02 – Capítulo II – Deus

Capítulo II – DEUS

Existência de Deus – Da natureza divina – A Providência – A vista de Deus

EXISTÊNCIA DE DEUS

1. – Deus sendo a causa primeira de todas as coisas, o ponto de partida de tudo, o eixo sobre o qual repousa o edifício da Criação, é o ponto que importa considerar antes de tudo.

Ele é, de princípio, elementar que se julga de uma causa pelos seus efeitos, até mesmo que não se veja a causa. A Ciência vai mais longe: calcula o poder da causa pelo poder do efeito, e pode mesmo determinar a natureza. É assim, por exemplo, que a Astronomia conclui a existência de planetas em regiões determinadas do espaço, pelo conhecimento das leis que regem o movimento dos astros; tem-se procurado e tem-se encontrado os planetas que se pode, em realidade, dizer-se que tenha sido descoberto antes de ter sido visto.

2. – Numa ordem de fatos mais vulgares, está-se mergulhado em um denso nevoeiro, à claridade difusa, julga-se que o Sol está sobre o horizonte, motivo pelo qual não se vê o Sol. Se um pássaro cortando o ar é atingido por um chumbo mortal, julga-se que um hábil atirador o tenha ferido embora não se veja o atirador. Não é, pois necessário ter-se visto uma coisa para saber que ela exista. Em tudo, é observando-se os efeitos que se chega ao conhecimento das causas.

3. – Um outro princípio também elementar e passado à condição de axioma à força da verdade, é que todo efeito inteligente deva ter uma causa inteligente.

Se indagássemos qual é o inventor de tal engenhoso mecanismo, o arquiteto de tal monumento, o escultor de tal estátua, o pintor de tal quadro, que se pensaria disso se respondesse que eles foram feitos exclusivamente por si? Quando se vê uma obra prima de arte ou da indústria, diz-se que deva ser o produto de um homem genial, porque uma alta inteligência deve presidir à sua concepção; julga-se nada menos que um homem deva fazê-lo, porque se sabe que a coisa não está abaixo da capacidade humana, mas não virá a pessoa pensar de dizer que ela saiu de um cérebro de um idiota ou de um ignorante, e ainda menos que seja trabalho de um animal o produto do acaso.

4. – Por toda parte se reconhece a presença do homem por suas obras. Se abordar uma terra desconhecida, seja ela um deserto, e que aí se descubra o menor vestígio de trabalhos humanos, conclui-se que criaturas humanas habitaram esta região. A existência dos homens anti-diluvianos não se provaria somente por fósseis humanos, mas também e com toda certeza, pela presença nos terrenos desta época de objetos trabalhados pelos homens; um fragmento de vaso, uma pedra talhada, uma arma, um tijolo, bastariam para atestar sua presença. Pela rusticidade ou pela perfeição do trabalho reconhece-se o grau de inteligência e avançamento dos que o tenham realizado. Se, pois, encontrando em um país habitado exclusivamente por selvagens, descobrir-se-á uma estátua digna de Fídias, hesitar-se-á em dizer que os selvagens sendo incapazes de tê-la feito, ela deva ser obra de uma inteligência superior a destes selvagens.

5. – Pois bem! Lançando seus olhos em torno de si, sobre as obras da natureza, observando a previdência, a sabedoria, a harmonia que presidem a todas, reconhece-se que não o existe nenhuma que não ultrapasse o mais alto porte da inteligência humana, já que o maior gênio da Terra não teria criado o menor talo de erva. Desde então que a inteligência humana não as pode produzir, é porque são produto de uma inteligência superior à da humanidade. Esta harmonia e esta sabedoria estendendo-se desde o grão de areia e a pústula até os astros inumeráveis que circulam no espaço, é preciso concluir que esta inteligência envolve o infinito, a menos que se diga que haja efeito sem causa.

6. – A isso alguns contrapõem a objeção seguinte:

As obras ditas da natureza são o produto de forças materiais que agem mecanicamente, por resultado das leis de atração e de repulsão; as moléculas dos corpos inertes se agregam e se desagregam sob o domínio dessas leis. As plantas nascem, desenvolvem-se, crescem e se multiplicam sempre da mesma maneira, cada qual na sua espécie, em virtude dessas mesmas leis; cada coisa é semelhante a aquilo de onde tenha saído; o crescimento, a floração, a frutificação, a coloração estão subordinadas a causas materiais, tais como o calor, a eletricidade, a luz, a umidade, etc. É o mesmo com os animais. Os astros se formam pela atração molecular e se movem perpetuamente em suas órbitas pelo efeito gravitacional. Esta regularidade mecânica no emprego das forças naturais não acusa jamais uma inteligência livre. O homem movimenta seu braço quando ele quer e como ele quer, mas o que o movimentasse no mesmo sentido após seu nascimento até sua morte, seria um autômato; ora, as forças orgânicas da natureza, consideradas em seu conjunto, são, de alguma sorte, automáticas.

Tudo isso é verdadeiro; mas estas forças são efeitos que devam ter uma causa e ninguém pretendeu que constituíssem a divindade. Elas são materiais e mecânicas; não são nunca inteligentes por elas próprias, isso é ainda verdadeiro; mas são colocadas em obras, distribuídas apropriadas para as necessidades de cada coisa por uma inteligência que não é a dos homens. A útil apropriação destas forças é um efeito inteligente que denota uma causa inteligente. Um pêndulo se move com uma regularidade automática e é esta regularidade que faz o mérito. A força que a faz agir é toda material e nada inteligente; mas o que seria deste pêndulo se uma inteligência não tivesse combinado, calculado, distribuído o emprego desta força por lhe fazer movimentar com precisão? Do que a inteligência não está no mecanismo do pêndulo, e do que não se a veja, seria racional concluir que ela não exista? Toma-se-lhe por seus efeitos.

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenhosidade do mecanismo atesta a inteligência e a sabedoria do relojoeiro. Quando se vê um de seus pêndulos complicados que marcam a hora das principais cidades do mundo, o movimento dos astros, que funcionam das áreas que parecem, em uma palavra, vos falar por vós, dar a propósito denominado esclarecimento do qual tereis necessidade, jamais veio a pensar de qualquer um em dizer: eis um pêndulo bem inteligente?

Assim o é o mecanismo universal; Deus não se mostra, mas afirma-se pelas suas obras.

7. – A existência de Deus é, pois um fato adquirido, não somente pela revelação, mas pela evidência material dos fatos. Os povos, os mais selvagens não tiveram revelação e, entretanto creem indistintamente na existência de um poder sobre-humano; é que os selvagens, por si próprios, não fogem às consequências lógicas; eles veem as coisas que estão acima do poder humano e o concluem que elas provêm de um ser superior à humanidade.

DA NATUREZA DIVINA

8. – Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. (a) Temerário seria aquele que pretendesse levantar o véu que o oculta da nossa vista; falta-nos ainda o senso que só se adquire pela completa depuração do Espírito. Mas se não se pode penetrar em sua essência, sua existência sendo dada como premissa, pode, pela razão, chegar ao conhecimento de seus atributos necessários; porque, vendo o que não pode ser sem parar de ser Deus, conclui-se o que deva sê-lo.

Sem o conhecimento dos atributos de Deus, será impossível compreender a obra da Criação. É o ponto de partida de todas as crenças religiosas e é falta de se estar referido como ao farol que lhes pudesse dirigir que a maior parte das religiões tem errado em seus dogmas. As que não são atribuídas a Deus o todo poder, imaginam vários deuses; as que não lhe atribuem a soberana bondade, fazem de Deus um colérico, ciumento, parcial e vingativo.

9. – Deus é a suprema e soberana inteligência. A inteligência do homem é limitada, já que não pode fazer nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abarcando o infinito, deve ser infinita. Se a supuséssemos limitada em um ponto qualquer, poderíamos conceber um Ente ainda mais inteligente, capaz de compreender o que o outro não faria, e assim, de sequência ao infinito.

10. – Deus é eterno, é como dizer que não tem nem começo nem fim. Se tivesse tido um começo, é que teria saído na nada; ora o nada não é nada e nada pode produzir; ou bem Ele teria sido criado por um outro ser anterior e, então, é este Ente que será Deus. Si se supuser um começo ou um fim, poder-se-á, então, conceber um Ente tendo existência anterior a Ele, ou podendo existir após ele e, assim, em sequência, até o infinito.

11. – Deus é imutável. Se fosse sujeito a trocas, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.

12. – Deus é imaterial; é como dizer que sua natureza difere de tudo aquilo que chamamos de matéria; todavia, Ele não seria imutável, porque estaria sujeito às transformações da matéria.

Deus não tem forma apreciável a nossos sentidos; sem o que seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus. A boca de Deus, porque o homem só conhecendo ele, prende-se por termos de comparação a tudo o que não compreenda. Estas imagens nas quais se representa Deus sob a figura de um ancião de longas barbas, coberto por um manto, são ridículas; elas têm o inconveniente de rebaixar o ser supremo às mesquinhas proporções da humanidade; disso, atribuir-lhe as paixões dos humanos, fazendo um Deus colérico e ciumento não há mais que um passo.

13. – Deus é todo poderoso. Se não tivesse o supremo poder, poder-se-ia conceber um ente mais poderoso, e, em decorrência, até que se encontrasse um Ente que nenhum outro pudesse ultrapassar em poder e este, então, é que seria Deus. Ele não teria feito todas as coisas e aquilo eu não tivesse feito, seria obra de outro deus.

14. – Deus é soberanamente justo e bom. A sabedoria providencial das leis divinas se revela nas menores coisas, bem como nas maiores e esta sabedoria não permite que se duvide nem de sua justiça nem de sua bondade. Estas duas qualidades implicam todas as outras; se as supusermos limitadas, nem que seja em um só ponto, poder-se-á conceber um ente que os possuiria a um mais alto grau e que lhe seria superior.

O infinito de uma qualidade exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a reduzisse ou a anulasse. Um ser infinitamente bom não poderia ter a mínima parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau ter a menor parcela de bondade; igualmente que um objeto não poderia ser de um negro absoluto com o mais ligeiro matiz branco, nem um branco absoluto com a menor tacha de negro.

Deus não saberia, pois ser ao mesmo tempo bom e malvado, porque então, não possuindo nem uma nem outra destas qualidades ao supremo grau, não seria Deus; todas as coisas estariam submetidas ao capricho e não haveria estabilidade para nada. Ele só poderia ser infinitamente bom ou infinitamente mau; e se fosse infinitamente mau não faria nada de bom; ora como suas obras testemunham sua sabedoria, sua bondade e sua solicitude, torna-se necessário concluir que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele deve ser infinitamente bom.

A soberana bondade implica em soberana justiça; porque, se atuasse injustamente ou com parcialidade em uma só circunstância, ou à consideração de uma só de suas criaturas, ele não seria soberanamente justo e, por consequência, não seria soberanamente bom. (b)

15. – Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois poder-se-ia conceber sempre um ser possuindo o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo. É preciso que ele seja infinito em tudo.

Os atributos de Deus, sendo infinitos, não são susceptíveis nem de argumentação nem de diminuição, sem o que não seriam infinitos, e Deus não seria perfeito. Si se tirasse a menor parcela de um só de seus atributos, não seria mais Deus, já que poderia existir um Ente mais perfeito.

16. – Deus é único. A unidade de Deus é a consequência do infinito absoluto das perfeições. Um outro Deus não poderia existir sem a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas; porque, se houvesse entre eles a mais ligeira diferença, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder e não seria Deus. Se houvesse entre eles igualdade absoluta, seria para toda eternidade um mesmo pensamento, uma mesma vontade, um mesmo poder; assim, confundido em suas identidades, não seria, em realidade, senão, apenas um Deus. Se eles tivessem cada qual atribuições especiais, um faria o que o outro não fizesse e, então, não haveria entre eles igualdade perfeita, já que nem um nem outro teria a soberana autoridade.

17. – É a ignorância do princípio de infinito das perfeições de Deus que engendrou o politeísmo, culto de todos os povos primitivos; eles atribuem a divindade a toda autoridade que parecesse acima da humanidade; posteriormente, a razão lhes levou a confundir estas diversas autoridades em uma só. Depois, à medida que os homens compreenderam a essência dos atributos divinos, suprimiram de seus símbolos as crenças que o tornavam em negação.

18. – Em resumo, Deus só pode ser Deus nas condições de não ser ultrapassado em nada por um outro ser; porque, então, o ser que o ultrapassasse em o que quer que seja, mesmo que fosse da espessura de um cabelo, seria o verdadeiro Deus. Por isto, é preciso que seja infinito em todas as coisas.

É assim que, a existência de Deus, estando constatada pelas realizações de suas obras, chega-se, pela simples dedução lógica, a determinar os atributos que o caracterizam.

19. – Deus é, pois a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, todo poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não poderia ser outra coisa.

Tal é o suporte sobre o qual repousa o edifício universal; é o farol de onde os raios de luz se estendem sobre o universo inteiro e que só pode guiar o homem na busca da verdade; em o seguindo, não se extraviará jamais e se frequentemente se perde, é falta de ter seguido a rota que lhe fora indicada.

Tal é também o critério infalível de todas as doutrinas filosóficas e religiosas; o homem tem, para julgá-las, uma medida rigorosamente exata nos atributos de Deus e pode-se dizer com certeza que toda teoria, todo princípio, todo dogma, toda crença, toda prática que esteja em contradição com um só de seus atributos, que tenda não apenas a anulá-la, mas, simplesmente, a debilitá-la, não pode estar com a verdade.

Em filosofia, em psicologia, em moral, em religião, não existe verdade que se descarte de um nada das qualidades essenciais da divindade. A religião perfeita será aquela que nenhum artigo de fé estará em oposição com estas qualidades, onde todos os dogmas poderiam suportar a prova deste controle, sem que receba nenhum ataque.

A PROVIDÊNCIA

20. – A providência é a solicitude de Deus por todas as criaturas. Deus está por toda parte, vê tudo, preside a tudo, mesmo às pequenas coisas; é nisso que consiste a ação providencial.

“Como Deus, tão grande, tão poderoso, tão superior a tudo, pode imiscuir-se nestes pormenores ínfimos, preocupar-se com os menores atos e os menores pensamentos de cada indivíduo? Tal é a questão que se assenta a incredulidade, de onde ela conclui que, em admitindo a existência de Deus, sua ação não deva se estender senão sobre as leis gerais do Universo; que o Universo funciona por toda eternidade em virtude destas leis às quais cada criatura submete-se à sua esfera de atividade, sem que seja necessário o concurso incessante da providência”.

21. – Em seu estado atual de inferioridade, os homens não podem dificilmente senão compreender Deus infinito, porque eles mesmos sendo fechados e limitados, pois, só entendem Deus assim, como eles: representam-no como um ser circunscrito e fazem uma imagem à sua imagem. Nossos quadros em que os pintam sob traços humanos não contribuem pouco para manter este erro no espírito das massas que adoram nele a forma, mais do que o pensamento. É para um grande número, um soberano poderoso sobre um trono inaccessível, perdido na imensidão dos céus, e porque suas faculdades e suas percepções são restritas, não compreendem que Deus possa ou se digne em intervir diretamente nas pequenas coisas.

22. – Na incapacidade em que está o homem de compreender a essência própria da divindade, só pode fazer dela uma ideia aproximativa por meio de comparações necessariamente muito imperfeitas, mas podem, pelo menos, mostrar-lhe a possibilidade do que, à primeira abordagem, lhe pareça impossível.

Suponhamos um fluido assaz sutil para penetrar em todos os corpos, é evidente que cada molécula deste fluido, encontrando-se com cada molécula da matéria, produzirá sobre o corpo uma ação idêntica à daquela que produzirá a totalidade do fluido. É o que a Química demonstra todos os dias em proporções limitadas.

Este fluido não sendo inteligente, age mecanicamente apenas por forças materiais; mas, se supusermos este fluido dotado de inteligência, de faculdades perceptivas e sensitivas, ele agirá não mais cegamente, porém, com discernimento, com vontade e liberdade, ele verá, entenderá e sentirá.

As propriedades do fluido perispiritual (c) podem nos dar uma ideia. Ele não é inteligente por ele próprio, porque é matéria, mas é o veículo do pensamento, das sensações e das percepções do Espírito; é, por conseguinte a sutileza deste fluido que os Espíritos penetram por tudo, que eles perscrutam nossos pensamentos, os mais íntimos, que veem e procedem à distância; é a este fluido atingido a um certo degrau de depuração que os Espíritos superiores devem o dom de ubiquidade; basta um raio de seu pensamento dirigido sobre diversos pontos, para que possam aí se manifestar sua presença simultaneamente. A extensão desta faculdade é subordinada ao grau de elevação e de depuração do Espírito. É, ainda, com ajuda deste fluido que o próprio homem age à distância pelo poder da sua vontade, sobre certos indivíduos, que modifica, dentro de certos limites, as propriedades da matéria, dá a substâncias inativas as propriedades determinadas, repara as desordens orgânicas e opera curas pela imposição das mãos.

23. – Mas os Espíritos, por mais elevados que o sejam, são criaturas limitadas em suas faculdades, seu poder, e a extensão de suas percepções e não saberia, sob este aspecto, aproximar-se de Deus. Conforme possam nos servir de ponto de comparação. O que o Espírito não pode executar senão em um limite restrito, Deus, que é infinito, executa-o em proporções infinitas. Há ainda esta diferença que a ação do Espírito está momentaneamente e subordinada às circunstâncias: a de Deus é permanente; o pensamento do Espírito abarca durante um tempo um espaço circunscrito; o Deus abarca o Universo e a eternidade. Em uma palavra, entre os Espíritos e Deus existe a distância do finito ao infinito.

24. O fluido perispiritual não é o pensamento, mas o agente e o intermediário deste pensamento; como é ele que a transmite, ele o está, de alguma forma, impregnado e, na impossibilidade em que estamos de isolar, ele parece apenas se fazer com o fluido como o som parece se fazer apenas, como um sopro, de sorte que podemos, por assim dizer, materializá-lo. Da mesma forma que dizemos que o ar se transforma no som, podemos, tomando o efeito pela causa, dizer que o fluido torna-se inteligência.

25. – Que o seja ou não, assim, o pensamento de Deus, isto é, que atua diretamente ou por intermédio de um fluido, para facilidade de nossa inteligência, representá-lo-emos sob a forma concreta de um fluido inteligente, (d) enchendo o Universo infinito, penetrando em todas as partes da Criação: a natureza inteira está imersa no fluido divino; ora, em virtude do princípio que as partes de um todo são da mesma natureza, e têm a mesma propriedade que o todo, cada átomo deste fluido, si se puder exprimir assim, possuindo o pensamento, isto é, os atributos essenciais da divindade e estando este fluido por toda parte, tudo está sujeito à sua ação inteligente, à sua previsão, à sua solicitude; nem um ser ínfimo que o seja, que não o esteja de alguma forma saturado. Estamos, assim, constantemente em presença da divindade; não há uma só de nossas ações que possamos subtrair de seu olhar; nosso pensamento está em contato incessante com seu pensamento, e é com razão que se diz que Deus encontra-se nas mais profundas entranhas de nosso coração; estamos nele como ele está em nós, conforme a palavra do Cristo.

Por estender sua solicitude sobre todas as criaturas, Deus não tem, pois, necessidade de mergulhar seu olhar do alto da imensidão; nossas preces, para serem ouvidas por Ele, não têm necessidade de transpor o espaço, nem de serem ditas com uma voz retumbante, porque sem cessar, a nosso lado, nossos pensamentos se repercutem nele. Nossos pensamentos são como os sons de um sino que faz vibrar todas as moléculas do ar ambiente.

26. – Longe de nós o pensamento de materializar a divindade; a imagem de um fluido inteligente universal é evidentemente, apenas uma comparação, mas, própria para dar uma ideia mais justa de Deus que os quadros que o representam sob uma figura humana; só tem por objeto fazer que compreenda a possibilidade de Deus estar por toda parte e de se ocupar de tudo.

27. Temos incessantemente sob os olhos um exemplo que pode nos dar uma ideia da maneira pela qual a ação de Deus pode se exercer sobre as partes as mais íntimas de todos os seres e, por consequência como as impressões, as mais sutis de nossa alma, chegam até Ele. Foi tirado de uma instrução dada por um Espírito sobre este assunto.

“Um dos atributos da divindade é a infinidade; não se pode representar o Criador como sendo uma forma, um limite, um marco qualquer. Se ele não fosse infinito, poder-se-ia conceber alguma coisa maior que ele e este seria algo que seria Deus. – Sendo infinito, Deus está em toda parte porque, se não o estivesse, não seria infinito; não se pode sair desse dilema. Pois, se há um Deus e isto não se faz de dúvida para ninguém, este Deus é infinito e não se pode conceber a extensão que ele ocupe. Ele se encontra, por consequência, em contato com toda sua Criação; Ele as envolve e elas estão nele; é, pois, compreensível que ele seja em referência direta com cada criatura, e por vos fazer compreender também materialmente que possível, de qual maneira esta comunicação tem lugar universalmente e constantemente, examinemos o que se passa com o homem entre seu Espírito e seu corpo.

“O homem é um pequeno mundo do qual o diretor é o Espírito e do qual o princípio dirigido é o corpo. Neste Universo, o corpo representará uma criação da qual o Espírito será Deus. (Compreenda que não se pode haver aqui senão uma questão de analogia e não de identidade). Os membros deste corpo, os diferentes órgãos que o compõem, seus músculos, seus nervos, suas articulações, são igualmente individualidades materiais, si se possa dizer, localizadas em um lugar especial do corpo; bem que o número destas partes constitutivas tão variáveis e tão diferentes da natureza, seja considerável, não está entretanto duvidoso para ninguém que não possa se mostrar com movimentos, que uma impressão qualquer não possa ter lugar em um lugar particular, sem que o Espírito disso tenha consciência. Haverá sensações diversas em vários lugares simultâneos?

O Espírito os experimenta a todos, os discerne, os analisa, assinala a cada um sua causa e seu lugar de ação.

“Um fenômeno análogo tem lugar entre a Criação e Deus. Deus está em todo lugar da natureza, como o Espírito o está no corpo; todos os elementos da criação estão em relação constante com Ele, como todas as células do corpo humano estão em contato imediato com o ser espiritual; não há, pois, razão para que fenômenos de mesma ordem não se produzam da mesma maneira, em um e outro caso.

“Um membro se agita: o Espírito o sente; uma criatura percebe cada manifestação, distingue-as e as localiza. As diferentes criações, as diferentes criaturas, se agitam, pensam, agem diversamente, e Deus sabe de tudo o que se passa, assinala em cada um o que lhe seja particular”.

“Pode-se deduzir igualmente a solidariedade da matéria e da inteligência, a solidariedade de todos os seres de um mundo entre eles, a de todos os mundos e, enfim, as das criações e do Criador”. (QUINEMENT. Sociedade de Paris, 1867)

28. – Compreendermos o efeito, já é bastante; do efeito remontamos à causa e julgamos sua grandeza pela grandeza do efeito; mas sua essência íntima nos escapa, como a da causa de uma multidão de fenômenos. Conhecemos o efeito da eletricidade, do calor, a luz, da gravitação; nós os calculamos, e, entretanto, ignoramos a natureza íntima do princípio que os produz. (e) Será, pois, mais racional negar o princípio divino, porque não o compreendemos?

29. – Nada impede de admitir pelo princípio da soberana inteligência, um centro de ação, um foco principal irradiando sem cessar, inundando o Universo de seus eflúvios como o Sol da sua iluminação. Mas onde se encontra este foco? É o que ninguém pode dizer. É provável que não esteja fixado sobre um ponto determinado que não o seja sua ação e que ele percorra incessantemente as regiões do espaço sem contornos. Se, simples Espíritos têm o dom da ubiquidade, esta faculdade, em Deus deve ser sem limite. Deus, enchendo o Universo, poderia ainda admitir a título de hipótese, que este foco não teria necessidade de se transportar, e que se forma sobre todos os pontos onde a soberana vontade julga a propósito de se produzir, de onde se poderia dizer que ele está em todo lugar e em nenhuma parte.

30. – Ante estes problemas insondáveis, nossa razão deve se humilhar. Deus existe: nós não saberíamos duvidar; é infinitamente justo e bom: é sua essência; sua solicitude se estende a todos: não o compreendemos; não pode, pois, querer senão o nosso bem, é por isso que devemos ter confiança n’Ele. Eis o essencial; pelo excesso, esperamos que sejamos dignos de compreendê-lo.

A VIDA DE DEUS

31. – Uma vez que Deus está em toda parte, por que não o vemos? Vê-lo-emos, deixando a Terra? Tais são as questões que se apresentam diariamente.

A primeira é fácil de responder, nossos órgãos materiais têm percepções limitadas que os tornam impróprios à visão de certas coisas, mesmo materiais. É assim que certos fluidos escapam totalmente à nossa vista e aos nossos instrumentos de análise, e, portanto, não duvidamos de sua existência. Vemos o efeito da peste (f) e não vemos o fluido que a transporta; vemos os corpos se moverem sob influência da força de gravitação e não vemos esta força.

32. – As coisas de essência espiritual não podem ser percebidas por organismos materiais; apenas pela visão espiritual é que podemos ver os Espíritos e as coisas do mundo material; nossa alma, apenas, pode, pois ter a percepção de Deus. Vê-la-ia ela, imediatamente após a morte? É o que as comunicações de além túmulo podem somente nos ensinar. Por elas sabemos que a vida de Deus só é privilégio das almas mais depuradas e que, bem assim, pode possuírem, abandonando sua vestimenta terrestre, o grau de desmaterialização necessário. Qualquer comparação vulgar fá-lo-ão facilmente compreender.

33. – Aquele que está no fundo de um vale envolvido por uma bruma espessa, não vê o Sol; conforme, como dissemos anteriormente, pela luminosidade difusa ele julga a presença do sol. Se ele escalar a montanha, à medida que se eleva, o nevoeiro se desfaz, a luz começa a ser cada vez mais viva, mas ele não vê, ainda, o Sol; quando ele começa a percebê-lo, ele está ainda coberto, porque o menor nevoeiro é suficiente por encobrir sua revelação. Apenas quando o ser completamente elevado acima da camada brumosa, que se encontrando em uma atmosfera completamente pura, ele o vê em todo seu esplendor.

É da mesma forma, pois, que a cabeça estará coberta por vários véus; a princípio, não vê absolutamente nada; a cada véu que suspende, distingue uma luz cada vez mais clara; só quando o último véu se dissipa é que percebe nitidamente as coisas.

Ainda o é igual um licor carregado de matérias estranhas; é confuso, a princípio; a cada destilação sua transparência aumenta, até que, estando completamente depurado, adquire uma limpidez perfeita e não apresenta nenhum obstáculo à sua visão.

Assim o é a alma. O envoltório perispiritual, se bem que invisível e impalpável por nós, é, por ela, uma verdadeira matéria, bastante grosseira ainda para certas percepções. Este envoltório se espiritualiza à medida que a alma se eleva em moralidade. As imperfeições da alma são como os véus que obscurecem sua vista; cada imperfeição da qual se desfaz é um véu a menos, mas só o é após estar-se completamente depurada que ela desfruta da plenitude de suas faculdades.

34.- Deus, sendo a essência divina por excelência, não pode ser percebido em toda sua claridade senão por Espíritos chegados ao mais alto grau de desmaterialização. Se os Espíritos imperfeitos não o vêm, não é que eles estejam mais distantes que os outros; como eles, como todos os seres da natureza, estão mergulhados no fluido divino, como nos estamos na luz; somente suas imperfeições são véus que lhe furtam a visão; quando o nevoeiro estiver dissipado, eles o verão resplandecer; até lá, não terão necessidade nem de se elevar nem de ir procurá-lo nas profundezas do infinito; a visão espiritual estando desembaraçada das belidas (manchas) morais que a obscureciam, eles o verão em qualquer lugar que se encontrarem, que o seja mesmo na Terra, porque está em toda parte.

35. O espírito só se depura com o tempo e as diferentes encarnações são os alambiques ao fundo dos quais deixa, a cada vez, algumas impurezas. Em deixando seu envoltório corporal, ele não se despoja instantaneamente de suas imperfeições; é porque, ocorre que, depois da morte não veem mais Deus que de sua vida; mas, à medida que se purificam, eles apresentam uma intuição mais distinta; se não o veem, compreendem-no melhor; a luz é menos difusa. Então, pois, quando os Espíritos dizem que Deus lhes impede de responder a tal questão, não é que Deus os apareça, ou lhes dirija a palavra para lhes prescrever ou interditar tal ou qual coisa, não; mas eles o sentem; recebem os eflúvios de seu pensamento, como lá nos chega a atenção dos Espíritos que nos envolvem com seus fluidos, embora nós não o vejamos.

36. – Nenhum homem pode, pois, ver Deus com os olhos da carne. Se este favor fosse concedido a alguns, não o seria senão ao estado de êxtase, no caso em que a alma estando desprendida dos laços da matéria, quanto fosse possível durante a encarnação. Um tal privilégio só aconteceria d’alhures com almas de elite, encarnadas em missão e não em expiação. Mas como os Espíritos de ordem mais elevada resplandecem de um clarão encantador, é possível que os Espíritos menos elevados encarnados ou desencarnados, pasmado com o esplendor que os envolva, creiam ter visto o próprio Deus. Tal se vê perfeitamente um ministro tomado por seu soberano.

37. – Sob qual aparência Deus se apresenta aos que se tornam dignos deste favor? Será sob uma forma qualquer? Sob uma figura humana ou como um foco resplandecente de luz? É que a linguagem humana é impotente para descrever, porque não existe entre nós nenhum ponto de comparação que possa nos dar uma ideia; somos como os cegos aos quais se procura, em vão, fazer que compreenda o brilho solar. Nosso vocabulário está limitado a nossas necessidades e ao círculo de nossas ideias; o dos selvagens não saberia descrever as maravilhas da civilização; o dos povos mais civilizados é muito pobre para descrever os esplendores dos céus, nossa inteligência muito limitada para os compreender e nossa visão muito fraca seria ofuscada.

NOTAS DO TRADUTOR

(a) Crenças asiáticas, a partir de Confúcio, afirmam que o conhecimento humano não alcança nem compreende Deus porque este é infinito e aquela é limitada ou finita.

(b) Uma outra conotação da filosofia asiática é que existe uma corrente que admite que Deus tenha criado o Universo para combater o mal.

(c) Naquela época definia-se tudo que não fosse sólido, como sendo fluindo, incluindo as energias, como a eletricidade e que mais, daí, o conceito de “fluido perispiritual” atualmente dito “energia parapsíquica”.

(d) Os estudos atuais levam os pesquisadores a concluir que existem 73% de vazio no Universo e 27% de energia. Este vazio pode ser aquilo que Kardec definiu como fluido inteligente porque, de fato, pelos observatórios astronômicos, daí surge a atuação de agentes estranhos ao Universo dando-lhe formas, como no caso estudado da formação planetária em torna da estrela Alfa Centaurus. Esta ideia do vazio leva à figura de um tanque cheio de espuma de sabão. É como se estes espaços fossem preenchidos pela Espiritualidade.

(e) De fato, só após os estudos de Planck (1901) sobre as emissões quânticas, é que se pôde ter uma ideia mais precisa do que eram estes fenômenos. E a última revisão da Gênese feita por Kardec data de 1868, quando saiu sua 3ª edição, a oficialmente adotada pelos verdadeiros espíritas.

(f) Os estudos de Pasteur sobre a micro bacteriologia datam de 1870 em diante, quando ele descobriu a causa fermentação da cerveja.

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