzir eletricidade: é a vida; que se arrestam quando cessam as condições: é a morte. Após isto, o princípio vital não seria outro senão a espécie particular de eletricidade designada sob o nome de eletricidade animal, engajada durante a vida pela ação dos órgãos, e cuja produção é arrestada na morte pela cessação desta ação.

 

GERAÇÃO ESPONTÂNEA

 

20. – Indaga-se naturalmente porque não se formam mais seres vivos nas mesmas condições dos que os primeiros que apareceram na Terra.

 

A questão da geração espontânea que atualmente preocupa a Ciência, se bem que ainda diversamente resoluta não é possível faltar de se lançar luz sobre este assunto. O problema proposto é o seguinte: formar-se-ia espontaneamente em nossos dias seres orgânicos pela simples união dos elementos constituintes, sem germens preliminares produzidos pela germinação ordinária, senão dito sem pais nem mães?

 

Os partidários da geração espontânea (h) respondem afirmativamente, e se apoiam em observações diretas que parecem conclusivas. Outros pensam que todos os seres vivos se reproduzem uns em decorrência de outros, e se apoiam sobre este fato, constatado pela experiência, que os germens de certas espécies animais, estando dispersos, podem conservar uma vitalidade latente durante um tempo considerável, até que as circunstâncias sejam favoráveis à sua eclosão. Esta opinião deixa sempre subsistir a questão da formação dos primeiros tipos de cada espécie.

 

21. – Sem discutir os dois sistemas, convém assinalar que o princípio da geração espontânea não pode evidentemente se aplicar a quaisquer seres senão os de ordem inferior do reino vegetal e do reino animal, naqueles em que a vida começa a pesar e em cujo organismo extremamente simples seja, de alguma sorte, rudimentar. São, efetivamente, os primeiros que apareceram sobre a Terra e, dos quais, a geração deva ser espontânea. Assistiremos, assim, a uma criação permanente análoga à que teve lugar nas primitivas idades do mundo.

 

22. – Mas, então, por que não se veem mais formar, da mesma maneira, os seres de uma organização complexa? Estes seres nunca existiram, é um fato positivo, pois foram o começo. Se o musgo, o líquen, o zoófito, o infusório, os vermes intestinais e outros podem se produzir espontaneamente, por que não o é o mesmo com as árvores, os peixes, os cães, os cavalos?

 

Aqui se detêm, por momento as investigações; o fio condutor se perde, e até que ele seja encontrado, o campo está aberto às hipóteses; será, pois, imprudente e prematuro dar sistemas como verdades absolutas.

 

23. – Se o fato de a geração espontânea ficar demonstrada, qualquer limitação que seja, não será menos um fato capital, um marco posto que pode colocar sobre a vista de novas observações. Se os seres orgânicos complexos não se reproduzem desta maneira, quem sabe como eles começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações? Quando se vê o carvalho e a bolota (semente do carvalho), quem poderá dizer se em um lugar misterioso não exista do pólipo ao elefante?

 

Deixemos ao tempo a atenção de trazer a luz ao fundo deste abismo, se um dia possa ser sondado. Estes conhecimentos são interessantes, sem dúvida, no ponto de vista da ciência pura, mas elas não são as que influem sobre os destinos do homem.

 

ESCALA DOS SERES CORPÓREOS

 

24. – Entre o reino vegetal e o reino animal não há delimitação nitidamente traçada. Sobre os confins dos dois reinos estão os zoófitos ou animais-plantas do qual o nome indica que eles têm de um e do outro: é o traço de união.

 

Como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, nutrem-se, respiram, reproduzem-se e morrem. Como os animas, para viver, elas precisam de luz, de calor e de água; se, forem privadas disso, elas se debilitam e morrem; a absorção de um ar viciado e de substâncias deletérias as envenena. Sua característica distintiva mais marcante é a de estarem fixadas ao solo e de aí retirarem sua nutrição sem deslocamento.

 

O zoófito tem aparência exterior da planta; como planta, ele se atém ao solo; como animal, a vida entre ele é mais acentuada; ele tira sua nutrição no meio ambiente.

 

Um degrau acima, o animal está livre e vai procurar sua nutrição; são, a princípio as inumeráveis variedades de pólipos, em corpos gelatinosos, sem órgãos bem distintos e que só diferem das plantas pela locomoção; depois, seguem, na ordem do desenvolvimento dos órgãos, de atividade vital e do instinto: os helmintos ou vermes intestinais; os moluscos, animais carnosos, sem osso, onde uns são nus como as lesmas, as polpas ou polvos, outros são revestidos de conchas como os caramujos, as ostras; os crustáceos em que a crosta é revestida de uma casca dura como os lagostins, as lagostas; os insetos entre os quais a vida toma uma atividade prodigiosa e se manifesta o instinto industrioso, como a formiga, a abelha, a aranha. Alguns sofrem metamorfose, como a lagarta que se transforma em elegante borboleta. Vem, a seguir, a ordem dos vertebrados, animais com estrutura óssea que compreende os peixes, os répteis, os pássaros, enfim os mamíferos, cuja organização é a mais completa.

 

O HOMEM

 

25. – Do ponto de vista corpóreo e puramente anatômico, o homem pertence à classe dos mamíferos, do que só difere de características na forma exterior; de resto, a mesma composição química que todos os animais, mesmos órgãos, mesmas funções e mesmos modos de nutrição, de respiração, de secreção, de reprodução; nasce, vive, morre nas mesmas condições, e, à sua morte seu corpo se decompõe como o de todo aquele que vive. Não há em seu sangue, em sua carne, nos seus ossos, um átomo a mais nem a menos do que nos corpos dos animais; tal como estes, em morrendo, retorna à terra o oxigênio, o hidrogênio, o nitrogênio e o carbono que se encontravam combinados para o formar; e vão, por novas combinações, formar novamente corpos minerais, vegetais e animais. A analogia é tão grande que se estudam suas funções orgânicas em certos animais, desde que as experiências não possam ser feitas neles mesmos.

 

26. – Na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos bípedes. Imediatamente abaixo dele vêm os quadrúmanos (animais com quatro mãos) ou símios, dos quais, alguns, como o orangotango, o chipanzé, o jongo, têm certas semelhanças com o homem, a tal ponto que se os tem sido designados por muito tempo como homens dos bosques; como os homens, eles caminham eretos, servem-se de bastões, e levam os alimentos à boca com a mão, sinais característicos.

 

27. – Por pouco que se observe a escala dos seres vivos sob o ponto de vista do organismo, reconhece-se que, desde o líquen até as árvores e, após, o zoófito até o homem, existe uma cadeia se desenvolvendo por graus sem solução de continuidade, e dos quais todos os elos têm um ponto de contato com o elo precedente; seguindo passo a passo a série de seres, dir-se-á que cada espécie é um aperfeiçoamento, uma transformação da espécie imediatamente inferior. Uma vez que o corpo do homem está, nas condições idênticas aos outros corpos, química e constitucionalmente, que nasce, vive e morre da mesma maneira, ele deva ser formado nas mesmas condições.

 

28. – Qual o que possa custar a seu orgulho, o homem deve se resignar a não ver em seu corpo material senão o último elo de animalidade sobre a Terra. O inexorável argumento dos fatos está aí, contra o qual se protestará em vão.

 

Mas, quanto mais o corpo diminui de valor a seus olhos, mais o princípio espiritual engrandece em importância; se o primeiro o coloca ao nível do bruto, o segundo o eleva a uma altura incomensurável. Vemos o círculo onde se detém o animal: não vemos o limite onde possa atingir o Espírito do homem.

 

29. – O materialismo pode ver por aí que o Espiritismo, longe de temer as descobertas da Ciência e seu positivismo, vai além e os provoca, porque é certo que o princípio espiritual, que tem sua existência própria, não pode sofrer nenhum atentado.

 

NOTA

 

(1) A tabela logo abaixo, de análise de algumas substâncias, mostra a diferença das propriedades que resultam da exclusiva diferença na proporção dos elementos constituintes. Para 100 partes:

 

 

Carbono

Hidrogênio

Oxigênio

Nitrogênio

Açúcar de cana…….

42.470

6.900

50.630

Açúcar de uva……..

36.710

6.780

56.510

Álcool………………..

51.980

13.700

34.320

Azeite de oliva……..

77.210

13.360

9.430

Óleo de nozes……..

79.774

10.570

9.122

0.534

Banha………………..

78.996

11.700

9.304

Fibrina……………….

53.360

7.021

19.685

19.934

 

NOTAS DO TRADUTOR

 

(a) A Biologia admite que a transformação gradual das espécies, num processo gradativo, tenha sido a causa do surgimento das mesmas. Teoria de Darwin.

 

(b) Atualmente, a classificação química admite a existência de corpos simples, formados pelo mesmo átomo e substâncias que são formadas por átomos diversos, como a água, composta de hidrogênio e oxigênio citada no item seguinte.

 

(c) Naquela época não se sabia e nem se imaginava que os raios cósmicos, atuando sobre as moléculas de água em vapor na atmosfera, seriam capazes de transformá-las em nitrogênio e, da mesma forma, sobre as moléculas de nitrogênio, liberaria o oxigênio sob forma de ozona e separaria o hidrogênio, motivo pelo qual se tem uma cama hidrogenada sobre nossa atmosfera. Essas transformações só foram observadas no século vinte, após conhecida a decomposição atômica do urânio.

 

(d) Atualmente, tem-se a ideia de que haja um agente externo ao Universo que atue sobre a energia cósmica, modulando-a e dando-lhe as diversas formas, a partir das subpartículas atômicas. Este agente apresenta diversos graus de ação, variando, portanto, segundo suas funções. Seria um desses, portanto, o que comandaria a afinidade química entre substâncias e átomos em si porque a energia, por si só não é capaz de se alterar.

 

(e) São oito os sistemas cristalográficos, a saber, o cúbico (açúcar, sal, ouro), quadrático (prisma reto de base quadrada), hexagonal prismático (quartzo), ortorrômbico (paralelepípedo), romboédrico, monoclínico, triclínico (calcita) e piramidal.

 

(f) Pode-se assimilar o conceito de “princípio vital” ao de “agente estruturador” (framework) hoje, como já foi dito, admitido como causa da modulação da energia fundamental do universo, antes conhecida como “fluido cósmico universal”.

 

(g) Atualmente, depois dos estudos de Murray Gell Mann no acelerador de partículas da Stanford University, tem-se como certo que, até uma simples subpartícula atômica é constituída a partir do anteriormente aludido agente estruturador (frameworks) externo ao domínio material compatível com a forma estrutural, sem o quê, a energia fundamental do universo jamais se alteraria para dar forma e vida à matéria ou aos corpos ditos materiais, quer minerais, quer biológicos. Contudo, estes agentes não lhe dão vida, senão existência mineral. Portanto, é de se admitir que a alma seja uma forma deles, porém, com predicados biológicos.

 

(h) Estes partidários baseavam-se na aparição de larvas de inseto nas carnes putrefeitas e que, para eles, representaria a dita geração espontânea que foi contestada por Pasteur, quando encerrou um pedaço da mesma carne numa redoma de tela fina onde os insetos não pudessem atravessar para depositar seus ovos na mesma.

 

O que se tem, atualmente, como provável geração espontânea é a ideia de que os primeiros agentes estruturadores externos teriam atuado sobre as cadeias carbônicas dissolvidas nas águas primitivas, transformando-as em plânctons, os elementos fundamentais para a origem dos zoófitos. Daí em diante, ocorre o ciclo evolutivo da transformação das espécies, também, sob ação de agentes externos superiores.

 

(i) Resta saber a causa que provoca tais transformações; pois, dessa forma, pode-se admitir, em princípio, a existência da Espiritualidade como sendo o domínio de existência das mesmas e elas, como formas espirituais de vida.

 

* * *

 

CAPÍTULO XI – GÊNESE ESPIRITUAL

 

Princípio Espiritual – União do princípio espiritual e da matéria

Hipótese sobre a origem dos corpos humanos – Encarnação dos Espíritos – Reencarnação – Emigrações e imigrações dos Espíritos – Raça adâmica – Doutrina dos anjos decaídos

 

PRINCÍPIO ESPIRITUAL

 

1. – A existência do princípio espiritual é um fato que não tem, por assim dizer, mais necessidade de demonstração, como o princípio material; é, de qualquer maneira, uma verdade axiomática; afirma-se por seus efeitos, como a matéria pelo que lhe sejam próprios.

 

De acordo com a máxima: “TODO EFEITO TENDO UMA CAUSA, TODO EFEITO INTELECTUAL DEVE TER UMA CAUSA INTELIGENTE”, não é ninguém que não faça a diferença entre o movimento mecânico de um sino agitado pelo vento, e o movimento deste mesmo sino destinado a dar um sinal, uma advertência, atestando por isso mesmo um pensamento, uma intenção. Ora, como não pode vir à ideia de ninguém atribuir o pensamento à matéria do sino, conclui-se que ele está movido por uma inteligência à qual sirva de instrumento para se manifestar.

 

Pela mesma razão, ninguém tem a ideia de atribuir o pensamento ao corpo de um homem morto. Se o homem vivo pensa, é, pois, que há nele algo que não existe quando está morto. A diferença que existe entre ele e o sino é que a inteligência que faz este mover está fora dele, enquanto que a que faz agir o homem está nele mesmo.

 

2. – O princípio espiritual é o corolário da existência de Deus; sem este princípio, Deus não teria razão de existir porque nem se poderia mais conceber a soberana inteligência nem reinando durante a eternidade senão sobre a matéria bruta como um monarca terrestre só reinando durante toda sua vida sobre as pedras. Como não se pode admitir Deus sem os atributos essenciais da divindade; a justiça e a bondade, estas qualidades seriam inúteis se só se devessem ser exercidas sobre a matéria.

 

3. – Por outro lado, não se poderia conceber um Deus soberanamente justo e bom, criando seres inteligentes e sensíveis para consagrá-los ao nada após alguns dias de sofrimento sem compensações, entretendo sua vida desta sucessão indefinida de seres que nascem sem ter desejo, pensa um instante apenas para conhecer a dor, e se apagam para sempre após uma existência efêmera.

 

Sem a sobrevivência do ser pensante, os sofrimentos da vida seria, da parte de Deus, uma crueldade sem motivo. Eis porque também o materialismo e o ateísmo são os corolários um do outro; negando a causa, não se pode admitir o efeito; negando o efeito não se pode admitir a causa. O materialismo é, pois consequente com ele próprio, se não o é com a razão.

 

4. A ideia da perpetuidade do ser espiritual é inata no homem; ela está nele no estado de intuição e de aspiração; compreende que aí somente está a compensação das misérias da vida; é porque sempre houve e haverá sempre mais espiritualistas que materialistas, e mais deístas que ateus.

 

À ideia intuitiva e ao poder do raciocínio, o Espiritismo vem juntar a sanção dos fatos, a prova material da existência do ser espiritual, de sua sobrevivência, de sua imortalidade e de sua individualidade; ele precisa e define o que este pensamento tinha de vago e de abstrato. Mostra-nos o ser inteligente operante fora da matéria, quer após, quer durante a vida do corpo.

 

5. – O princípio espiritual e o princípio vital são eles uma só é mesma coisa?

 

Partindo como sempre, da observação dos fatos, diremos que, se o princípio vital fosse inseparável do princípio inteligente, haveria alguma razão de confundi-los; mas, como se veem os seres que vivem e que nada pensam, como as plantas; corpos humanos serem ainda animados de vida orgânica nos quais não existe mais nenhuma manifestação do pensamento; que se produz no ser vivo movimentos vitais independentes de todo ato da vontade; que durante o sono a vida orgânica está em toda sua atividade, ao passo que a vida intelectual não se manifesta por nenhum sinal exterior, há lugar de admitir que a vida orgânica reside num princípio inerente à matéria, independente da vida espiritual que é inerente ao Espírito. Desde então que a matéria tenha uma vida independente do Espírito, e que o Espírito tenha uma vitalidade independente da matéria, fica evidente que esta dupla vitalidade repousa sobre dois princípios diferentes.

 

6. – O princípio espiritual, tê-lo-ia sua fonte no elemento cósmico universal? Não seria apenas uma transformação, um modo de existência deste elemento, como a luz, a eletricidade, o calor, etc.?

 

Se o fosse assim, o princípio espiritual sofreria as vicissitudes da matéria; ele feneceria pela desagregação como o princípio vital; o ser inteligente só teria uma existência momentânea como o corpo, e, à morte, retornaria ao nada, ou, o que se tornaria no mesmo, no todo universal; seria, em uma palavra, a sanção das doutrinas materialistas.

 

As propriedades sui generis que se reconhecem no princípio espiritual provam que ele tem existência própria, independente, pois, se tivesse sua origem na matéria, não teria estas propriedades. Desde então, que a inteligência e o pensamento não podem ser atributos da matéria, chega-se a esta conclusão, remontando os efeitos às causas, que o elemento material e o elemento espiritual são os dois princípios constituintes do Universo. O elemento espiritual individualizado constitui os seres chamados Espíritos, como o elemento material individualizado constitui os diferentes corpos da natureza, orgânicos e inorgânicos.

 

7. – O ser espiritual sendo admitido e sua fonte não podendo ser a matéria, qual seria sua origem, seu ponto de partida?

 

Aqui, os meios de investigação fazem absolutamente falta, como em tudo o que tenha com o princípio das coisas. O homem só pode constatar o que exista; sobre o que reste só pode emitir hipóteses; e seja que este conhecimento ultrapasse o portal de sua inteligência atual, seja que haja para ele inutilidade ou inconveniência de o possuir pelo momento, Deus não o dará, ainda que por revelação.

 

O que Deus o faz dizer por seus mensageiros, e que, além disso, o homem possa deduzir por si próprio do princípio da soberana justiça que é um dos atributos essenciais da Divindade, é que todos têm um mesmo ponto de partida; que todos são criados simples e ignorantes com uma igual aptidão para progredir por sua atividade individual; que todos atingirão o grau de perfeição compatível com a criatura por seus esforços pessoais; que todos, sendo os filhos de um mesmo pai, são o objeto de uma igual solicitude; que nenhum deles será mais favorecido ou melhor dotado que os demais, e dispensado do trabalho que seria imposto a outros para atender o objetivo.

 

8. – Ao mesmo tempo em que Deus criou os mundos materiais de toda eternidade, igualmente criou seres espirituais de toda eternidade: sem o que os mundos materiais estariam sem finalidade. Conceber-se-ia de preferência os seres espirituais sem os mundos materiais do que estes últimos sem os seres espirituais. São os mundos materiais que deveriam fornecer aos seres espirituais os elementos de atividade para o desenvolvimento de sua inteligência.

 

9. – O progresso é a condição normal dos seres espirituais, e a perfeição relativa o objetivo que devam atingir; ora, Deus em tendo criado toda a eternidade, e em criando sem cessar, por toda eternidade também, tê-lo-ia atingido o ponto culminante da escala.

 

Antes que a Terra existisse, mundos se sucederam aos mundos e, desde que a Terra saiu do caos dos elementos, o espaço era povoado por seres espirituais em todos os graus de adiantamento, desde os que nasciam à vida, até os que por toda eternidade, tinham tomado lugar entre os puros Espíritos, vulgarmente chamados de anjos.

 

UNIÃO DO PRINCÍPIO ESPIRITUAL E DA MATÉRIA

 

10. – A matéria antes de ser o objeto do trabalho do Espírito para desenvolvimento de suas faculdades, seria preciso que ele pudesse agir sobre a matéria, é porque veio habitar, como o lenhador habita a floresta. Devendo ser ela por sua vez o motivo e o instrumento do trabalho, Deus, em lugar de uni-lo à pedra rígida, criou, para seu uso, corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todos os impulsos de sua vontade e de se prestar a todos os seus movimentos.

 

O corpo é, pois, ao mesmo tempo, o invólucro e o instrumento do Espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste-se de uma veste apropriada ao novo gênero de trabalho que deva realizar, como se dá a um operário ferramentas menos grosseiras à medida que ele seja capaz de fazer uma obra mais cuidada.

 

11. PARA SER MAIS EXATO, É PRECISO DIZER QUE É O PRÓPRIO ESPÍRITO QUE ELABORA SEU ENVOLTÓRIO E O ADAPTA ÀS SUAS NOVAS FUNÇÕES; ELE O TORNA PERFEITO, SE REVELA E COMPLETA O ORGANISMO À MEDIDA QUE EXPERIMENTA A NECESSIDADE DE MANIFESTAR NOVAS FACULDADES; EM UMA PALAVRA, ELE O COLOCA NO MOLDE DA SUA INTELIGÊNCIA; DEUS LHE FORNECE OS MATERIAIS, PARA QUE ELE COLOQUE EM OBRA; É ASSIM QUE AS RAÇAS AVANÇADAS TÊM UM ORGANISMO, OU, COMO QUEIRA, UM APARELHAMENTO MAIS APERFEIÇOADO DO QUE AS RAÇAS PRIMITIVAS. Assim se explica igualmente a personalidade especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e as maneiras do corpo.

 

12. – Desde que um Espírito nasça à vida espiritual, ele deve, para seu adiantamento, fazer uso de suas faculdades, a princípio, rudimentares; é porque ele se recobre de uma veste corpórea apropriada a seu estado de infância intelectual, roupagem esta que ele deixa para se revestir de outra à medida que suas forças crescem. Ora, como há tido em todos os tempos, mundos, e que estes mundos deram nascimento a corpos organizados próprios a receber Espíritos, em todos os tempos, Espíritos encontraram de alguma forma seu grau de adiantamento, os elementos necessários à sua vida carnal.

 

13. – O corpo, sendo exclusivamente material, sofre as vicissitudes da matéria. Após ter funcionado algum tempo, ele se desorganiza e se decompõe; o princípio vital, não encontrando mais elemento à sua atividade, esvai-se e o corpo morre. O espírito, já que o corpo privado de vida é daí em diante sem utilidade, deixa-o, como se deixa uma casa em ruína ou uma veste fora de serviço.

 

14. – O CORPO É APENAS UMA VESTE DESTINADA A RECEBER O ESPÍRITO:  desde então pouco importa sua origem e os materiais dos quais ele seja construído. Que o corpo do homem seja uma criação especial ou não, ele não é menos formado dos mesmos elementos que o dos animais, animado do mesmo princípio vital, senão dito aquecido pelo mesmo fogo, como é iluminado pela mesma luz, sujeito às mesmas vicissitudes e às mesmas necessidades: é um ponto sobre o qual não há contestação.

 

Em não considerar senão a matéria, fazendo-se abstração do Espírito, o homem nada tem, pois que o distinga do animal; mas tudo muda de aspecto si se fizer uma distinção entre a habitação e o habitante.

 

Um grande senhor, sob um barraco ou vestido com a bata de um camponês, ele não se apresenta mais como grande senhor. É o mesmo com o homem; não é sua vestimenta carnal que o ergue acima do estúpido e o faz um ser à parte, é seu ser espiritual, seu Espírito.

 

HIPÓTESE SOBRE A ORIGEM DO CORPO HUMANO

 

15. – Da similitude de formas exteriores que existe entre o corpo do homem e o de um símio, certos fisiologistas concluíram que o primeiro seria uma transformação do segundo. A isto nada há de impossível, sem que, se o for assim a dignidade do homem tenha que sofrer. Os corpos dos símios têm, muito bem, podido servir de vestimenta aos primitivos Espíritos humanos, necessariamente pouco avançados que vieram se encarnar na Terra, estas vestes sendo os meios apropriados a suas necessidades e mais próprios ao exercício de suas faculdades que os corpos de qualquer outro animal. Em lugar de uma veste especial que tenha sido feita pelo Espírito, ele o teria encontrado um todo pronto. Ele pôde, pois, se vestir da pele do símio, sem deixar de ser um Espírito humano, como o homem se reveste por vezes da pele de certos animais sem cessar de ser homem.

 

Está bem entendido que se trata aqui, apenas, de uma hipótese que não está absolutamente posta em princípio, mas dada somente para mostrar que a origem do corpo não prejudica ao Espírito que é o ser principal e que a similitude do corpo do homem com o corpo do símio não implica na paridade entre seu Espírito e o do símio.

 

16 – Em se admitindo esta hipótese, pode-se dizer que sob a influência e pelo efeito da atividade intelectual de seu novo habitante, o invólucro se modificou, embelezando nos pormenores, no todo, conservando a forma geral do conjunto. Os corpos melhorados, em se procriando, reproduziram-se nas mesmas condições, como o é das árvores enxertadas; deram nascimento a uma nova espécie que, aos poucos se distanciavam do tipo primitivo à medida que o Espírito progredia. O Espírito simiesco, que não teve aniquilamento, continuou a procriar em corpos de símios a seu uso, como o fruto da planta enxertada reproduz enxertias, e o Espírito humano procriou corpos de homens, variantes do primeiro molde onde se estabelecera. A estirpe está bifurcada; produziu um rebento e este rebento se tornou raça.

 

Como não existem transições bruscas na natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram sobre a Terra deram pouca diferença do símio na forma exterior, e, sem duvida, nada muito além na inteligência. Há ainda em nossos dias, selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés e a conformação da cabeça, tem totalmente as linhas do símio, que lhe faltam somente serem peludos para completarem a semelhança.

 

ENCARNAÇÃO DOS ESPÍRITOS

 

17. – O Espiritismo nos ensina, de qual forma se opera a união do Espírito e do corpo na encarnação.

 

O ESPÍRITO, PELA SUA ESSÊNCIA ESPIRITUAL, É UM SER INDEFINIDO, ABSTRATO, QUE NÃO PODE TER UMA AÇÃO DIRETA SOBRE A MATÉRIA; TORNA-SE-LHE PRECISO UM INTERMEDIÁRIO; ESTE INTERMEDIÁRIO ESTÁ NUM ENVOLTÓRIO FLUÍDICO (b) QUE FAZ, DE ALGUMA SORTE, PARTE INTEGRANTE DO ESPÍRITO, ENVOLTÓRIO SEMI-MATERIAL, a dizer, tendo a matéria por sua origem e a Espiritualidade por sua natureza etérea; como toda matéria, É HAURIDO DO FLUIDO CÓSMICO UNIVERSAL, que sofre nesta circunstância uma modificação especial. Este envoltório designado sob o nome de perispírito, um ser abstrato, faz do Espírito um ser concreto, definido, penhorável pelo pensamento; encontra-se apto a agir sobre a matéria tangível, tal como todos os fluidos imponderáveis que sejam, como se sabe, os mais possantes motores.

 

O FLUIDO PERISPIRITUAL É, POIS, O TRAÇO DE UNIÃO ENTRE O ESPÍRITO E A MATÉRIA. Durante sua união com o corpo, é o veículo de seu pensamento para transmitir o movimento às diferentes partes do organismo que se movimentam sob o impulso da sua vontade, e para repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes exteriores. Tem por fios condutores os nervos, como no telégrafo, o fluido elétrico tem por condutor o fio metálico.

 

18. – LOGO QUE O ESPÍRITO DEVA SE ENCARNAR NUM CORPO HUMANO EM VIA DE FORMAÇÃO, UM LAÇO FLUÍDICO, QUE NÃO É OUTRO SENÃO UMA EXPANSÃO DO PERISPÍRITO, O AMARRA AO GERME SOBRE O QUAL ELE SE ENCONTRA LANÇADO POR UMA FORÇA IRRESISTÍVEL DESDE O MOMENTO DA CONCEPÇÃO. À MEDIDA QUE O GERME SE DESENVOLVE, O LAÇO SE APERTA; SOB A INFLUÊNCIA DO PRINCÍPIO VITAL MATERIAL DO GERME, O PERISPÍRITO, QUE POSSUI CERTAS PROPRIEDADES DA MATÉRIA, UNE-SE MOLÉCULA A MOLÉCULA COM O CORPO QUE SE FORMA; DE ONDE SE PODE DIZER QUE O ESPÍRITO, POR INTERMÉDIO DE SEU PERISPÍRITO, TOMA, DE ALGUMA FORMA, RAIZ NESTE GERME, COMO UMA PLANTA NA TERRA. QUANDO O GERME ESTÁ INTEIRAMENTE DESENVOLVIDO, A UNIÃO É COMPLETA E, ENTÃO, ELE NASCE À VIDA EXTERIOR.

 

Por um efeito contrário, esta união do perispírito e da matéria carnal, que se encontra acoplada sob influência do princípio vital do germe, quando este princípio cessa de agir por consequência da desorganização do corpo, que só era mantida por uma força ativa, cessa quando esta força cessa de agir; então, o perispírito se desembaraça molécula a molécula, tal como se unira e o Espírito se encontrará em liberdade. NÃO É, POIS, A PARTIDA DO ESPÍRITO QUE CAUSA A MORTE DO CORPO, MAS A MORTE DO CORPO QUE CAUSA A PARTIDA DO ESPÍRITO. (c)

 

19. – O Espiritismo nos ensina, pelos fatos que ele nos põe, mesmo, a observar, os fenômenos que acompanham esta separação; é, algumas vezes, rápida, fácil, doce e insensível; outras vezes é muito lenta, laboriosa, horrivelmente penosa, conforme o estado moral do Espírito e pode durar meses inteiros.

 

20. – Um fenômeno particular, igualmente registrado pela observação, acompanha sempre a encarnação do Espírito. Desde que este é preso pelo laço fluídico que o une ao germe, a perturbação se apodera dele; esta perturbação cresce à medida que o laço se aperta e, nos últimos momentos, o Espírito perde toda consciência dele próprio, de sorte que ele mesmo não se torna jamais testemunha consciente de seu nascimento. No momento em que a criança respira, o Espírito começa a recuperar suas faculdades que se desenvolvem à medida que se formam e se consolidam os órgãos que devam servir à sua manifestação. Aqui ainda manifesta-se a sabedoria que preside a todas as partes da obra da criação. Faculdades demasiadamente ativas usariam e quebrariam os órgãos delicados apenas esboçados. É porque sua energia é proporcional à força de resistência destes órgãos.

 

21. – Mas, ao mesmo tempo em que o Espírito recupera a consciência dele próprio, ele perde a lembrança de seu passado, sem perder as faculdades, as qualidades e as aptidões adquiridas anteriormente, aptidões que estavam momentaneamente postas em estado latente e que, em retomando sua atividade, vão ajudá-lo a fazer mais e melhor do que teria feito precedentemente; ele faz renascer o que se fez pelo seu trabalho anterior; é para ele um novo ponto de partida, um novo degrau a galgar. Aqui ainda se manifesta a bondade do Criador porque a lembrança de um passado, frequentemente penoso ou humilhante, juntando-se às amarguras de sua nova existência, poderia perturbar-lhe e entravá-lo; ele só se lembra daquilo que aprendeu porque lhe será útil. Se, por vezes ele conserva uma vaga intuição dos acontecimentos passados, é como a lembrança de um sonho fugidio. É, pois um homem novo qualquer que seja a idade do seu Espírito; ele marcha por novos trâmites ajudado pelo que tenha adquirido. Tão logo retorna à vida espiritual, seu passado se desenrola a seus olhos. E ele julga se teve bem ou mal empregado seu tempo.

 

22. – Não há, pois, solução de continuidade na vida espiritual, malgrado o esquecimento do passado; o Espírito é sempre ele, antes, durante e depois da encarnação; a encarnação é somente uma fase de sua existência. Este esquecimento só acontece, mesmo, durante a vida exterior de relação; durante o sono, o Espírito, em parte desligado dos laços carnais, rendido à liberdade e à vida espiritual se lembra; sua vida espiritual não se torna mais tão obscurecida pela matéria.

 

23. – Em tomando a humanidade a seu grau o mais ínfimo da escala intelectual, entre os selvagens mais atrasados, indaga-se se é este o ponto de partida da alma humana.

 

Conforme a opinião de alguns filósofos espiritualistas, o princípio inteligente, distinto do princípio material, individualiza-se, elabora-se, em passando pelos diversos graus da animalidade; é ao que a alma se ensaia à vida e desenvolve suas primeiras faculdades para o exercício; será, por assim dizer, seu tempo de incubação. Chegado ao grau de desenvolvimento que comporta este estado, ela recebe as faculdades especiais que constituem a alma humana. Haveria assim filiação espiritual, como o há filiação corpórea.

 

Este sistema, fundado sobre a grande lei de unidade que preside a Criação, assegura, é preciso convir, à justiça e à bondade do Criador; dá uma resultante, um alvo, um destino aos animais, que não são mais seres deserdados, mas que encontram no porvir que lhe seja reservado uma compensação a seus sofrimentos. O que constitui o homem espiritual, não é sua origem, mas os atributos especiais dos quais está dotado à sua entrada na humanidade, atributos que o transforma e o faz um ser distinto, como o fruto saboroso é distinto da raiz amarga de onde saiu. Por ter passado pela fileira da animalidade, o homem não seria menos homem; não seria mais animal como o fruto não é raiz, que o sábio não é o disforme feto através do qual iniciou no mundo.

 

Mas este sistema levanta numerosas questões do que não é oportuno discutir aqui os prós e o contra, senão examinar as diferentes hipóteses que têm sido feitas sobre este assunto. Sem, pois, procurar a origem da alma, e as fileiras pelas quais tenha podido passar, nós a tomamos à sua entrada na humanidade, ao ponto onde, dotada do senso moral e do livre arbítrio, começa a incorrer a responsabilidade de seus atos.

 

24. – A obrigação, para o Espírito encarnado de prover a nutrição do corpo, a sua segurança, o seu bem estar, o contrai a aplicar suas faculdades nestas pesquisas de exercê-las e de desenvolvê-las. Sua união com a matéria é, pois, útil a seu avanço, eis, porque a encarnação é uma necessidade. Por outro lado, pelo trabalho inteligente que opera a seu proveito, ele ajuda à transformação e ao progresso material do globo em que habite; é assim que, tudo em seu próprio progresso, ele concorre à obra do Criador do qual é agente inconsciente.

 

25. – Mas a encarnação do Espírito não é nem constante nem perpétua; é apenas transitória; deixando um corpo, ele não retoma um outro instantaneamente; durante um lapso de tempo mais ou menos considerável, ele vive a vida espiritual, que é sua vida normal: de tal sorte que a soma do tempo passado nas diferentes encarnações é de pouca monta, comparada àquela dos tempos que ele passou no estado de Espírito livre.

 

No intervalo de suas encarnações, o Espírito progride igualmente, neste senso que coloca a proveito, para seu adiantamento, os conhecimentos e a experiência adquiridos durante a vida corpórea; – falamos de Espírito chegado ao estado de alma humana, tendo a liberdade de ação, e a consciência de seus atos. – Ele examina o que fez durante sua estada terrestre, passa em revista o que aprendeu, reconhece suas faltas, endireita seus planos e toma as resoluções após o que ele conta se conduzir em uma nova existência tentando fazer melhor. É assim que cada existência é um passo adiante no caminho do progresso, uma sorte de escola de aplicação.

 

A encarnação não é, pois, em absoluto, normalmente uma punição para o Espírito, como qualquer um possa pensar, mas uma condição inerente à inferioridade do Espírito e um meio de progredir.

 

À medida que o Espírito progride moralmente, ele se desmaterializa, a dizer que, livrando-se da influência da matéria, ele se depura; sua vida espiritualiza-se, suas faculdades e suas percepções se estendem; sua felicidade está em razão do progresso completado. Mas, como age em virtude de seu livre arbítrio, pode, por negligência ou mal querer, retardar seu avanço; prolonga, por consequência, a duração de suas encarnações materiais que se transformam então para ele em punição, já que, por sua falta, ele permanece nos lugares inferiores, obrigado a recomeçar a mesma empreitada. Depende, pois, de o Espírito abreviar, por seu trabalho de depuração sobre si próprio, a duração do período de encarnações.

 

26. – O PROGRESSO MATERIAL DE UM GLOBO SEGUE O PROGRESSO MORAL DE SEUS HABITANTES; ora, como a criação dos mundos e dos Espíritos é incessante, que os que progridem mais ou menos rapidamente em virtude de seu livre arbítrio, resulta disso que há mundos mais ou menos idosos, com diferentes graus de adiantamento físico e moral, onde a encarnação é mais ou menos material e, onde, por consequência, o trabalho, para os Espíritos é mais ou menos rude. Neste ponto de vista, a Terra é um dos menos adiantados; povoada de Espíritos relativamente inferiores, a vida corpórea o é mais penosa do que em outros, como o é mais atrasados, onde é mais penoso ainda que sobre a Terra, e par os quais a Terra seria relativamente um mundo feliz.

 

27. – Tão logo os Espíritos tenham adquirido sobre um mundo a soma de progresso que comporta o estado deste mundo, eles o abandonam para se encarnarem em um outro mais avançado onde adquirem novos conhecimentos, e assim, em seguida, até que a encarnação em um corpo material não lhe sendo mais útil, vivam exclusivamente da vida espiritual, onde progridem ainda em um outro sentido e para outros fins. Chegado ao ponto culminante do progresso, gozam da suprema felicidade; admitidos nos conselhos do Todo-Poderoso, têm seu pensamento, e tornam-se seus mensageiros, seus ministros diretos para o governo dos mundos, tendo sob suas ordens os Espíritos de diferentes graus de adiantamento.

 

Assim, todos os Espíritos encarnados ou desencarnados, em qualquer grau da hierarquia que se apresentem, desde o menor até o maior, têm suas atribuições no grande mecanismo do Universo; todos são úteis ao conjunto, ao mesmo tempo em que sejam úteis a eles mesmos; aos menos avançados, como a de simples manobreiro, incumbe uma tarefa material, inicialmente inconsciente, depois gradualmente inteligente. Por toda parte a atividade no mundo espiritual, em nenhum lugar a inútil ociosidade.

 

A coletividade dos Espíritos é de alguma sorte a alma do Universo; é o elemento espiritual que atua em tudo e por tudo, sob o impulso do pensamento divino. Sem este elemento só resta a matéria inerte, sem fim finalidade, sem inteligência, sem outro motor além das forças materiais que deixam uma grande quantidade de problemas insolúveis; pela ação do elemento espiritual  individualizado, tudo tem uma finalidade, uma razão de ser, tudo se explica; eis porque sem a Espiritualidade, tropeça-se em dificuldades insuperáveis.

 

28. – Desde que a Terra se encontrou nas condições climatéricas próprias à existência da espécie humana, os Espíritos vieram a se encarnar aí; e admite-se que encontraram os envoltórios todos feitos e que não tiveram senão que se apropriar para seu uso, compreende-se melhor ainda que pudessem tomar nascimento simultaneamente sobre vários pontos do globo.

 

29. – Bem que os primeiros que vieram devessem ser pouco avançados, em razão, mesmo, do que os que deveriam se encarnar em corpos muito imperfeitos, devia haver entre eles diferenças sensíveis nos caracteres e nas aptidões conforme o grau de seu desenvolvimento moral e intelectual; os Espíritos similares foram naturalmente agrupados por analogia e simpatia. A Terra encontrava-se assim povoada de diferentes categorias de Espíritos, mais ou menos aptos ou rebeldes ao progresso. Os corpos receberam o cunho do caráter do Espírito e seus corpos se procriaram conforme seu tipo respectivo, daí resultarem diferentes raças, no físico como em moral. Os Espíritos similares, continuando a se encarnar de preferência entre seus semelhantes, perpetuaram o caráter distinto físico e moral das raças e dos povos, que só se perde ao longo, por sua fusão e o progresso dos Espíritos. (Revista Espírita, julho 1860, página 198: Frenologia e Fisiognomia).

 

30. – Pode-se comparar os Espíritos que vieram povoar a Terra, a estas tropas de emigrantes de origens diversas que vão se estabelecer sobre um terreno virgem. Encontram aí a madeira e a pedra para fazer sua habitação e cada qual dá à cena um carimbo (marca) diferente, conforme o grau de seu saber e de sua inteligência. Grupam-se então por analogia de origens e de gostos; estes grupos acabam por formar tribos, a seguir povos tendo cada qual seus costumes e seu caráter próprio.

 

31. – O progresso nunca foi uniforme em toda espécie humana; as raças as mais inteligentes adiantaram-se naturalmente às outras, sem contar que Espíritos novamente nascidos à vida espiritual vieram encarnar-se na Terra após os primeiros chegados, gerando a diferença do progresso mais sensível. Seria impossível, de fato, dar a mesma antiguidade de criação aos selvagens que mal se distinguem dos símios, quanto aos chineses, e ainda menos em relação aos europeus civilizados.

 

Estes Espíritos de selvagens, entretanto, pertencem também à humanidade; eles atenderão um dia ao nível de seus primogênitos, mas isto não será certamente nos corpos da mesma raça física, imprópria a um certo desenvolvimento intelectual e moral. Quando o instrumento não for mais relativo com seu desenvolvimento, eles migrarão deste meio para se encarnar em um grau superior, e assim em seguida até que tenham conquistado todos os graus terrenos, após o que deixarão a Terra para passar em mundos gradativamente mais avançados. (Revista Espírita, abril 1862 página 97: Perfectibilidade da raça negra).

 

REENCARNAÇÕES

 

32. – O PRINCÍPIO DA REENCARNAÇÃO É UMA CONSEQÜÊNCIA FATAL DA LEI DO PROGRESSO. Sem a reencarnação, como explicar a diferença que existe entre o estado social atual e o dos tempos de barbáries? Se as almas são criadas ao mesmo tempo em que os corpos, as que nascem atualmente são todas também novas, todas também primitivas que as que viveram há mil anos; aditemos que não haja entre elas nenhuma conexão, nenhuma relação necessária; que elas sejam completamente independente umas das outras; por que, então, as almas da atualidade seriam melhores dotadas por Deus que as predecessoras? Por que elas compreenderiam melhor? Por que teriam instintos mais apurados, usos mais doces? Por que teriam intuições de certas coisas sem lhes ter ensinado? Desafiamos de sair daí, a menos que se admita que Deus criasse almas de diversas qualidades, conforme os tempos e os lugares, proposição inconciliável com a ideia de uma soberana justiça.

 

Ditas, ao contrário, que as almas atuais já viveram nos tempos recônditos; que puderam ser bárbaras como seu século, mas que progrediram; que a cada nova existência elas levem as aquisições das existências anteriores; que, por consequência, que as almas dos tempos civilizados são almas não criadas mais perfeitas, mas que se aperfeiçoaram elas mesmas com o tempo, e tereis a única explicação plausível da causa do progresso social. (O Livro dos Espíritos, capítulo IV e V).

 

Algumas pessoas pensam que as diferentes existências da alma efetuam-se de mundo em mundo, e não sobre um mesmo globo onde cada Espírito só aparece uma única vez.

 

Esta doutrina seria admissível se todos os habitantes da Terra estivessem exatamente ao mesmo nível intelectual e moral; eles não poderiam então progredir senão em indo num outro mundo e sua reencarnação na Terra seria sem utilidade; ora, Deus não faz nada de inútil. Desde o instante que aí se encontram todos os graus de inteligência e de moralidade, a partir da selvageria que costeia o animal até a civilização a mais avançada, ela apresenta um vasto campo de progresso; perguntar-se-ia porque o selvagem seria obrigado ir procurar em outro lugar o grau acima dele quando se encontra a seu lado, e assim, de próximo em próximo; porque o homem avançado não teria podido fazer suas primeiras etapas senão em mundos inferiores, enquanto que os análogos de todos esses mundos estão em torno dele; que há diferentes graus de progresso não somente de povo a povo, mas no mesmo povo, mas no mesmo povo e na mesma família? Em sendo assim, Deus teria feito algo de inútil, colocando lado a lado a ignorância e o saber, a barbárie e a civilização, o bem e o mal, ao passo que é precisamente este contato que faz avançar os retardatários.

 

Não há, pois, mais necessidade ao que os homens troquem de mundo a cada etapa. Como não o há para que um escolar troque de colégio a cada classe; longe disso, foi uma vantagem para o progresso o que seria um entrave, porque o Espírito estaria privado do exemplo que lhe oferece a vida dos graus superiores, e da possibilidade de reparar seus danos no mesmo meio e à atenção dos que tenha ofendido, possibilidade que lhe é o mais poderoso meio de adiantamento moral. Após uma curta coabitação, os Espíritos, dispersando-se e tornando-se estranhos uns dos outros, os laços de família e de amizade, não tendo tempo de se consolidar, seriam rompidos.

 

Que os Espíritos deixem por um mundo mais avançado aquele que eles não possam mais nada adquirir, deve acontecer e o é; tal é o princípio. Se o é que o deixem ir adiante, é sem dúvida por causa individual que Deus pesa em sua sabedoria.

 

Tudo tem um objetivo na criação, sem o que Deus não seria nem prudente nem sábio; ora, se a Terra não devesse ser senão uma só etapa para o pregresso de cada indivíduo, que utilidade teria ela para os jovens em tenra idade de ai vir passar alguns anos, alguns meses, algumas horas, durante as quais eles nada podem adquirir? Da mesma forma, para os idiotas e os cretinos. Uma teoria só é boa quando a condição resolve todas as questões que a ela se amarram. A questão do morto prematuro tem sido uma pedra de tropeço para todas as doutrinas, exceto para a doutrina espírita que é a única que tem solução de maneira racional.

 

Para os que percorrem sobre a Terra uma carreira normal, há para o progresso, uma vantagem real a se reencontrar no mesmo meio, para aí continuar o que deixaram inacabado, durante a mesma família ou em contato com as mesmas pessoas, para reparar o mal que tenham podido fazer, ou por sofrer a pena de talião.

 

EMIGRAÇÃO E IMIGRAÇÃO DE ESPÍRITOS

 

33. – No intervalo de suas existências corpóreas, os Espíritos estão no estado de erraticidade, e compõem a população espiritual ambiente do globo. Pelas mortes e nascimentos, estas duas populações diversificam incessantemente uma das outras; existe, pois, diariamente emigrações do mundo corpóreo para o mundo espiritual, imigrações do mundo espiritual no mundo corpóreo: é o estado normal.

 

34. – A certas épocas, regradas pela sabedoria divina, estas emigrações e estas imigrações operam-se em massa mais ou menos consideráveis por sequência de grandes revoluções que se fazem partir ao mesmo tempo quantidades inumeráveis, que são logo recolocadas por quantidades equivalentes de encarnações. É preciso, pois, considerar os flagelos destruidores e os cataclismos como ocasiões de chegadas e de partidas coletivas, maneiras providenciais de renovar a população corporal do globo, de revigorá-la pela introdução de novos elementos espirituais mais depurados. Se nestas catástrofes há destruição de um grande número de corpos, não há senão vestimentas devastadas, mas nenhum Espírito perece: só fazem trocar de meio; em lugar de partirem isoladamente, eles partem em quantidade, eis, pois toda diferença, porque partir por uma causa ou por outra, não se deve menos fatalmente partir cedo ou tarde.

 

As renovações rápidas e quase instantâneas que se operam no elemento espiritual da população, em sequência dos flagelos destruidores, apressam o progresso social; sem as emigrações e as imigrações que vêm de tempos em tempos dar-lhe um violento impulso, eles marchariam com uma extrema lentidão.

 

É notável que todas as grandes calamidades que dizimam as populações são sempre seguidas de uma era de progresso na ordem física, intelectual ou moral, e por sequência no estado social da nação entre aqueles elas se efetuam. É que tiveram por objetivo operar um remanejamento na população espiritual, que é a população normal e ativa do globo.

 

35. – Esta transfusão que se opera entre a população encarnada e a população desencarnada de um mesmo globo, opera-se igualmente entre os mundos, seja individualmente nas condições normais, seja por massas em circunstâncias especiais, Há, pois, emigrações e imigrações coletivas de um mundo a outro. Resulta disso a introdução, na população de um globo, de elementos inteiramente novos; novas raças de Espíritos vindo se misturar às raças existentes, constituindo novas raças de humanos. Ora, como os Espíritos não perdem nunca o que adquiriram, eles aportam com sua inteligência e intuição de conhecimentos que possuam; imprimem, por consequência, suas características à raça corpórea que venham animar. Não têm necessidade, para isso, senão de que novos corpos sejam criados especialmente para seu uso; desde que a espécie corpórea existe, eles o encontram todos prontos a os receber. São, pois, simplesmente novos habitantes; chegando à Terra, eles fazem, a princípio, parte de sua população espiritual, após o que se encarnam como os outros.

 

RAÇA ADÂMICA

 

36. – Conforme o ensinamento dos Espíritos, é uma dessas grandes imigrações, ou, se o queira, uma destas colônias espirituais vinda de uma outra esfera que deu nascimento à raça simbolizada na personalidade de Adão e, por esta razão, denominada raça adâmica. Quando ela chegou, a Terra era povoada desde tempos imemoriais, como a América quando vieram os europeus.

 

A raça adâmica, mais avançada do que aquelas que a tinham precedido na Terra, é, em efeito, a mais inteligente; é ela que empurra todas as outras ao progresso. A Gênese no-la mostra-nos, desde seu começo, industriosa, apta às artes e às ciências, sem ter passado pela infância intelectual, o que não é próprio das raças primitivas, mas que concorda com a opinião de que ela se compunha de Espíritos tendo já progredido. Tudo prova que ela não é anciã sobre a terra, e nada se opõe ao que ela só esteja aqui após alguns milhares de anos, o que não estaria em contradição nem com os fatos geológicos, nem com as observações antropológicas, e tenderia, ao contrário, em confirmá-las.

 

37. – A doutrina que faz proceder todo o gênero humano de uma só individualidade após seis mil anos, não é admissível no estado atual dos conhecimentos. As principais considerações que a contradizem, tiradas da ordem física e da ordem moral, resumem-se nos seguintes pontos:

 

38. – No ponto de vista fisiológico, certas raças apresentam tipos particulares característicos que não permitem de lhes assinalar uma origem comum. Há diferenças que não são evidentemente o efeito do clima, já que os brancos que se reproduzem nos países dos negros não se tornam negros, e reciprocamente. O ardor do Sol grelha e brune a epiderme, mas, jamais transformou um branco em negro, achatando o nariz, trocando a forma dos traços da fisionomia, nem tornou encrespado e lanoso os cabelos longos e sedosos. Sabe-se atualmente que a cor do negro provém de um tecido particular subcutâneo que possui a espécie.

 

É preciso, pois, considerar as raças negras mongólicas, caucásicas, como tendo suas origens próprias e tendo nascimento simultaneamente ou sucessivamente sobre diferentes partes do globo; seu cruzamento produziu raças mistas secundárias. Os caracteres fisiológicos das raças primitivas são o indicativo evidente de que elas provêm de tipos especiais. As mesmas considerações existem, pois, para o homem como para os animais, quanto à pluralidade das estirpes.

 

39. – Adão e seus descendentes são representantes na Gênese como homens essencialmente inteligentes, já que, desde a segunda geração, eles constroem cidades, cultivam a terra, talham os metais. Seus progressos nas artes e nas ciências foram rápidos e constantemente sustentados. Não se conceberia, pois, que esta cepa tenha tido por rebentos povos numerosos tão atrasados, de uma inteligência tão rudimentar, que eles costeiam, ainda, em nossos dias, com a animalidade; que teriam perdido todo traço e até a menor lembrança tradicional do que o que faziam seus pais. Uma diferença tão radical nas aptidões intelectuais e no desenvolvimento moral atesta, com não menos evidência, uma diferença de origem.

 

40. – Independentemente dos fatos geológicos, a prova da existência do homem sobre a terra antes da época fixada pela Gênese é tirada da população do globo.

 

Sem falar da cronologia chinesa, que remonta, diga-se, a trinta mil anos, dos documentos mais autênticos que atestam que o Egito, a Índia e outros países eram povoados e florescentes pelo menos três mil anos antes da era cristã, mil anos, por consequência, após da criação do primeiro homem, conforme a cronologia bíblica. Documentos e observações recentes não parecem deixar nenhuma dúvida atualmente sobre as relações que existiram entre a América e os velhos Egípcios; de onde é preciso concluir que esta região já era povoada por esta época. É necessário, pois, admitir que em mil anos a posteridade de um só homem tenha podido cobrir a maior parte da Terra; ora, uma tal fecundidade seria contrária a todas as leis antropológicas. A Gênese, ela própria nunca atribuiu aos primeiros descendentes de Adão uma fecundidade anormal, já que ela dá a enumeração nominal até Noé.

 

41. – A impossibilidade torna-se mais evidente si se admitir, com a Gênese que o dilúvio destruiu todo o gênero humano, à exceção de Noé e de sua família, que não era numerosa, no ano do mundo 1656, ou seja, 2348 anos antes de Jesus Cristo. Não seria, pois, em realidade, senão de Noé que dataria o povoamento do globo; ora, por esta época, a História designa Menés como rei do Egito. Quando os hebreus se estabeleceram neste último país, 642 anos depois do dilúvio, já era um poderoso império que teria sido povoado, sem falar das outras regiões, em menos de seis séculos, somente pelos descendentes de Noé, o que não é admissível.

 

Remarquemos, de passagem, que os egípcios acolheram os hebreus como estrangeiros; seria espantoso que tivessem perdido a lembrança de uma comunidade de origem também próxima, naquele tempo em que conservavam religiosamente os monumentos de sua História.

 

Uma rigorosa lógica, corroborada pelos fatos, demonstra, pois, da maneira a mais peremptória, que o homem está sobre a Terra desde um tempo indeterminado, bem anterior à época assinalada pela Gênese. Do mesmo modo, a diversidade das raças primitivas, por demonstrar a impossibilidade de uma proposição, é demonstrar a proposição contrária. Se a Geologia descobre traços autênticos da presença do homem antes do grande período diluviano, a demonstração será ainda mais absoluta.

 

DOUTRINA OS ANJOS DECAÍDOS E DO PARAÍSO PERDIDO (1)

 

42. – O termo anjo, como vários outros, tem várias acepções: toma-se indiferentemente em boa e má parte, uma vez que se diz: os bons e os maus anjos, o anjo de luz e o anjo das trevas; daí segue-se que, em sua acepção geral, significa simplesmente Espírito.

 

Os anjos não são seres fora da humanidade, criados perfeitos, mas Espíritos chegados à perfeição, como todas as criaturas, por seus esforços e seu mérito. Se os anjos fossem seres criados perfeitos, a rebelião contra Deus, sendo um sinal de inferioridade, os que se revoltaram não poderiam ser anjos. A rebelião contra Deus não se conservaria da parte de seres que fossem criados perfeitos, ao passo que ela concebe a parte de seres ainda atrasados.

 

Por sua etimologia, o termo anjo (do grego aggelos), significa enviado, mensageiro; ora, não é racional supor que Deus tenha tomado seus mensageiros entre seres assaz imperfeitos para se revoltar contra ele próprio.

 

43. – Até que os Espíritos tenham atingido a um certo grau de perfeição, estão sujeitos a falir, seja no estado de erraticidade, seja no estado de encarnação. Falir é infringir a lei de Deus, bem que esta lei esteja inscrita no coração de todos os homens a fim de que eles não tenham necessidade da revelação para conhecer seus deveres, o Espírito só a compreende gradualmente e à medida que sua inteligência se desenvolve. Aquele que infringe esta lei por ignorância e falta de experiência que só se adquire com o tempo, apenas incorre em uma responsabilidade relativa; mas da parte daquele cuja inteligência está desenvolvida, que tendo todos os meios de se esclarecer, enfrenta a lei voluntariamente e pratica o mal com conhecimento de causa, é uma revolta, uma rebelião contra o autor da lei.

 

44. – Os mundos progridem fisicamente pela elaboração da matéria, e moralmente pela depuração dos Espíritos que os habitam. A bondade aí está em razão da predominância do bem sobre o mal, e a predominância do bem é o resultado do avanço moral dos Espíritos. O progresso intelectual não é suficiente já que, com a inteligência, podem fazer o mal. Tão logo um mundo chegue a um de seus períodos de transformação que o deva fazer subir na hierarquia, as mutações se operam em sua população encarnada e desencarnada; é, então que têm lugar as grandes emigrações e imigrações. Aquilo que, malgrados sua inteligência e seu saber, preserva-se no mal, em sua revolta contra Deus e suas leis, será, daí para frente mais um entrave para o progresso moral ulterior, uma causa permanente de dificuldade para o repouso e a sorte dos bons, é por causa disso que são enviados para mundos menos adiantados; lá eles aplicarão sua inteligência e a intuição de seus conhecimentos adquiridos do progresso daqueles entre os quais são chamados a viver, ao mesmo tempo que expiarão, em uma série de existências penosas e por um duro trabalho, suas faltas passadas e seu endurecimento voluntário.

 

Quem serão eles entre esse bando novo para eles, ainda na infância da barbárie, senão anjos ou Espíritos pecadores envoltos em expiação? A Terra de onde foram expulsos, não será para eles um paraíso perdido? Não seria para eles um lugar de delícias em comparação com o meio ingrato aonde vão se encontrar relegados durante milhares de séculos, até o dia em que terão o mérito da libertação? A vaga lembrança intuitiva que conservam em si é para eles como uma miragem distante que os chama àquilo que perderam por sua falta.

 

45. – Mas, ao mesmo tempo em que os malvados partem do mundo que habitavam, eles são substituídos por Espíritos melhores, vindos, que seja, da erraticidade deste mesmo mundo, que seja de um mundo menos avançado onde tiveram o mérito de deixar e para os quais sua nova morada é uma recompensa. A população espiritual estando assim renovada e purgada de seus piores elementos, ao fim de algum tempo o estado moral do mundo se encontre melhorado.

 

Estas mutações são por vezes parciais, isto é, limitadas a um povo, a uma raça; por outras vezes, são generalizadas, quando o período de renovação for chegado para o globo.

 

46. – A raça adâmica tem todos os caracteres de uma raça proscrita; os Espíritos que dela fazem parte estiveram exilados sobre a terra, já povoada, mas por homens primitivos, mergulhados na ignorância, e que tiveram por missão fazer progredir, aportando entre eles as luzes de uma inteligência desenvolvida. Não será este, com efeito, o papel que esta raça preencheu até este dia? Sua superioridade intelectual prova que o mundo de onde saíram estava mais avançado que a Terra; mas este mundo devendo entrar em uma nova fase de progresso, e estes Espíritos, ante sua obstinação, não tendo sabido de colocar nesta altura, teriam sido deslocados tornando-se um entrave à marcha providencial das coisas; eis porque foram excluídos, ao passo que outros mereceram substituí-los.

 

Em relegando esta raça sobre esta terra de labor e de sofrimentos, Deus teve razão de lhes dizer: “Tu tirarás tua nutrição com o suor da tua fronte”. Em sua mansuetude, prometeu-lhe que lhe enviaria um Salvador, isto é, aquele que deveria esclarecer a respeito da rota a seguir por sair deste lugar de miséria, deste inferno e encontrar a felicidade dos eleitos. Este Salvador, Ele lhe enviou na figura do Cristo, que ensinou a lei de amor e de caridade desconhecida por eles e que deveria ser a verdadeira âncora de salvação. O Cristo tem não apenas ensinado a lei, mas deu o exemplo da prática desta lei, por sua mansuetude, sua humildade, sua paciência em sofrer sem murmúrio os tratamentos dos mais ignominiosos e as maiores dores. Para que uma tal missão fosse cumprida sem desvario, era preciso um Espírito livre das fraquezas humanas.

 

É igualmente em via de fazer avançar a humanidade em um senso determinado que Espíritos superiores, sem ter a qualidade do Cristo, encarnaram-se a seu tempo, sobre a Terra para aí cumprir missões especiais que aproveitam em seu adiantamento pessoal se executarem conforme as vistas do Criador.

 

47. – Sem a reencarnação, a missão do Cristo seria um contrassenso, tal como a promessa feita por Deus. Suponhamos, com efeito, que a alma de cada homem seja criada no ato do nascimento de seu corpo e que ela só faça aparecer e desaparecer sobre a Terra, não há nenhuma relação entre as que vieram após Adão até Jesus Cristo, nem as que vieram após; elas são todas estranhas umas às outras. A promessa de um Salvador feita por Deus não poderia se aplicar aos descendentes de Adão se suas almas ainda não tinham sido criadas. Para que a missão do Cristo pudesse se encaixar às palavras de Deus, era preciso que elas pudessem se aplicar às mesmas almas. Se estas almas são novas elas não podem ser correlatas com as faltas do primeiro pai que é apenas o pai carnal e não o pai espiritual; senão, Deus teria criado almas maculadas por uma falta que não teriam cometido. A doutrina vulgar do pecado original implica, pois, na necessidade de uma correlação entre as almas do tempo de Cristo e a do tempo de Adão, e, por consequência da reencarnação.

 

Ditas que todas essas almas faziam parte da colônia de Espíritos exilados sobre a Terra no tempo de Adão, e que elas estavam maculadas pela falta que as haviam feito exclusas de um mundo melhor, e vos teries a única interpretação racional do pecado original, pecado próprio a cada indivíduo, e não o resultado da responsabilidade da falta de um outro que jamais conhecera; ditas que tais almas ou Espíritos renasçam em diversas repetições sobre a terra na vida corpórea para progredir e se depurar; que o Cristo veio iluminar estas mesas almas não apenas para suas vidas ulteriores, e somente então vós dareis à sua missão um papel real e sério, aceitável pela razão.

 

48. – Um exemplo familiar, marcado por sua analogia, fará melhor compreender ainda os princípios que vieram a ser expostos:

 

Em 24 de maio de 1861, a fragata Ifigênia conduzira à Nova Caledônia uma companhia disciplinar composta de 291 homens. O comandante da colônia lhes endereçou, à sua chegada, uma ordem do dia assim concebida:

 

“Colocando o pé sobre esta terra longínqua, já cumpristes o papel que vos está reservado.

 

“A exemplo de nossos bravos soldados da marinha servindo sob vossos olhos, vós nos ajudareis a levar com claridade, ao meio das tribos selvagens da Nova Caledônia, a bandeira da civilização. Não é uma bela e nobre missão, eu vos indago? Vós a enchereis dignamente.

 

“Escutai a voz e os conselhos de vossos chefes. Estou na sua cabeça; que minhas palavras sejam bem entendidas.

 

“A escolha de vosso comandante, de vossos oficiais, de vossos suboficiais e cabos é uma segura garantia de todos os esforços que serão tentados para fazer de vós excelentes soldados; eu digo mais, para vos elevar à altura de bons cidadãos e vos transformas em colonos honrados se o desejardes.

 

“Vossa disciplina é severa; deve sê-la. Colocada em nossas mãos, ela será firme e inflexível, sabei-o bem; como também, justa e paternal, ela saberá distinguir o erro do vício e da degradação…”

 

Eis, pois homens expulsos por suas más-condutas, de um país civilizado e enviados, por punição, para o meio de um povo bárbaro. Que lhe diz o chefe? “Afrontastes as leis de vosso país; lá, causastes embaraços e escândalos, e então, fostes enxotados; e vos enviaram para aqui, mas podereis aqui resgatar vosso passado; podereis, pelo trabalho, aqui criar um posição honrada e tornarem-se honestos cidadãos. Ter-vos-á, uma bela missão a preencher, a de levar a civilização entre as tribos selvagens. A disciplina será severa, mas justa, e saberemos distinguir os que se conduzirem bem.”

 

Para esses homens relegados ao seio da selvageria, a mãe pátria, não será ela um paraíso perdido pelas suas faltas e por sua rebelião à lei? Sobre esta terra longínqua, não seriam anjos decaídos? A linguagem do chefe não seria a que Deus fez entender aos Espíritos exilados sobre a Terra: “Haveis desobedecido a minhas leis e é por isso que vos tenho banido do mundo onde poderíeis viver felizes e em paz; aqui sereis condenados ao trabalho, mas podereis, por vossa boa conduta, merecer vosso perdão por vossa falta, a dizer, o céu?”

 

49. – À primeira abordagem, a ideia de decaídos parece em contradição com o princípio de que os Espíritos não possam regredir; mas é necessário considerar que não se cogita de um retorno ao estado primitivo; o Espírito, embora em uma posição inferior, não perde nada daquilo que adquiriu; seu desenvolvimento moral e intelectual é o mesmo, qualquer que seja o meio onde se encontre colocado. É na posição do homem do mundo condenado à prisão por seus malfeitos; certamente, ele está decaído ao ponto de vista social, porém, não se tornou nem estúpido, nem mais ignorante.

 

50. – Crer-se-ia agora que estes homens enviados à Nova Caledônia vão se transformar subitamente em modelos de virtude? Que vão abjurar, de um só golpe seus erros passados? Não seria preciso conhecer a humanidade para supô-lo. Pela mesma razão, os Espíritos da raça adâmica, uma vez transferidos para a Terra do exílio, não teriam despojado instantaneamente seu orgulho e seus instintos maus; por longo tempo, ainda, conservaram suas tendências de origem, um resquício do velho fomento; ora, não é este o pecado original? A nódoa que eles trazem de nascença é a da araçá de Espíritos culpados e punidos àqueles a quem o caiba; tarefa que podem afastar pelo arrependimento, a expiação e a renovação do seu ser moral. O pecado original, considerado como a responsabilidade de uma falta cometida por um outro, é uma falta de senso e a negação da justiça de Deus; considerado, ao contrário, como consequência e saldo de uma imperfeição primária do indivíduo, não apenas a razão o admite, mas, encontra-se de total justiça a responsabilidade que provenha dela.

 

NOTA

 

(1) Quando, na Revista Espírita de janeiro de 1862, publicamos um artigo sobre a interpretação da doutrina dos anjos decaídos, apresentamo-la apenas como uma hipótese, tendo somente a autoridade de uma opinião pessoal controversa, já que, então, faltava-nos elementos assaz completos para uma afirmação absoluta. Demo-la a título de ensaio, com vistas de provocar o exame, bem determinado a abandoná-lo ou a modificá-lo, se houvesse lugar. Atualmente, esta teoria sofreu a prova do controle universal; não somente foi acolhida pela grande maioria dos Espíritos como a mais racional e de acordo com a soberana justiça de Deus, mas ela foi confirmada pela generalidade das instruções dadas pelos Espíritos sobre este assunto. É o mesmo que concerne à origem da raça adâmica.

 

NOTAS DO TRADUTOR

 

(a) Com a “teoria do nada”, isto é, o peso sem massa descoberto pelos astrofísicos, a Ciência caminha célere para admitir que, de fato, existam dois fundamentos na existência do Universo: a energia constituinte do mundo material e das formas, correspondente a 23% do mesmo e algo mais que até então não foi possível caracterizar, compondo os 73% restantes. Mas, é preciso que o Espiritismo caminhe pelas trilhas traçadas por Kardec para que possa influir junto aos cientistas, na proposição da existência da Espiritualidade. Enquanto insistirem em transformar o Espiritismo em mais uma seita evangélica, esta posição não será alcançada.

 

(b) Na época de Kardec, tudo o que transcendia ao conhecimento da Ciência era considerado “fluido”. Atualmente o que se dizia “fluido perispiritual” é conhecido como “energia parapsíquica”, ou seja, correlata com a vida além da alma, transcendendo à matéria. O mesmo conceito no item seguinte, referente a “laço fluídico”.

 

(c) Segundo pesquisas feitas no final do século XX, a vida celular orgânica persiste após o trespasse, por algum tempo e vai se deteriorando gradativamente, com maior ou menor velocidade, dependendo de cada caso. Por esse motivo, aceita-se a existência tácita deste campo perispiritual de que fala Kardec e que abandona o corpo no ato da morte; ele já foi detectado por espectrógrafos; os russos o denominam de psicossoma, embora não seja um corpo, mas um campo de energia parapsíquica.

 

(d) Se compararem os itens 42 e 43 com as edições roustaingistas, o leitor verá que eles foram abolidos das mesmas porque nega a tese do anjo decaído, no caso, Lúcifer, que teria se rebelado contra Deus. Parece, mesmo, que Kardec tenha inserido tais itens para combater a tese docetista.

 

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