03 – Capítulo III – O Bem e o Mal

CAPÍTULO III – O BEM E O MAL

Fonte do bem e do mal – O instinto e a inteligência
– Destruição dos seres vivos, uns pelos outros

FONTE DO BEM E DO MAL

1. – Deus sendo o princípio de todas as coisas e, este princípio sendo toda sabedoria, toda bondade, toda justiça, tudo que procedendo do que deva participar destes atributos, já que é infinitamente sábio, justo e bom, jamais poderia produzir algo insensato, de maldade ou de injustiça. O mal que observamos não deve, pois, ter sua fonte n’Ele.

2. – Se o mal estiver nas atribuições de um ser especial que se denomine Ariman ou Satã, das duas, uma, ou este Ente seria igual a Deus e, por consequência, também poderoso e eterno como Ele, ou lhe seria inferior.

No primeiro caso, admitir-se-iam dois poderes rivais, lutando sem cessar, cada qual a destruir o que o outro faça e se contrapondo mutuamente. Esta hipótese é inconciliável com a unidade de vida que se revela na disposição do Universo.

No segundo caso, se este ente for inferior a Deus, estar-lhe-á subordinado; não podendo, assim, se tornar eterno como Ele, sem que Lhe seja igual, será, pois, um princípio; se ele foi criado, não poderia ter sido por Deus; Deus teria, assim, criado o Espírito do mal, o que seria a negação de sua infinita bondade. (a)

3. – Conforme certa doutrina, (b) o Espírito do mal, criado bom, seria transformado em mal e Deus, para lhe punir ter-lhe-ia condenado a se tornar eternamente malvado, e lhe teria dado por missão seduzir os homens a fim de lhes induzir o mal; opulência uma só queda podendo merecer-lhe os mais cruéis castigos eternos, sem esperança de perdão, haveria aí mais que uma falta de bondade, porém, uma crueldade premeditada, pois por encontrar a sedução mais fácil e melhor ocultar a armadilha, Satã estaria autorizado a se transformar em anjo de luz e a simular as mesmas obras divinas até mesmo se equivocar. Seria de séria inquietude e imprevidência da parte de Deus, pois toda liberdade confiada a Satã de sair do império das trevas e de se entregar aos prazeres mundanos para arrastar os homens, o provocador do mal teria menor punição que as vítimas de suas astúcias que sucumbe por fraqueza, uma vez que, no abismo, de lá não mais poderiam sair. Deus lhe recusa um vidro de água por mitigar-lhe a sede e, durante toda a eternidade decide, ele e seus anjos, seus queixumes sem se deixar comover, ao passo que permite a Satã todo o gozo que desejar.

Dentre todas as doutrinas sobre a teoria do mal, esta, sem dúvida, seria a mais irracional e a mais injuriosa para a divindade. (Ver Céu e Inferno – Cap. X – Os demônios)

4. – Entretanto, o mal existe e possui uma causa.

O mal é de todas as sortes. Há, em princípio, o mal físico, o mal moral, além disso, os males que o homem pode evitar e os que são independentes de sua vontade. Entre estes, é preciso colocar os flagelos naturais.

Em suas faculdades, o homem é limitado, não pode penetrar nem se abranger conjuntamente à visão do Criador; julga as coisas ao ponto de vista de sua personalidade, dos interesses de facções e de convenções que cria e que não estão absolutamente na ordem natural; é por isso que ele encontra frequentemente maldades e injustiça que considera justa e admirável, se visse a causa, a meta e o resultado definitivo. Procurando a razão de ser e a utilidade de cada coisa. Ele reconhecerá que tudo leva a marca da sabedoria infinita e se curvará ante tal sabedoria, mesmo pelas coisas que não compreenda.

5. – O homem recebeu como quinhão uma inteligência com o auxílio da qual pode conjurar, ou, pelo menos, atenuar grandemente os efeitos de todos os flagelos naturais; mais ele adquire em saber e avança em civilização, menos estes flagelos se tornam desastrosos; com uma organização social sabiamente previdente, ele poderá, até, neutralizar tais consequências, já que nem poderão ser evitados inteiramente. Assim, pelos seus próprios flagelos que possuam suas próprias utilidades na ordem geral da natureza e pelo futuro, porém, que ferem no presente, Deus tendo dado ao homem, por suas faculdades das quais deu seu Espírito, os meios de assim paralisar os efeitos.

É assim que se saneiam os sítios insalubres, que se neutralizam os miasmas empestados, que se fertilizam as terras incultas e engenha a preservação de inundações; que se constroem habitações mais saídas, mais sólidas para resistir aos ventos tão necessários à depuração da atmosfera, que se põe ao abrigo das intempéries; é assim, finalmente, que, pouco a pouco, a necessidade faz criar as ciências para auxílio dos quais aperfeiçoa as condições de habitabilidade do globo e amplia a soma de seu conforto.

O homem devendo progredir, os males aos quais está exposto, são um estímulo para o exercício de sua inteligência, de todas as suas faculdades físicas e morais, convidando-o à pesquisa dos meios de se preservar. Se nada houvesse que recear, nenhuma necessidade o levaria à pesquisa do que seja melhor; ele se entorpeceria na iniciativa de seu espírito; nada inventaria e nada descobriria. A dor é o aguilhão que impulsiona o homem adiante na estrada do progresso.

6. – Todavia, os males mais numerosos são aqueles que o homem a si criou pelos seus próprios vícios, os provenientes de seu orgulho, de seu egoísmo, de sua ambição, da cupidez, de seus excessos em tudo: eis, pois, a causa das guerras e das calamidades que arrastam, dissensões, injustiças, opressão do fraco pelo forte, enfim, da maioria das doenças.

Deus estabeleceu leis plenas de sabedoria que não têm senão por alvo o bem; o homem encontra em si mesmo tudo o que se torna necessário para a sequência; sua rota é traçada por sua consciência; a lei divina fica gravada em seu coração; além do mais, Deus os faz chamar sem interrupção, por seus messias e seus profetas, pelos Espíritos encarnados que receberam missão de clarear, de moralizá-lo, de aperfeiçoá-lo, e nestes últimos tempos, pela multidão de Espíritos desencarnados que se manifestam em todas as partes. Se os homens se conformassem rigorosamente às leis divinas, não seria incerto que ele evitaria os males mais pungentes e que, como tal, viveria venturoso sobre a terra. Se não o faz, é em virtude (decorre) do seu livre arbítrio e, em súbito, as consequências. (c)

7. – Contudo, Deus, pleno de bondade, colocou o remédio ao lado do mal, a dizer que do próprio mal faz nascer o bem. Chega um momento em que o excesso do mal moral se torna intolerável e faz sentir ao homem a necessidade de trocar de vida; instruído pela experiência, ele é compelido a procurar um remédio no bem, sempre por um efeito do seu livre arbítrio; logo que entra em um caminho melhor, é feito por sua vontade e porque reconheceu as inconveniências do outro caminho. A necessidade o obriga, pois, a se aperfeiçoar moralmente em via de ser mais feliz como esta mesma necessidade o tenha forçado a aperfeiçoar s condições materiais de sua existência.

Pode-se dizer que o mal é a ausência do bem, como o frio é a abstinência do quente. O mal não é mais um atributo distinto assim como o frio não é um fluido especial; um vem a ser a negação do outro. No lugar em que o bem não existe, haverá forçosamente o mal; não fazer o mal já é o começo do bem. Deus só quer o bem. Do homem, somente, é que provém o mal. Se houvesse na Criação um ser preposto ao mal, o homem não o poderia evitar; contudo, sendo o homem a causa do mal em si próprio e possuindo, ao mesmo tempo, seu livre arbítrio e por guia as leis divinas, ele o evitará quando bem entender.

Tomemos um fato vulgar para comparação. Um proprietário sabe que a extremidade do seu campo é um sítio perigoso onde poderá perecer ou se ferir quem por lá se aventurar. Que faz ele para se prevenir dos acidentes? Coloca próximo do lugar um aviso portando proibição para se ir mais além por causa do perigo. Eis a lei; ela é sábia e previdente. Se, apesar disso, um imprudente não tiver dado conta e ultrapasse o local, dando-se mal, a quem poderá ele responsabilizar senão a si próprio?

Assim o é com todo mal. O homem o evitaria se observasse as leis divinas. Deus, por exemplo, colocou um limite à satisfação das necessidades; o homem fica advertido pela saciedade; se ultrapassar esse limite fá-lo-á voluntariamente. As doenças, as fraquezas do corpo, a morte que pode advir delas, são, pois, seu feito e não oriundo de Deus.

8. – O mal, sendo o resultado das imperfeições do homem e sendo o homem criado por Deus, este Deus dir-se-á, pelo menos, se não criou o mal, pelo menos, terá criado a causa dele; se fizesse o homem perfeito, o mal não existiria.

Tivesse sido o homem criado perfeito ele seria fatalmente portador do bem; ora, em virtude de seu livre arbítrio, ele não é obrigatoriamente portador nem do bem nem do mal. Deus quis que ele fosse submetido à lei do progresso e que tal progresso fosse fruto do seu próprio trabalho, a fim de que o mérito fosse seu, mesmo portando a responsabilidade do mal que é feito por sua vontade. A questão, pois, é de saber qual é, no homem, a fonte da propensão ao mal (1).

9. – Se estudarmos todas as paixões, e mesmo, todos os vícios, veremos que eles têm seus princípios no instinto de conservação. Este instinto encontra-se, com toda sua força nos animais e entre os seres primitivos que mais se aproximam da animalidade; aí, domina sozinho, porque, entre eles ainda não existe o contrapeso do senso moral; o ser ainda não nasceu para a vida intelectual. O instinto se debilita, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque assim domina a matéria; com a inteligência racional, nasce o livre arbítrio o qual o homem usa a seu capricho; então, exclusivamente cabe a ele a responsabilidade dos seus atos.

10. – O destino do Espírito é a vida espiritual; mas, na primeira fase de suas existência corpórea, ele só possui necessidades materiais para satisfazer, e, para tal, o exercício das paixões e uma necessidade de conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. Porém, saindo deste período, possui outras necessidades, necessidades a princípio semi-morais e semi-materiais, e depois, exclusivamente morais. É, então, que o Espírito domina a matéria; ele se sacode em cativeiro, avança pela vida providencial e se aproxima de seu destino final. Se, ao contrário, ele se deixa dominar pela matéria, ele se retarda na assimilação da estupidez. Nesta situação, o que era outrora um bem, porque representava uma necessidade da sua natureza, torna-se em mal, não apenas porque seja uma necessidade, mas porque se torna nocivo à espiritualização do ser. O mal é assim relativo, e a responsabilidade proporcional ao grau de adiantamento.

Todas as paixões têm, dessa forma, sua utilidade providencial, sem o que Deus teria feito algo inútil e desnecessário; é o abuso que constitui o mal, e o homem abusa decorrente do seu livre arbítrio. Mais tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, ele escolhe livremente entre o bem e o mal.

O INSTINTO E A INTELIGÊNCIA

11. – Qual a diferença entre o instinto e a inteligência? Onde termina um e começa outra? O instinto é ele uma inteligência rudimentar, ou então uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?

O instinto é a força oculta que leva os seres orgânicos a atos espontâneos e involuntários, visando à sua conservação. Nos atos instintivos, não existe nem reflexão, nem combinação, nem premeditação. É assim que a planta procura o ar, volta-se para a luz, encaminha suas raízes para a água e a terra nutritiva; que a flor se abre e se fecha alternativamente conforme a necessidade; que as plantas trepadeiras se enroscam em volta do apoio, ou se penduram com suas gavinhas. É pelo instinto que os animais são advertidos do que lhes seja útil ou nocivo; que eles se dirigem, conforme as estações, para os climas propícios; que eles constroem, sem lições preliminares, com maior ou menor arte, de acordo com a espécie, seus ninhos macios e abrigos para sua prole, engenhos para pegar em armadilhas a presa com a qual se nutrem; que manejam com destreza as armas ofensivas e defensivas de que são dotados; que os sexos se reaproximam; que a mãe esconde seus filhotes e que estes procurem o seio materno. Entre os homens, o instinto o domina exclusivamente no começo da vida; é por instinto que a criança faz seus primeiros movimentos, que se agarram à nutrição, que gritam para exprimir seus desejos, que imita o som da voz, que se ensaia à fala e a caminhar. Entre os adultos, mesmo, certos atos são instintivos; tais são os movimentos espontâneos para se aparar de um risco, para se livrar de um perigo, para se manter em equilíbrio; tais são ainda, a piscadela das pálpebras para moderar a claridade da luz, a abertura instintiva da boca para respirar, etc.

12. – A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premeditados, combinados conforme a oportunidade das circunstâncias. É incontestavelmente um atributo exclusivo da alma.

Todo ato maquinal é instintivo; o que denota a reflexão e a combinação é a inteligência; um é livre a outra não o é.

O instinto é um guia seguro que não se engana nunca; a inteligência, por sua vez, por ser livre, está sujeita a erros.

Se o ato instintivo não tem o caráter do ato inteligente, ele revela, entretanto uma causa inteligente essencialmente previdente. Admitindo-se que o instinto tem sua fonte na matéria, torna-se preciso admitir que a matéria seja inteligente, mais seguramente inteligente até e previdente que a alma, já que o instinto não se engana, ao passo que a inteligência se engana.

Si se considera o instinto como uma inteligência rudimentar, como se quer que seja, em certos casos, superior à inteligência racional? Que lhe dá a possibilidade de executar coisas que ele próprio não pode produzir?

Se ele é um atributo de um princípio espiritual especial, o que causa este princípio? Depois que o instinto se apaga, este princípio seria, pois destruído? Se os animais só são dotados de instinto, seu porvir fica sem resultante; seus sofrimentos não têm nenhuma compensação; Não seria conforme nem à justiça nem à bondade de Deus.

13. – Conforme um outro sistema, o instinto e a inteligência teriam um só e mesmo princípio; chegado a um certo grau de desenvolvimento, este princípio que, à primeira vista, teria apenas as qualidades do instinto, experimentaria uma transformação que lhe daria as da inteligência livre; receberia, numa palavra, o que se convencionou chamar de faísca divina. Esta transformação não seria súbita, mas gradual, de tal sorte que, durante um certo período, estaria misturado das duas aptidões, a primeira diminuindo à medida que a segunda aumentasse.

14. – Enfim, uma outra hipótese, que, de resto, se alia perfeitamente à ideia de unidade de princípio, ressalta o caráter essencialmente preventivo do instinto e concorda com o que o Espiritismo nos ensina, atingindo os relatórios do mundo espiritual e do mundo corporal.

Sabe-se, atualmente que os espíritos desencarnados têm por missão velar pelos encarnados, pois, eles são os protetores e os guias; que os cumulam com seus eflúvios fluídicos; que o homem atua frequentemente de uma maneira inconsciente sob ação desses eflúvios.

Sabe-se, ainda que, o instinto, que ele próprio produz dos atos inconscientes, predomina entre as crianças e, em geral, entre os seres em que a razão é frágil. Ora, de acordo com esta hipótese, o instinto não seria um atributo nem da alma nem da matéria; ele não pertenceria absolutamente ao ser vivo, mas, seria um efeito da ação direta dos protetores invisíveis que supririam a imperfeição da inteligência, provocando, eles próprios, os atos inconscientes necessários à conservação do ser. Seria como o limite à ajuda daqueles em sustentação à criança que ainda não sabe caminhar. Mas assim mesmo, suprime-se gradualmente o uso do apoio à medida que a criança se mantenha só, os espíritos protetores deixam-no por si de lhes proteger à medida que possam se guiar pela própria inteligência.

Assim, o instinto, longe de ser o produto de uma inteligência rudimentar e incompleta, seria a atuação de uma inteligência estranha na plenitude de sua força, suprindo a insuficiência, seja de uma inteligência mais jovem que ela compeliria a fazer inconscientemente para seu bem o que fosse ainda incapaz de fazer por si própria, seja de uma inteligência madura, mas momentaneamente tolhida no uso de suas faculdades, assim como tem lugar no homem durante sua infância e nos casos de idiotice e de afecções mentais.

Diz-se proverbialmente que há um Deus para as crianças, os loucos e os ébrios; tal dito é mais que verdadeiro do que se creia; este Deus não é senão o Espírito protetor que vela pelo ser incapaz de se proteger por sua própria razão.

15. – Nesta ordem de ideias, podemos ir mais longe. Esta teoria, por mais racional que seja, não resolve todas as dificuldades da questão. Para reencontrar as causas, é preciso estudar os efeitos e pela natureza dos efeitos pode-se concluir a natureza da causa.

Observando-se os efeitos do instinto, distingue-se, a princípio, uma unidade de vista e de conjunto, uma segurança de resultados que não existe mais desde que o instinto é trocado pela inteligência livre; ademais, à apropriação tão perfeita e tão constante das faculdades instintivas às necessidades de cada espécie, reconhece-se uma profunda sabedoria. Esta unidade de visão não poderia existir sem a unidade de pensamento e, por com consequência com a multiplicidade das causas atuantes. Ora, para sequência do progresso que cumprissem incessantemente as inteligências individuais, há entre elas uma diversidade de aptidões e de vontades incompatível com esse conjunto tão perfeitamente harmonioso que se produziu após a origem dos tempos e em todos os climas, com uma regularidade e uma precisão matemáticas, sem jamais causar defeito. Esta uniformidade no resultado das faculdades instintivas é um fato característico que acarreta forçosamente a unidade da causa; se esta causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tanto variedade de instinto quanto de indivíduos, desde os vegetais até o homem. Um efeito geral, uniforme e constante, deve ter uma causa geral uniforme e constante; um efeito que acuse a sabedoria e a previdência deve ter uma causa sábia e previdente. Ora, uma causa sábia e previdente, sendo necessariamente inteligente, jamais poderá ser material.

Não encontrando nas criaturas encarnadas ou desencarnadas, as qualidades necessárias para produzir um tal resultado, torna-se preciso remontar mais alto, a saber, ao próprio Criador. Si se reportar à explicação que foi dada sobre a maneira pela qual se pode conceber a ação providencial (cap. II, n° 25); si se figurar todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente inteligente, compreender-se-á a sabedoria previdente e a unidade de visão que presidem a todos os movimentos instintivos para o bem de cada um. Esta solicitude é igualmente mais ativa quando o indivíduo tem menos recursos próprios em sua inteligência; é por isso que ela se mostra maior e mais absoluta entre os animais e os entes inferiores que nos homens.

Desta teoria compreende-se que o instinto seja um guia sempre seguro. O instinto maternal, o mais nobre de todos, que o materialismo rebaixa ao nível das forças atrativas da matéria, encontra-se relevado e enobrecido. Em razão de suas consequências, não seria preciso que fosse liberado às eventualidades caprichosas da inteligência e do livre arbítrio. Pelo órgão da mãe, Deus, ele mesmo, vela sobre os nascituros.

16. – Esta teoria não destrói de nenhuma maneira o papel dos Espíritos protetores cujo concurso é um fato obtido e provado pela experiência; mas é de notar que a ação desses aí é essencialmente individual; que se modifica conforme as qualidades próprias do protetor e do protegido e que em nenhuma parte não tem a uniformidade e a generalidade do instinto. Deus, em sua sabedoria, conduz, ele próprio, os cegos, mas ele confia a inteligências livres a sorte de conduzir os que enxergam a fim de deixar para cada um a responsabilidade de seus atos. A missão dos Espíritos protetores é um dever que eles aceitam voluntariamente e que é para eles um meio de adiantamento segundo a maneira pela qual eles realizam.

17. – Todas estas maneiras de encarar o instinto são necessariamente hipotéticas, e algumas não têm um caractere suficiente de autenticidade para se dar como solução definitiva. A questão será certamente resolvida um dia, quando tiver reunido os elementos de observação que faltam ainda; até lá é preciso se limitar a submeter as opiniões diversas ao cadinho da razão e da lógica, e esperar que a luz se faça; a solução que mais se aproxima da verdade, será necessariamente aquela que corresponda ao máximo aos atributos de Deus, isto é, à soberana bondade e à soberana justiça (ver cap. II, n°. 19)

18. – O instinto sendo o guia e as paixões a mola das almas no primeiro período de seu desenvolvimento, confunde-se algumas vezes com seus efeitos, e, sobretudo, na linguagem humana que não se presta sempre suficientemente à expressão de todos os matrizes. Há, entretanto entre estes dois princípios, diferenças que se tornam essenciais considerar.

O instinto é um guia seguro, sempre bom; a seu tempo, torna-se inútil, mas jamais nocivo; ele se debilita pela predominância da inteligência.

As paixões, nas primeiras idades da alma, têm tal coisa de comum com o instinto, que os seres aí são solicitados por uma força igualmente inconsciente. Elas nascem mais particularmente das necessidades do corpo e têm mais que o instinto com o organismo. O que as distingue, sobretudo, do instinto, é que são individuais e não produzem, como este último, efeitos gerais e uniformes; vê-se os ao contrário variar de intensidade e de natureza conforme os indivíduos. São úteis como estimulante, até a eclosão do senso moral que, de um ser passivo faz um ser racional; neste momento, elas se tornam não mais somente inúteis, mas nocivas ao adiantamento do Espírito pois retardam a desmaterialização; elas se debilitam com o desenvolvimento da razão.

19. – O homem que só agisse constantemente por instinto, poderia ser muito bom, mas deixaria dormir sua inteligência; seria como o menino que não deixasse os limitadores e não saberiam se servir de seus membros. O que não domina suas paixões pode ser muito inteligente, mas, ao mesmo tempo muito malvado. O instinto se aniquila por si mesmo; as paixões não se dominam senão pelo esforço da vontade.

Todos os homens têm passado pela fieira das paixões; os que não as tenham mais, que não sejam por natureza nem orgulhosos nem ambiciosos, nem egoístas, nem rancorosos, nem vingativos, nem cruéis, nem coléricos, nem sensuais, que fazem o bem sem esforços, sem premeditação e, por assim dizer, involuntariamente, é que têm progredido na sequência de suas existências anteriores; eles estão purgados da gurma (d). É injustiça quando se diz que eles têm menos mérito por fazer o bem do que os que tenham que lutar contra suas tendências; para eles, a vitória é alcançada; para os outros ainda não o é e quando o for, serão como os outros: a seu turno, farão o bem sem nele pensar, como crianças que leem correntemente sem mais ter necessidade de soletrar; são como dois males, pois, um está curado e cheio de força, enquanto que o outro está ainda em convalescença e hesita em caminhar; são, enfim, como dois corredores onde um está mais próximo da meta que o outro.

DESTRUIÇÃO DOS SERES VIVOS UNS PELOS OUTROS

20. – A destruição recíproca dos seres vivos é uma lei da natureza, que ao primeiro encontro parece tão pouco quanto possível se conciliar com a bondade de Deus. Pergunta-se por que tê-lo-ia feito uma necessidade de se interdestruírem para se nutrirem na dependência uns dos outros.

Para aquele que não vê que a matéria que limita sua visão à vida presente, a isto parece, com efeito, uma imperfeição na obra divina; de onde, esta conclusão que a tiram os incrédulos, que Deus não sendo perfeito, não exista Deus. É que julgam a perfeição de Deus pelo seu ponto de vista; seu próprio julgamento é a medida de sua sabedoria e pensam que Deus não teria melhor feito do que eles mesmos. Sua curta visão, não lhes permitindo julgar de acordo, eles não compreendem que uma boa realidade pode sair de um mal aparente. O conhecimento do princípio espiritual, considerado em sua essência verdadeira, e da grande lei de unidade que constitui a harmonia da Criação, pode somente dar ao homem a chave deste mistério e lhe mostrar a sabedoria providencial e a harmonia precisamente, além, onde ele veria apenas uma anomalia e uma contradição. Ele está para esta verdade como uma multidão de outros; o homem não está apto de sondar certas profundezas até que seu espírito se encontre em um degrau suficiente de maturidade.

21. – A verdadeira vida, tanto do animal quanto a do homem, não mais está no envoltório corporal como não estaria numa veste; ela está no princípio inteligente que pré-existe e sobrevive ao corpo. Este princípio tem carência do corpo para se desenvolver pelo trabalho que deva executar sobre a matéria bruta; o corpo se consome neste trabalho, mas o espírito não se consome, ao contrário: ele o sai a cada vez mais fortalecido, mais lúcido e mais capaz. Que importa, pois que o espírito troque mais ou menos vezes de envoltório! Não se torna menos Espírito; é absolutamente como se um homem renovasse cem vezes suas vestes por ano; não menos seria o mesmo homem.

Pelo espetáculo incessante da destruição, Deus ensina aos homens o pouco caso que devam fazer do envoltório material e suscita neles a idéia da vida espiritual fazendo-lhe com que a deseje como uma compensação.

Deus, dir-se-á, não poderia chegar ao mesmo resultado por outros meios, e sem sujeitar os seres vivos a destruírem entre si? Bastante temerário aquele que pretenda penetrar nos desígnios de Deus! Se tudo é sabedoria em sua obra, devemos supor que tal sabedoria não deva apresentar nenhum defeito sobre este aspecto como sobre quaisquer outros; se não o compreendemos, devemos nos prender a nosso pouco adiantamento. Contudo, podemos tentar, em busca da razão, tomando por bússola este princípio: Deus deve ser infinitamente justo e sábio; procuremos, pois, em toda sua justiça e sua sabedoria e curvemo-nos ante o que excede nosso entendimento.

22. – Uma primeira utilidade que se apresenta nesta destruição, utilidade puramente física, em verdade, é esta: os corpos orgânicos só se conservam com a ajuda das matérias orgânicas, tais matérias contendo apenas os elementos nutritivos necessários à sua transformação. Os corpos, instrumentos da ação do princípio inteligente, tendo necessidade de ser incessantemente renovados, a Providência os faz servir à sua manutenção mútua; é por aí que os seres se nutrem uns dos outros; é então que os corpos se nutrem dos corpos, mas o Espírito não se torna destruído nem alterado; ele, apenas se torna desprovido de seu envoltório.

23. – Está em outra das considerações morais de uma ordem mais elevada.

A luta é necessária ao desenvolvimento do Espírito; é na luta que ele exerce suas faculdades. O que ataca por ter sua nutrição e o que se defende para conservar sua vida rivalizam-se em astúcia e inteligência e aumentam, por eles mesmos, suas forças intelectuais. Um dos dois sucumbe; mas, o que é que o mais forte ou o mais sagaz tirou do mais fraco em realidade? Seu vestuário de carne, sem outra coisa; o Espírito, que não está morto, retomará a si um outro mais tarde.

24. – Nos seres inferiores da Criação, naqueles em que o senso moral não existe ou a inteligência não tenha ainda instalado o instinto, a luta não saberia ter por motivo senão a satisfação duma necessidade material; ora, uma das necessidades materiais mais imperiosas é a da nutrição; eles lutam, pois, unicamente para viver, ou seja, por tomar ou defender uma presa, porque não seriam seres estimulados por um motivo mais elevado. É neste primeiro período que a alma se elabora e se ensaia para a vida. Assim que ela atinge o degrau da maturidade necessária para sua transformação, recebe de Deus novas faculdades: o livre arbítrio e o senso moral, a centelha divina, em uma palavra, que dão um novo curso a suas ideias, dotando-a de novas aptidões e de novas percepções.

Mas as novas faculdades morais das quais ela é dotada desenvolvem-se apenas gradualmente porque nada é brusco na natureza; há um período de transição onde o homem se distingue somente do estúpido; nas primeiras idades, o instinto animal domina e a luta tem ainda por motivo a satisfação das necessidades materiais; mais tarde, o instinto animal e o sentimento moral se contrabalançam; o homem, então, luta, não mais para se nutrir, mas para satisfazer sua ambição, seu orgulho, sua necessidade de domínio: para isto, é preciso ainda destruir. Mas à medida que o senso moral se torna superior, a sensibilidade se desenvolve, a necessidade da destruição diminui; acaba, mesmo, por se apagar e por tornar-se odioso: o homem tem horror do sangue.

Contudo a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do Espírito, porque, mesmo chegado a este ponto que nos parece culminante está longe de ser perfeito; é, apenas, um prêmio de sua atividade que ele obtém dos conhecimentos, da experiência e que se despoja dos últimos vestígios da animalidade; mas, então a luta, de sanguinária e brutal que era, torna-se puramente intelectual; o homem luta contra as dificuldades e não mais contra seus semelhantes. (2)

NOTAS

(1) O erro consiste em pretender que a alma sairia perfeita das mãos do Criador, então que este, ao contrário, tenha querida que a perfeição fosse o resultado da depuração gradual do Espírito e sua obra própria. Deus quis que a alma, em virtude de seu livre arbítrio, pudesse optar entre o bem e o mal, e que ela chegará a seus objetivos finais por uma vida militante e resistindo ao mal. Se Ele fizesse a alma perfeita como ele próprio, em saindo das suas mãos, tendo associado à sua beatitude eterna, lê teria feito não à sua imagem mas semelhante a ele mesmo, tal como já dissemos. Conhecendo todas as coisas em virtude da sua essência e sem ter nada aprontado, mudado por um sentimento de orgulho, nascido da consciência de seus atributos divinos. Ela teria sido arrastada a negar sua origem, a desconhecer o autor de sua existência, e estaria constituída em estado de rebelião, de revolta para com seu Criador. (Bonnamy, juiz de instrução: A razão do Espiritismo, cap. VI)

(2) Esta questão se prende àquela, não menos grave, em relação à animalidade e à humanidade, que será tratada ulteriormente. Nós, apenas, quisemos demonstrar por esta explicação, que a destruição dos seres vivos de uns pelos outros, não invalida em nada a sabedoria divina e que tudo se encaixa nas leis da natureza. Está encadeado e necessariamente quebrado si se fizer a abstração do princípio espiritual; é porque tanto questões são insolúveis quanto só se considere a matéria.

NOTAS DO TRADUTOR

(a) Atualmente, alguns pesquisadores, ante descoberta de certos documentos da era em que Jesus viveu na Galileia, admitem que os gnósticos, heterodoxos mais próximos seguidores do mestre e ditos cristãos do primeiro momento, como Simão, o Mago, admitiam a existência de dois deuses distintos, um do bem, que enviara Jesus à Terra e outro do mal, que tentava desvirtuar os homens, tese esta que hipoteticamente seria pregada por Pedro, em Roma mas que, por não ser compatível com a doutrina de Constantino que seguia e aceitava a lenda egípcia do Deus Sol, monoteísta, exigiu que a nova doutrina dita cristã também se tornasse monoteísta, daí, terem os sábios da época se servido do apóstolo Paulo, em vez de usar os ensinamentos de Pedro para instituírem a Igreja Romana.

(b) Leia-se: roustaingismo, motivo pelo qual este item foi supresso de certas traduções facciosas.

(c) Vê-se, aqui, Kardec tentando contemporizar a ideia de Deus justo e perfeito, com a existência do mal sem ferir os preceitos cristãos estabelecidos, todavia, por falta total de conhecimentos – e que perduram até a presente data – ele não teve condições de melhor explicar a existência do mal senão pela hipótese de que seria algo necessário para a evolução espiritual. Filósofos há que o bem só pode existir havendo o mal porque um caracteriza a existência do outro, tal como o claro e o escuro, o alto e o baixo e assim por diante, como será visto adiante.

(d) Gruma é cancro, pelagra, enfim, mal contagioso.

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